Essas historinhas, que tanto encantaram a minha infância, resgatadas da Coleção Tesouro Infantil, da Editora Melhoramentos, foram recuperadas para comemorar o primeiro aniversário de meu netinho Guilherme Meton.

Que o meu ruivinho cacheado aprecie essas historinhas, é o desejo, com muito carinho,

da vovó

 

 

A CIDADE DOS ANÕEZINHOS- Parte III

Autor: William Donahey
Tradução: Mário Donato e Marcos Rei
Ilustrações do autor
Obs. Algumas ilustrações foram modificadas, coloridas e animadas por Maux

 

A INGRATIDÃO DE PERALTA

Os anões tinham uma piscina maravilhosa. Antes de ser piscina, ela havia sido uma terrina, dessas que nós usamos para pôr a comida na mesa. Fora encontrada por acaso e, com muito sacrifício, fizeram-na deslizar sobre tocos de lápis até um bom lugar perto da Cidade. O Turco e o Soldado construíram uma escada até à beira da terrina, uma plataforma e um trampolim. A piscina levava duzentos e setenta e nove dedais d’água. Os anões a enchiam com água do riacho ou esperavam que a chuva a enchesse. Baldear água do regato dava muito trabalho.



Quando o tempo começou a esfriar, os anõezinhos esvaziaram a terrina, com receio de que se partisse, caso a água gelasse. E depois a cobriram para que as últimas chuvas de inverno não a enchessem de novo. Seria também muito trabalhoso esvaziar a terrina todas as vezes que chovesse. Todos os anõezinhos gostavam de nadar, mas Peralta, mais do que todos. Por isso, aborrecia o Comandante com os seus pedidos para que enchesse a piscina em pleno inverno ou nas épocas das chuvas, quando ninguém pensava em nadar. Afinal, o tempo melhorou, e o Comandante disse a Peralta que a piscina poderia ser preparada. Os anõezinhos removeram a coberta, que era um pedaço de papel impermeável, a terrina foi lavada cuidadosamente, e todos se puseram a esperar pela primeira chuva. Poucos dias depois choveu, e a terrina ficou cheia até às bordas. Os anões vestiram as suas roupas de banho e nadaram desde o amanhecer até o cair da noite.



Os pássaros costumavam beber água da terrina, e uma vez um cachorrinho chegou quase a esvaziá-la. Nessa ocasião, os nadadores foram obrigados a carregar setenta e nove de dedais d’água para enchê-la novamente. Peralta ficou por conta e pendurou sobre a piscina uma tabuleta com estes dizeres: "Nenhum cachorro ou gato pode beber água nesta piscina”.

- Mas os cães não sabem ler, disse o Polícia.

- Mas eu sei, respondeu o menino. E lerei o aviso para eles.

Durante muitas semanas não choveu e o calor aumentou. Os pássaros principiaram a procurar a piscina para beber e pouco a pouco, a terrina foi ficando vazia.

Certa manhã, Peralta dirigiu-se à piscina com uma rolha de cortiça para brincar. E encontrou dois pássaros sentadinhos à beira da piscina, bebendo água.

- Que ideia foi essa de beberem água na nossa piscina? Porque não vão beber no regato? gritou ele. Vocês pensam que temos de baldear todo o rio para a piscina só por causa de uns vadios da sua marca?

- Peralta! exclamou Dona Grã-fina, que tomava um banho de sol na plataforma. Você devia envergonhar-se do que acaba de dizer.

- Mas nós não construímos a piscina para os pássaros! exclamou Peralta.

- Você é muito egoísta, Peralta, disse o Comandante, que se dirigia para a piscina ao ouvir a discussão. Estes pássaros têm feito muito por nós e devemos deixar que bebam um gole d’água.

- Eles podem beber água noutro lugar, resmungou Peralta.

Um dos pássaros, que tinha penas amarelas, pôs-se a falar, mas não era fácil entender o que ele dizia. O China foi traduzindo:

- Ele disse que sente muito ter bebido tanta água, mas que não vai ao riacho com medo dos gaviões, que andam por lá à procura de passarinhos.

- Diga-lhe que pode vir beber sempre que quiser, ordenou o Comandante.

O China transmitiu as palavras do Comandante ao pássaro de penas amarelas, e este, sacudindo a cabeça, mostrou que estava muito agradecido.

- Quanto a você, disse o Comandante, voltando-se para Peralta, devia envergonhar-se de si mesmo. Muitas vezes estes pássaros o carregaram nas costas e, agora, você lhes nega um gole d’água!

- Ora, dá muito trabalho baldear água do riacho todas as vezes que se quer nadar, resmungou Peralta novamente.

- Não é verdade, respondeu o Comandante. Os pássaros não bebem dez dedais por dia e, num dia apenas dois rapazes podem perfeitamente transportar o dobro dessa água. Você foi muito mal-educado com os pássaros. Peça-lhes desculpas, ande!

Todos os anões notaram que Peralta já estava realmente arrependido do que dissera. Mas, como era muito teimoso, não dava sinal de querer pedir desculpas.

- Bem, disse o Comandante, num tom de voz severo, enquanto você não pedir desculpas aos pássaros, não entrará na piscina.

Peralta absolutamente não queria ficar sem nadar. Então aproximou-se dos pássaros e disse:

- Sinto muito... que vocês tenham bebido a água da piscina.

Os pássaros ficaram satisfeitos com aquelas “desculpas”, mas os anões mal podiam prender o riso. O Comandante, entretanto, deixou passar as desculpas tão mal arranjadas, e Peralta não se queixou mais. Finalmente, um dia choveu. A piscina ficou cheia até às bordas e então houve água suficiente para os anõezinhos e para os pássaros.

A COLHEITA DOS ANÕES

Os anõezinhos não podiam ir fazer compras no armazém, como todos nós. Como não usavam dinheiro, precisavam plantar para comer. Colhiam também amoras silvestres, nozes e outras frutas, que secavam e armazenavam para o inverno.

Tinham a sua horta, onde plantavam aquilo de que mais necessitavam. Não era uma horta muito grande: possuía apenas uma ou duas plantas de cada espécie. Mas bastava para alimentar a Cidade durante o frio. Como plantavam sempre mais do que precisavam, o que sobrava lhes servia de dinheiro. Quando queriam comprar um ovo, pagavam com milho e trigo.

Quando precisavam contratar um rato, pagavam-lhe o trabalho com alimentos.

Armazenavam cenouras para o coelho, que não podia sair de casa no inverno, por causa do reumatismo. E ainda ofereciam alguns grãos aos pássaros que não tinham o que comer quando a neve cobria a terra. Para eles era fácil a plantação de sementes, mas quando os vegetais cresciam, a colheita se tornava difícil. Cenouras, nabos, batatas e beterrabas eram as coisas mais difíceis de ser colhidas. Os anões tinham de arrancá-las para fora da terra, e isso dava um trabalhão danado. Para tirar do chão umas seis cenouras, os anões gastavam três semanas, além de mais três dias para transportá-las. Os anões suavam para cortar os talos das cenouras, o que faziam com as enxadas. Depois, com picaretas, cavavam a terra ao redor das cenouras. Depois disso, várias tábuas eram postas, em pé, dentro do buraco, para evitar que a terra desabasse sobre os trabalhadores. E os anõezinhos continuavam cavando. O buraco se tornava às vezes tão profundo, que eles não podiam arremessar a terra para fora com as pás. Tinham então de pôr a terra em baldes que eram puxados para cima.

Depois de tirarem a terra, a cenoura era puxada para cima. Isso também não era simples. Amarravam uma corda em volta da cenoura e, por meio de carretilhas, conseguiam puxá-la para fora lentamente. A cenoura era, enfim, colocada sobre uma armação de madeira, que deslizava sobre tocos de lápis. Os anõezinhos empurravam a armação e, à medida que ela avançava, os tocos de lápis que ficavam para trás iam sendo mudados para a frente. Nos terrenos esburacados e nas subidas, era preciso ainda arranjar trilhos sobre os quais passassem os tocos de lápis. E também esses trilhos eram mudados para frente, à medida que a armação avançava.

- Ora bolas! exclamou Peralta, certo dia, depois de muito trabalhar. Se a gente não precisasse comer, também não precisaria trabalhar tanto!

- Tem razão, concordou o Comandante. Se você acha que pode passar o inverno sem comer, não precisa nos ajudar mais.

- Isso não, Comandante! disse Peralta, que nunca perdia uma refeição. Infelizmente, eu sempre tenho fome. E no inverno é ainda pior.



As ervilhas tinham grande importância para os anões. A sua vagem tanto servia de comida como de canoa. Depois de maduras, as ervilhas eram cuidadosamente secas e armazenadas. Com as cascas de algumas delas se faziam as canoas. Bastava opor-lhes dentro uma armação de palitos de fósforo e dar-lhes por fora uma mão de tinta impermeável. Um dos trabalhos mais árduos dos anões era arrancar as batatas do chão. Mas os anões podiam contar com o auxílio dos vizinhos. Ticho, o esquilo, nem sempre estava ocupado e podia arrancar batatas em menos de cinco minutos, livrando os anões de semanas e semanas de trabalho. O Ticho não somente cavava as batatas, como também as tirava dos buracos e ajudava a armazená-las.

O celeiro dos anões era um subterrâneozinho, numa pequena elevação, que ficava nas vizinhanças da casa-sapato. Nele havia portas do tamanho suficiente para a passagem duma batata. Quando o celeiro estava cheio, as portas eram fechadas e cuidadosamente cobertas com grama e terra. Havia também um túnel que ia do porão da casa-sapato até o celeiro, a fim de que o Cozinheiro pudesse apanhar os alimentos sem tomar chuva.



O Cozinheiro tinha uma lista dos alimentos armazenados no celeiro. A lista dizia assim:

7 batatas (As de número 5 e 6 devem ser usadas antes das outras).
1 cebola.
6 cenouras.
2 nabos.
1 beterraba.
190 ervilhas.
42 sementes de feijão branco.
304 sementes de feijão mulatinho.
748 grãos de trigo.
806 grãos de milho.
482 grãos de arroz.
11 sementes de mostarda.

Frutas:
9 morangos secos.
1 maçã seca.
3 pêssegos.
38 amoras.
69 potes de geleia de morango (com 2 gotas cada um).
4 dedais de manteiga de maçã.

Outras coisas:
Ervas para tempero e para remédio.
Um punhado de raízes.
18 avelãs.
41 castanhas.
8 dedais de açúcar de cana.
3 dedais de xarope.
4 dedais de mel.

UMA XICARA DE CAFÉ

Agora que os vegetais estavam todos armazenados, os anões dispunham de bastante tempo para se divertir. Como estava frio e a piscina não podia ser usada, o Comandante ordenou que ela permanecesse fechada durante todo o inverno. Peralta subiu até às bordas da terrina e cobriu-a com papel impermeável. Mas fez a sua tarefa com cara amarrada. Depois de comer, o que mais gostava de fazer era nadar.

Muitas vezes se afastava da Cidade e ia nadar no riacho. Só ele mesmo tinha coragem para isso. Em qualquer lugar onde houvesse água suficiente para o seu corpinho flutuar, ele nadava. Mas, alguns dias depois do fechamento da piscina, Peralta tomou um banho que não desejava.

Vários anõezinhos tinham ido a uma casa próxima da Cidade, onde morava um rato seu amigo. Salta-Salta, o pardal, tinha-lhes contado que o rato perdera um dedo numa ratoeira, e por isso seis anões resolveram fazer-lhe uma visita. Depois de ouvirem o rato contar toda a história do desastre voltaram para casa. Mas, no caminho, decidiram parar numa outra casa onde morava gente grande.

Eles gostavam muito de ver as casas, principalmente quando os seus moradores estivessem ausentes. Não havia ninguém naquela casa, e os anõezinhos, por uma frincha que havia debaixo da porta, penetraram na cozinha. Peralta, como sempre, estava morto de fome. Logo que viu uma xícara em cima da mesa, trepou na cadeira e, num pulo, alcançou a xícara.

- Companheiros! gritou ele. Subam! Temos migalhas de bolo! E há um pouco de açúcar também!

Os anões não podiam resistir ao açúcar. Sem perder tempo, saltaram para cima da mesa. Realmente, havia muitas migalhas perto da xícara. E poucos minutos desapareceram no estômago dos anõezinhos. Quando não tinham mais o que comer, eles puseram-se a examinar toda a mesa. Sobre ela havia uma xícara, uma cafeteira, uma faca e um pote de molho. Peralta trepou na asa da xícara.

 

- Há café na xícara, informou ele aos companheiros.

E, apoiando-se na colher, ficou de pé na beira da xícara. Aposto como darei uma volta pela xícara antes que vocês possam contar até dez!

- Cuidado, que você pode cair e quebrar a sua cabeça de vento, avisou Marinheiro.

- Ora! disse Peralta. Nunca mergulhei numa xícara de café.

Realmente, Peralta correu várias vezes sobre a borda da xícara, e nada lhe aconteceu. Bastião, aí, resolveu imitá-lo. Subiu também e os dois se puseram a correr, a correr, a correr, velozes como um par de moscas.

De repente, Peralta perdeu o equilíbrio. Perdeu o pé e caiu dentro da xícara com grande estrondo. Não se machucou na queda, mas ficou encharcado de café, que felizmente estava frio. Depois, trepando pela colher, saiu para fora da xícara.

- O Comandante vai lhe dizer alguma coisa a respeito disto, disse Tom Mix.

- Por favor! pediu Peralta. Vou lavar minhas roupas no riacho e ninguém precisará saber o que houve.

- É melhor que você se apresse. Você é capaz de ficar resfriado novamente, disse Turco.

Os seis anões desceram da mesa e dispararam para o riacho, que ficava perto da Cidade.

- Escutem, disse Marinheiro, enquanto corriam. Devíamos ter deixado um sinal na mesa, dizendo que alguém caiu dentro da xícara. Assim, a gente grande não beberia o resto do café.

- Ora, ora! exclamou Peralta. Nem por isso ficariam doentes. Não estraguei o café, não. Ainda ontem à noite tomei banho.

Estava frio e Peralta já começara a espirrar quando chegaram ao riacho. O menino tirou a roupa e, mergulhando-a na água, pôs-se a esfregá-la.

- Vou fazer uma fogueira à maneira dos escoteiros, disse Tom Mix. Assim, você poderá aquecer-se enquanto as roupas secam.

China procurou algumas varinhas secas e folhas também já sem viço, e Tom Mix acendeu a fogueira. Turco trouxe um pouco de lenha, e logo depois, perto do riacho, havia uma fogueira capaz de secar tudo quanto eles quisessem.

Os anões improvisaram um varal perto da fogueira e Peralta dependurou nele as suas roupas. Finalmente, depois de secas, o menino vestiu as roupas novamente.

- As roupas ficaram escuras e enrugadas, observou Tom Mix. Será ótimo se você puder entrar em casa e trocar de roupa antes que o Comandante o veja.

- Sim, é o que pretendo fazer, disse Peralta.

Os anõezinhos tomaram o caminho de casa. Mas, antes de chegarem, encontraram-se com o Comandante e o Doutor. Peralta tentou escapar, fazendo que não o via, mas o Comandante o chamou:

- Que foi que aconteceu com as suas roupas? perguntou ele.

- Creio que nada, respondeu Peralta.

- Você caiu no regato, não caiu? insistiu o Comandante.

- Não, senhor, disse o menino.

- Você deve ter caído nalgum lugar, continuou o Comandante. Onde foi?

- Numa xícara de café, disse Peralta, confessando.

- Quantas vezes lhe recomendei que não se metesse em coisas dos homens grandes? disse, zangado, o Comandante.

- Não me meti em nada, respondeu o menino. Apenas caí numa xícara de café.

- Está bem, disse o Comandante. Se caiu numa xícara de café, esteve metido nela. Agora vá para casa e diga ao Cozinheiro que não lhe dê sobremesa ao jantar.

- E qual vai ser sobremesa? ainda quis saber Peralta.

- Parece-me que uvas recheadas com leite de nozes, informou o Comandante, afastando-se em companhia do Doutor.

Peralta não abriu mais a boca. Mas a verdade é que estava muito triste, pois uva recheada com leite de nozes era uma das suas sobremesas prediletas.

PREPARATIVOS PARA O INVERNO

Depois de armazenar todos os vegetais e grãos, os anõezinhos tiveram algumas semanas de descanso e divertimento.

Caçaram algumas rãs para ter carne durante o inverno, e só essa caçada foi uma bela diversão. O Cozinheiro e o Soldado estiveram alguns dias ocupados em salgar e defumar as rãs. Era essa a única carne que os anões comiam. Havia mais um servicinho a fazer antes que a neve principiasse a cair: guardar lenha para a lareira e os fogões.

O Cozinheiro gastava muita lenha no fogão da cozinha e as lareiras de todas as casas precisavam permanecer acesas durante longos meses. Depois, havia muitos outros fogões: na casa da Câmara, na lavandaria e na oficina. E todos esses fogões consumiam montanhas de lenha. Para encher o depósito de lenha, que era uma lata velha, os anões tinham muito que fazer.

Mas a maior parte deles apreciava o trabalho. Principalmente porque os dias de outono eram ainda bonitos, e eles gostavam de estar fora de casa.

- Parece que o inverno está chegando, disse o Polícia, uma tarde, aquecendo as mãos diante das chamas da lareira.

- Tem razão, disse o Doutor. Vi um bando de patos voando para o sul esta manhã. É sinal de que o inverno vem aí.

- Sim, e isso significa que amanhã começaremos a rachar lenha, acrescentou o Comandante. E voltando-se para Tom Mix, perguntou:

- Você já contratou um rato para puxar os troncos mais pesados?

- Sim, senhor, respondeu Tom Mix. Já falei com um rato muito direito, ontem à noite. Virá logo que precisarmos dele. Os arreios já estão preparados. Só estou esperando as suas ordens, Senhor Comandante.

- Muito bem, aprovou o Comandante. Diga ao rato para estar aqui amanhã, bem cedo. Começaremos o trabalho depois do café.

- Esplêndido! exclamou Peralta, que gostava de rachar lenha, embora sempre fizesse o possível para não trabalhar. Posso rachar lenha também?

- Não. Você não pode com o machado, disse o Comandante. Acabaria cortando os próprios dedos. Mas poderá ajudar Tom Mix a transportar os troncos.

- Está bem, repetiu Peralta, e tão alegremente que o Comandante ficou desconfiado. É que Peralta, não gostava de ser contrariado e, dessa vez, ficara satisfeito. Mas a verdade é que Peralta se sentia muito importante em poder ajudar Tom Mix.



Os anõezinhos partiram um pouco atrasados na manhã seguinte. Acontecera que o rato comera muito na noite anterior e ficara doente. Mas, logo que ele chegou, puseram-se todos a trabalhar. Os anões cataram primeiro os pedaços mais leves de madeira e os juntaram numa pilha. Os pedaços mais pesados, tais como pegadores de roupa, maçanetas de portas e pedaços de vassouras, foram transportados pelo rato. Tiveram a sorte de encontrar os cabos de duas vassouras e de um esfregão. Lenha melhor seria impossível. Turco e Bastião serraram esses cabos em pedaços bem pequenos, e o rato os transportou até o local onde se empilhava toda a lenha. Bastião e Turco trabalhavam muito bem com o serrote, e o mesmo o faziam, com o machado, Cozinheiro e o Polícia. Cozinheiro, então, gostava muito de rachar lenha. Era uma espécie de férias para ele. Na sua ausência, Dona Grã-fina e China é que faziam a comida da Cidade.

À hora das refeições, China aparecia com uma cesta cheia de sanduíches de carne de sapo, nozes e jarros de chá. O ar fresco e o trabalho pesado abriam o apetite dos anões. Peralta, que era um grande guloso, geralmente devorava seis ou sete sanduíches e bebia uma semente de cereja cheia de chá.

- É melhor levar a cesta, recomendou Turco ao China, certo dia, em que Peralta comeu dezessete sanduíches. Se você não tomar cuidado, Peralta comerá também a cesta!

Todos os homenzinhos riram e Peralta abriu a boca para engolir outro sanduíche.

- Aposto que Peralta é capaz de tomar um dedal de chá num gole só, disse, rindo, Cozinheiro.

- Nunca me deixaram tentar, respondeu Peralta.

O trabalho continuou dia após dia, até que se juntou uma verdadeira montanha de lenha. Então os anõezinhos a levaram para o depósito, onde ela ficou bem resguardada da umidade.

Atrás da cozinha deixaram também uma pilha de lenha, para maior comodidade do Cozinheiro. A chaleira onde morava China recebeu também uma boa provisão de lenha. E a casa da Câmara, também.

- É bom ter lenha em quantidade, disse Cozinheiro, examinando a pilha perto da sua cozinha.

- É mesmo. A gente se sente sem frio só de ver a lenha amontoada! disse Bastião.

- Agora pode chegar, Dom Inverno! bradou Peralta, sacudindo as mãos para o céu. Pode mandar sua neve. Estamos prontos para recebê-la!



Dom Inverno chegou um pouco atrasado. E chegou zangadíssimo.

O INVERNO CHEGOU

Certa tarde começou a nevar. Os flocos caíam do céu como pedaços de manjar branco. Alguns anõezinhos correram para fora e apanharam flocos de neve. A princípio, a neve derretia assim que tocava o chão. Mas, algumas horas mais tarde, quando se acenderam as luzes da casa-sapato, a terra já estava inteiramente branca.

Os anões estavam jantando quando começou a nevar fortemente. O vento gemia e assobiava por entre as roseiras que cercavam a Cidade. Às vezes, um galho de árvore caía com estrondo sobre o telhado da casa-sapato, e os homenzinhos olhavam uns para outros, com receio.

- Parece uma verdadeira tempestade, observou o Soldado, passando ao vizinho de mesa o prato de feijões.

- Ótimo! exclamou Peralta. Espero que caia bastante neve. Assim poderemos patinar.

- Pois eu não quero ver muita neve, disse o Comandante. Isto é, neve que cubra a terra por muito tempo. A neve é terrível para os pássaros, que não acham o que comer.

Todas as tardes caía neve e o vento punha-se a soprar cada vez mais fortemente. Uma vez Peralta saiu pela porta da cozinha e caminhou sobre a neve. Voltou dizendo que ela estava bastante alta.

- Sobe quase até o meu peito! exclamou, aquecendo-se diante da lareira.

- Bem, então vamos para a cama, pois amanhã cedo teremos de começar a tirar neve, disse o Soldado, acendendo a lanterna e subindo a escada. Os demais anões o acompanharam. E, apesar da tempestade, logo depois todos roncavam.

O Soldado da perna de pau era geralmente o primeiro que se levantava na casa-sapato. Saía da cama com o nascer do sol, acendia o fogão e a lareira, e ia acordar o Cozinheiro. Na manhã seguinte ergueu-se à hora do costume, mas como ainda estava muito escuro, voltou para a cama. Quando tornou a abrir os olhos, viu que alguma coisa estava errada.

- Devia ser dia claro, murmurou ele.

Então saltou da cama e se vestiu. A casa estava completamente às escuras. Foi até à cozinha e acendeu o lampião. E então viu que a cozinha estava cheia de fumaça. Acendeu o fogão e abriu a porta da cozinha... Um montão de neve rolou para dentro e quase o derrubou.

- Mau, mau! resmungou ele. Temos neve até dentro de casa!

Então ergueu a voz e começou a chamar os dorminhocos. Os anõezinhos com os olhos ainda pesados de sono desceram correndo a escada.

Turco e Tom Mix, com as pás, puseram a neve para fora da cozinha. Depois saíram ao ar livre. A casa-sapato estava quase inteiramente coberta. Ficara de fora apenas a chaminé.

Por sorte, havia algumas pás na despensa, sob a cozinha, e com elas os anões puderam abrir uma passagem em volta da casa e afastar o perigo de ficarem enterrados. E todos trabalhavam tomando goles de chá quente. China veio correndo para anunciar que a chaleira também estava toda coberta de neve.

- Tive de sair pela chaminé, disse ele. Há mesmo, muita neve!

Um passarinho amigo pousou num galho de árvore ao lado dos trabalhadores e pôs-se a falar. Falava tão depressa que ninguém o entendia. Mas China, que era o melhor intérprete de pássaros, traduziu as suas palavras:

- Ele disse que está caindo neve em todos os lugares. Disse que até a gente grande está cavando neve para não ficar sepultada. As galinhas não saem dos galinheiros. Gatos e cachorros não saem de casa. Cai muita neve!

- Diga ao passarinho que temos comida e que poderemos dar um pouco aos pássaros famintos, ordenou o Comandante.

China repetiu ao passarinho aquele generoso oferecimento, e o visitante ergueu voo para levar a notícia. Os anões gastaram o dia todo para desentulhar os arredores da casa-sapato. No dia seguinte fizeram o mesmo com a Lavandaria e a casa da Câmara.

- Acho que seria bom cozinhar dois dedais de trigo em óleo, disse o Comandante a Cozinheiro. Há uma porção de pássaros rondando por aí e me parecem esfomeados.

- Já pus trigo no fogo, informou Cozinheiro. E também pus de molho alguns grãos de milho. Parece que este inverno é o pior de todos!

Foi uma sorte para os anõezinhos que eles tivessem boa reserva de alimentos, pois muitos pássaros começaram a aparecer, procurando comida. Cozinheiro não saía da cozinha o dia todo, para que os pássaros sempre pudessem comer alimentos aquecidos. Deu de comer a dezenas de pardais. Até Zeca, o Arreliento, o gaio azul, apareceu por ali, pedindo de comer. E devorou quase um dedal de milho com arroz. Como ele, para comer, espantara um pardal, o Comandante lhe passou uma repreensão:

- Isso não é nada bonito! Só você é que quer comer?

- Não quero ninguém perto de mim quando estou comendo, disse o gaio azul.

- Pois você não terá mais o que comer se não melhorar o seu comportamento, disse o Comandante.

E como Zeca, o Arreliento, sabia que o Comandante cumpria a sua palavra, deixou os demais pássaros em paz. Alguns dias mais tarde, os pássaros já vinham em menor número. Salta-Salta, o pardal, veio com a notícia de que os homens grandes também estavam atirando migalhas de pão para as avezinhas.

- Boa notícia, não há dúvida! exclamou Cozinheiro. Ficaríamos sem nada para nós se eles continuassem por aqui. Os comilões deram sumiço a seis dedais de milho, dois de arroz e onze de trigo!

SEPULTADO NO GÊLO

Depois daquela tempestade de neve ainda fez bastante frio, mas a água do riacho não chegou a gelar. Isto é, havia gelo, sim, mas só na superfície. Por isso, ainda não se podia deslizar. Os anões estavam meio desapontados, pois eram doidos pela patinação. Deslizavam sobre uma casca de banana ou sobre qualquer outra coisa escorregadia. Mas o melhor era deslizar sobre o gelo. Todos os anõezinhos, com exceção do Soldado da perna de pau, tinham patins. Turco fabricava o seu com pedaços duma lâmina de barbear usada. Os pedaços tinham sido pregados em duas tabuinhas que, por sua vez, eram amarradas aos pés dele por tiras de pele de rã. Com esses patins, Turco parecia voar sobre o gelo.



- Formidável! exclamou Marinheiro, que era excelente patinador e que podia fazer toda a espécie de acrobacias sobre o gelo. Queria que a água gelasse duma vez para poder patinar!

- O gelo ainda não está bom para a patinação. Não quero que ninguém tente patinar até que haja segurança, ordenou o Comandante, com os olhos em Peralta.

- Não estive patinando, disse o menino, com um olhar de quem tem a consciência pesada.

- Mas estava pensando nisso, disse o Comandante, sorrindo.

- Mais ou menos, resmungou Peralta.

- Pois fique avisado de que não haverá patinação enquanto o gelo não estiver bem firme, disse o Comandante. Digo isso porque não quero desastres por aqui.

- Tem razão, concordou o Doutor. Às vezes, formam-se verdadeiras armadilhas sob uma capa de gelo. E não é nada bom afundar n’água gelada.

- Ora, ora! exclamou Peralta. Se eu afundar, quebro o gelo com uma cabeçada e saio nadando!

- Você não será capaz de fazer isso debaixo d’água, afirmou Marinheiro. Provavelmente ficaria gelado e não mexeria nem um braço.

- E mesmo que conseguisse, apanharia uma pneumonia, acrescentou o Doutor.

- Ora, ora! repetiu Peralta. Não se preocupem comigo. Eu sei tomar conta da minha pele.

- Pode ser, disse o Comandante, piscando um olho. Mas, às vezes, bem que você precisa de alguma ajuda...

Os anões foram muitas vezes até ao riacho para ver se a água já tinha gelado. Mas durante toda uma semana o riacho não gelou. Peralta, impaciente, começou a dar giros pela vizinhança, a fim de descobrir uma panela ou mesmo uma frigideira onde pudesse patinar em segurança. Encontrou, finalmente, uma caçarola nos fundos da casa de gente grande. Trepando numa vassoura, chegou até às bordas da caçarola e viu que havia gelo dentro dela. Com a ponta do pé, o menino experimentou a consistência do gelo: estava sólido. Vagarosamente, aventurou-se a pisar nele com os dois pés. Mas, nisso, a capa de gelo se rompeu e Peralta desapareceu dentro da água, que estava por baixo.



- Onde está Peralta? perguntou o Comandante na hora do jantar, ao ver vazia a cadeira do menino.

- Há uma hora mais ou menos eu o vi caminhando para uma casa da gente grande, informou Turco.

Como Peralta era sempre o primeiro a chegar para as refeições, a sua ausência encabulou o Comandante.

- Vamos procurá-lo depressa. Quando Peralta deixa de vir comer, é porque houve desastre sério!

Os anõezinhos nem tocaram nos pratos. Levantaram-se e seguiram o Comandante para a casa indicada. Encontraram o rasto do menino sobre a neve, até o local onde estava a caçarola. Alguns dos anõezinhos então, subiram pela vassoura e olharam para dentro da caçarola. Lá estava ele! Peralta agarrava-se a um pedaço de gelo e estava roxo de frio. Turco arrancou um fio da vassoura e passou uma ponta dele ao moleque, que a segurou mais do que depressa. Os anões o puxaram para fora d’água e, depois, o tiraram de dentro da caçarola. O pobre Peralta estava tão gelado que nem podia andar. Precisaram carregá-lo até à casa-sapato, onde o Doutor ordenou que o metessem na cama.

-

 Faça um pouco de chá, ordenou o médico ao Cozinheiro, e ponha um par de botões novos sobre a chapa do fogão.

Em poucos minutos Cozinheiro voltava com o chá e os botões aquecidos.

   

- Agora enrole os botões em toalhas. Vamos aquecer os pés deste maroto. E’ bom trazer mais alguns cobertores.

Dona Grã-fina trouxe dois cobertores e enrolou-os em torno do menino. Depois de alguns minutos, Peralta parou de tremer e o Comandante lhe perguntou como caíra n’água.

- Eu não ia patinar, disse o moleque. Estava apenas experimentando a solidez do gelo. Experimentei primeiro com a ponta do pé. Depois dei alguns passos, e o gelo se quebrou. Aí eu afundei de cabeça. Quando voltei à superfície, agarrei-me ao gelo, mas ele continuou a se quebrar. Eu não podia alcançar as bordas da caçarola... Pensei que estivesse perdido! Finalmente, consegui agarrar um pedaço de gelo mais resistente. E comecei a gritar o mais alto que podia, pedindo socorro a algum pássaro ou rato que passasse.

- Coitadinho! exclamou Dona Grã-fina.

- Pois é, continuou Peralta. Pensei que fosse morrer. De repente vi Turco aparecer e compreendi que estava salvo.

- Não foi por falta de aviso, disse o Comandante.

- Sim, senhor, disse Peralta. Mas eu não ia patinar.

- Não, é claro, disse o Comandante, sorrindo. E também não ia nadar...

Peralta ficou doente por muitos dias. Mas, com aquele banho inesperado, aprendeu uma boa lição a respeito de armadilhas sob o gelo. E podemos garantir que nunca mais ele se atreveu a patinar sobre o gelo, antes do tempo.

Entrou por uma porta e saiu por outra...
Quem quiser que conte outra!

 

Voltar