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Era uma vez um
casal de camponeses que morava numa cabana junto a uma grande floresta.
Eles tinham um filho, tão gordinho que era conhecido de todos como Bola de
Manteiga.

E tinham também
um cachorrinho, de pequeno de porte mas forte de voz, que atendia pelo
nome de Dente de Ouro. Certa tarde, em que o pai do Bola de Manteiga havia
ido à floresta cortar lenha e a mãe estava às voltas com seus afazeres na
cozinha, o Dente de Ouro começou a latir, a latir muito.

- Vá lá
fora ver o que está acontecendo, meu filho, disse a mãe do Bola de
Manteiga. O Bola de Manteiga espiou pela porta, mas voltou correndo para
dentro da cozinha. - Mãe, mãe! É uma troll horrível, com a cabeça
debaixo do braço e um saco nas costas e está vindo pra cá! - Ih, meu
filho, esconda-se logo debaixo da mesa da cozinha, disse a mãe. Mas a
Troll chegou até a porta e bateu: Pã, pã, pã! E não teve outro jeito: a
mãe do Bola de Manteiga foi atender.

-
Boa tarde, minha senhora, o que deseja? - Boa tarde, disse a
Troll. Por acaso o Bola de Manteiga está? - Não, infelizmente ele
saiu. Foi até a floresta com o pai, ajudar a cortar lenha, mentiu a
mãe. - Que pena! disse a Troll. Eu tenho aqui uma faquinha
de prata que eu queria tanto dar de presente pra ele! Pelo visto, vou ter
que achar outro menino pra presentear. - Oi, oi, aqui estou eu,
disse o Bola de Manteiga, saindo debaixo da mesa. - Que bom que
você está aí, meu filho, disse a Troll. Mas, sabe o que é,
acordei hoje com um dor terrível nas costas. Você não quer entrar aqui
neste saco e pegar a faquinha você mesmo? O Bola de Manteiga não
pensou duas vezes e enfiou-se saco adentro. Quando a Troll percebeu que o
garoto estava todo dentro do saco, esqueceu-se das dores nas costas, pegou
o saco, jogou-o sobre o ombro e foi-se embora, bem rapidinho. Era uma
tarde quente. Os borrachudos zuniam por toda parte, o Bola de Manteiga era
mesmo bastante pesadinho, e a Troll tinha apenas um braço disponível para
segurar o saco. Por isso, depois de andar um tanto, resolveu encostar num
barranco, para descansar um pouco. E, não demorou muito, acabou
cochilando. Quando o Bola de Manteiga percebeu a respiração regular da
Troll, pegou a faquinha de prata, cortou um rombo no saco, saiu, enfiou lá
dentro um toco de árvore, amarrou o lugar do corte e foi correndo de volta
para a casa de seus pais. Daí a pouco, a Troll acordou. Percebeu que o
tempo havia passado e, sem pensar noutra coisa, pegou de novo no saco e
foi andando, no trote, até chegar em casa, onde sua filha já estava com o
caldeirão no fogo.

-
Onde você esteve todo esse tempo, mãe, perguntou a Trolleta. A
água que a senhora me mandou pôr pra ferver já secou quase toda! A
Troll fez a filha colocar mais água e adicionar sal, pimenta, cebola,
batata e cenoura. Quando a água chegou ao ponto de fervura, a Troll pôs a
cabeça na mesa da cozinha e, com as duas mãos livres, pegou no saco e foi
despejar o Bola de Manteiga no caldeirão. O toco de árvore que saiu
do saco espalhou água fervente para tudo quanto é canto, queimou as mãos e
o rosto da Trolleta, apagou o fogo e só não fez mal à Troll porque ela
havia deixado sua cabeça longe do corpo. Passaram-se alguns dias. Numa
outra tarde, de grande mormaço, quando o pai do Bola de Manteiga havia
saído para caçar, sua mãe estava na cozinha, assando pão, e o seu menino,
como de costume, brincando e azucrinando a
paciência.

De repente,
ouviram o latido forte e zangado do Dente de Ouro. - Vá lá fora ver
o que está acontecendo, meu filho, disse a mãe do Bola de
Manteiga. O Bola de Manteiga espiou pela porta, mas voltou correndo
para dentro da cozinha. - Mãe, mãe! É aquela Troll horrível de
novo, com a cabeça debaixo do braço e um saco nas costas, vindo pra
cá! - Ih, meu filho, esconda-se logo debaixo da mesa da cozinha,
disse a mãe. A Troll chegou até a porta e bateu: Pã, pã, pã! E não
teve outro jeito: a mãe do Bola de Manteiga foi atender. -
Boa
tarde, minha senhora, o que deseja? - Boa tarde, disse a Troll.
Por acaso o Bola de Manteiga está? - Não, infelizmente, ele saiu. Foi
até a floresta com o pai, ajudar na caçada, mentiu a mãe. - Que
pena, disse a Troll. Eu tenho aqui um garfinho de prata que eu
queria tanto dar de presente pra ele! Pelo visto, vou ter que achar outro
menino pra presentear. - Oi, oi, aqui estou eu, disse o Bola de
Manteiga, saindo debaixo da mesa. - Que bom que você está aí, meu
filho, disse a Troll. Sabe o que é, quando me levantei hoje,
dei um mal jeito na cintura. Você não quer entrar aqui neste saco e pegar
o garfinho você mesmo? O Bola de Manteiga não pensou duas vezes e
enfiou-se saco adentro. Quando a Troll percebeu que o garoto estava todo
dentro do saco, esqueceu-se do mal jeito da cintura, pegou o saco, jogou-o
sobre o ombro e foi-se embora, bem rapidinho. O calor da tarde, o
zunido dos insetos e o peso do Bola de Manteiga, que certamente não havia
emagrecido desde a última vez, tudo isso fez a Troll sentir-se sonolenta,
cansada. Sepois de um par de léguas, resolveu encostar num barranco,
para descansar um pouco. Não demorou muito e acabou cochilando.
Quando o Bola de Manteiga percebeu a respiração regular da Troll, pegou o
garfinho de prata, fez um furo no saco, saiu, enfiou lá dentro uma pedra
bem grande, amarrou o lugar do furo e foi correndo de volta para a casa de
seus pais. Daí a pouco, a Troll acordou. Percebeu que o tempo havia
passado e, sem pensar noutra coisa, pegou de novo no saco e foi andando,
no trote, até chegar em casa, onde sua filha já estava com o caldeirão no
fogo. - Onde você esteve todo esse tempo, mãe? perguntou a
Trolleta. A água que a senhora me mandou pôr pra ferver já secou quase
toda!

A
Troll fez a filha colocar mais água e adicionar sal, pimenta, cebola,
batata e cenoura. Quando a água chegou ao ponto de fervura, a Troll pôs a
cabeça na mesa da cozinha e, com as duas mãos livres, pegou no saco e foi
despejar o Bola de Manteiga no caldeirão. A pedra que saiu do saco
espalhou água fervente para tudo quanto é canto, queimou as mãos e o rosto
da Trolleta, rachou o caldeirão no meio e apagou o fogo. Dessa vez, a
Troll ficou furiosa e jurou que da próxima o Bola de Manteiga não
escapava. Passaram-se mais alguns dias, parece até que pouco mais de
uma semana. Numa outra tarde, em que o verão parecia estar dando seu
último sobressalto de maior calor, o pai do Bola de Manteiga havia
saído para a floresta para colher frutos silvestres. A mãe do Bola de
Manteiga estava na cozinha, preparando conservas, e ele, para variar,
fazia das suas.

Subitamente,
ouviram o latido zangado do Dente de Ouro. - Vá lá fora, meu filho,
e veja por que o Dente de Ouro está latindo tanto, disse a mãe do
Bola de Manteiga. O menino espiou pela porta, mas voltou correndo para
dentro da cozinha. - Mãe, mãe! É aquela Troll horrível de novo,
com a cabeça debaixo do braço e um saco nas costas! - Ih, meu filho,
esconda-se logo debaixo da mesa da cozinha, disse a mãe. A Troll
chegou até a porta e bateu: Pã, pã, pã! Não teve outro jeito: a mãe
do Bola de Manteiga foi atender. - Boa tarde, minha senhora, o que
deseja? - Boa tarde, disse a Troll. Por acaso o Bola de
Manteiga está? - Não, infelizmente, ele saiu. Foi à floresta com o pai,
ajudar a colher amoras, mentiu a mãe. - Que pena, disse a
Troll. Eu tenho aqui uma colherinha de prata que eu queria tanto dar
de presente pra ele! Pelo visto, vou ter que achar outro menino pra
presentear. - Oi, oi, aqui estou eu, disse o Bola de Manteiga,
saindo debaixo da mesa. - Que bom que você está aí, meu filho,
disse a Troll. Sabe o que é, acordei hoje com um reumatismo terrível
nas juntas. Você não quer entrar aqui neste saco e pegar a colherinha você
mesmo? O Bola de Manteiga não pensou duas vezes e enfiou-se saco
adentro. Quando a Troll percebeu que o garoto estava todo dentro do
saco, esqueceu-se do reumatismo, pegou o saco, jogou-o sobre o ombro e
foi-se embora, bem rapidinho. Dessa vez ela não ia se deixar enganar
e, apesar do calor e do peso do Bola de Manteiga, foi num trote só, por
entre atalhos e caminhos pedregosos, até chegar à sua casa. Lá chegando, a
Troll largou o saco com o Bola de Manteiga num canto da cozinha e disse
para sua filha, a Trolleta: - Vou agora me arrumar para ir à missa
e, quando voltar, vão vir comigo uns vizinhos para jantar. Enquanto eu
estiver fora, você me prepare um bom ensopado de Bola de Manteiga, do
jeito que eu te ensinei. - Sim, mamãe, disse a Trolleta e
apressou-se a pôr o caldeirão no fogo, enquanto a Troll se arrumava e
saía.

Quando a água
do caldeirão já estava fervendo e a Trolleta já havia colocado os
temperos, a batata e a cenoura, ela abriu o saco. Lá estava o Bola de
Manteiga, sentado, bem quietinho. A Trolleta ficou apenas olhando
para ele, com o olhar aparvalhado. - O que é que foi?
perguntou o Bola de Manteiga. Por que você está me olhando assim? -
É que eu tenho que fazer ensopado de você, disse a Trolleta. E
não sei como tenho que fazer para te matar e picar. - Ora, isso é muito
fácil, disse o Bola de Manteiga. Quer que eu te mostre? -
Quero, quero sim, disse a Trolleta. - Você tem algum machado
por aí? - Tem um que fica junto do monte de lenha, atrás do
celeiro. - Então, traga o machado aqui, instruiu Bola de
Manteiga. Quando a Trolleta voltou, disse-lhe: - Agora, deite
a cabeça em cima daquele banquinho. A tonta da Trolleta fez
o que o Bola de Manteiga lhe disse e ele, mais do que depressa,
desferiu-lhe um golpe e cortou-lhe a cabeça. Então, o Bola de Manteiga
ajeitou a cabeça da Trolleta na cama e forrou com cobertores e
acolchoados, para dar impressão de que ela estava deitada,
dormindo. Com o resto da Trolleta, preparou o ensopado que a Troll
havia encomendado. Pegou o toco de árvore e a pedra, subiu com os dois
para o telhado e ficou esperando. Depois de algum tempo, a Troll voltou da
missa com o casal de trolls vizinhos.

Quando abriram
a porta, cheiraram o ar e foram logo dizendo: - Huum... que
cheirinho bom de ensopado de Bola de Manteiga! Lá do
telhado, chaminé abaixo, o Bola de Manteiga sussurrou: - Que cheirinho
bom de ensopado de Trolleta! Os trolls ouviram mas, como tudo
parecesse em ordem, fizeram de conta que nada acontecera. Viram a
Trolleta na cama e, certos de que ela estava descansando depois de ter
preparado o jantar, entraram na cozinha, destamparam o caldeirão e foram
logo pegando um colher de pau para experimentar o caldo. E cada um que
tomava uma colherada do caldo ia dizendo: - Huum... que caldo
gostoso de Bola de Manteiga! E o Bola de Manteiga, lá do telhado,
retrucava, a cada vez, chaminé abaixo: - Que caldo gostoso de
Trolleta! Os trolls ficaram cismados e correram até a porta
para ver o que estava acontecendo. Quando suas cabeças apareceram do
lado de fora, o Bola de Manteiga deixou cair o toco de árvore e a pedra e
matou-os todos. A seguir, o Bola de Manteiga desceu e, percorrendo a
casa de cômodo em cômodo, juntou o ouro e toda a prata que conseguiu
carregar, voltando para a casa de seus pais, que nunca mais passaram
qualquer necessidade. |