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Um dia chegou
para Malasartes a hora de ir para o outro mundo, e de nada lhe valeu a
esperteza: teve que marchar. Quando se viu no estradão da eternidade,
pensou no que faria e resolveu, em primeiro lugar, ir bater à porta do
céu. Lá foi, mas São Pedro, assim que o enxergou, deu-lhe com a porta na
cara.
Então deliberou
ir ao inferno; foi, bateu, mas o porteiro, dando com o homem que surrava
até os diabos, tratou de fechar o portão com quantas trancas havia e foi
correndo avisar o seu rei. Houve um rebuliço dos diabos no inferno: pavor
e correrias por todos os cantos. O próprio Satanás tremeu, mas recuperando
o sangue frio, pensou, pensou e ordenou que se deixasse entrar o
hóspede.
E
disse-lhe: - Eu não quero você no inferno, Malasartes; você, além do
que já fez, ainda é capaz de vir aqui revolucionar a minha
gente. - Tenha paciência, seu Satanás, mas aqui estou e aqui
fico. - Então vou fazer uma proposta: que se decida o seu destino
pela sorte do jogo. Aceita? - Feito! - Se você perder, irá diretinho
para o caldeirão. - Está dito. E se eu ganhar, você me paga com
uma das almas que lá estão fervendo. Começaram o jogo, e cada qual
fazia o possível para passar a perna no outro. Mas Pedro Malasartes era
mais esperto e ganhou a primeira partida, depois a segunda e assim outras.
Satanás, vendo que não podia derrotar o parceiro e que ia perdendo almas
sobre almas, postas em liberdade por Malasartes, mandou botar o
insuportável para fora do inferno. Malasartes andou vagando como alma
penada, muito tempo, sem saber onde havia de se aboletar. Até que um dia
teve uma idéia e tocou de novo para o céu. Chegando à porta do céu, tomou
uns ares muito humildes, e bateu devagarinho.
São Pedro abriu
um postigo, enfiou a cabeça e perguntou: - Quem bate a estas
horas? - Sou eu, meu santo… - Eu, quem? Diga o que quer, e
toca! - Será possível que o meu santo padroeiro não me reconheça… Pois
eu sou o Pedro Malasartes. - Malasartes?! Outra vez?! Já não lhe
disse que o seu lugar não é aqui? - Não se zangue, meu santo, meu
grande santo… Sei muito bem que nunca entrarei neste lugar de glória… -
Então vamos ver, o que quer? Malasartes, com muita brandura e muita
lábia, pediu ao santo que entreabrisse ao menos a porta, um bocadinho, só
para que pudesse espiar por um momento a beleza do céu. Tanto pediu e
tanto fez que São Pedro o atendeu. Então, mais que depressa
Malasartes atirou o chapéu pela fresta.
São Pedro bufou
e descompôs o patife, e tanto barulho fez que começaram a ajuntar-se
magotes de anjos e de justos ali junto da porta. Acontece que o chapéu era
um objeto terreno, além de estar muito sujo, e ninguém no céu lhe podia
tocar. Mas Pedro Malasartes reclamava o chapéu, não abria mão, e enfim,
para encurtar, não houve jeito senão, permitir-lhe que entrasse. E o
malandro, entrou, muito contente, com ar vitorioso. Mas o atrevimento não
ficou sem castigo. Levaram o tal para junto de um monte enorme de milho
e mandaram-no contar os grãos um por um. Malasartes, que remédio! Começou
a contar, a contar, a contar, e levou um mundo de tempo a amontoar os
grãozinhos para um lado. Quando já estava acabando a contagem, veio um
anjo e misturou tudo. E Malasartes teve de contar de novo… E até hoje
lá está contando e recontando os grãos de milho, sem acabar nunca.
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