Aventuras de Pedro Malasartes

 

 

 

PEDRO MALASARTES NO CÉU
Amadeu Amaral - Tradições Populares

 

Um dia chegou para Malasartes a hora de ir para o outro mundo, e de nada lhe valeu a esperteza: teve que marchar. Quando se viu no estradão da eternidade, pensou no que faria e resolveu, em primeiro lugar, ir bater à porta do céu. Lá foi, mas São Pedro, assim que o enxergou, deu-lhe com a porta na cara.

Então deliberou ir ao inferno; foi, bateu, mas o porteiro, dando com o homem que surrava até os diabos, tratou de fechar o portão com quantas trancas havia e foi correndo avisar o seu rei. Houve um rebuliço dos diabos no inferno: pavor e correrias por todos os cantos. O próprio Satanás tremeu, mas recuperando o sangue frio, pensou, pensou e ordenou que se deixasse entrar o hóspede.

E disse-lhe:
- Eu não quero você no inferno, Malasartes; você, além do que já fez, ainda é capaz de vir aqui revolucionar a minha gente.
- Tenha paciência, seu Satanás, mas aqui estou e aqui fico.
- Então vou fazer uma proposta: que se decida o seu destino pela sorte do jogo. Aceita?
- Feito!
- Se você perder, irá diretinho para o caldeirão.
- Está dito. E se eu ganhar, você me paga com uma das almas que lá estão fervendo.
Começaram o jogo, e cada qual fazia o possível para passar a perna no outro. Mas Pedro Malasartes era mais esperto e ganhou a primeira partida, depois a segunda e assim outras. Satanás, vendo que não podia derrotar o parceiro e que ia perdendo almas sobre almas, postas em liberdade por Malasartes, mandou botar o insuportável para fora do inferno. Malasartes andou vagando como alma penada, muito tempo, sem saber onde havia de se aboletar. Até que um dia teve uma idéia e tocou de novo para o céu. Chegando à porta do céu, tomou uns ares muito humildes, e bateu devagarinho.

São Pedro abriu um postigo, enfiou a cabeça e perguntou:
- Quem bate a estas horas?
- Sou eu, meu santo…
- Eu, quem? Diga o que quer, e toca!
- Será possível que o meu santo padroeiro não me reconheça… Pois eu sou o Pedro Malasartes.
- Malasartes?! Outra vez?! Já não lhe disse que o seu lugar não é aqui?
- Não se zangue, meu santo, meu grande santo… Sei muito bem que nunca entrarei neste lugar de glória…
- Então vamos ver, o que quer?
Malasartes, com muita brandura e muita lábia, pediu ao santo que entreabrisse ao menos a porta, um bocadinho, só para que pudesse espiar por um momento a beleza do céu. Tanto pediu e tanto fez que São Pedro o atendeu. Então, mais que  depressa Malasartes atirou o chapéu pela fresta. 

São Pedro bufou e descompôs o patife, e tanto barulho fez que começaram a ajuntar-se magotes de anjos e de justos ali junto da porta. Acontece que o chapéu era um objeto terreno, além de estar muito sujo, e ninguém no céu lhe podia tocar. Mas Pedro Malasartes reclamava o chapéu, não abria mão, e enfim, para encurtar, não houve jeito senão, permitir-lhe que entrasse. E o malandro, entrou, muito contente, com ar vitorioso. Mas o atrevimento não ficou sem castigo.
Levaram o tal para junto de um monte enorme de milho e mandaram-no contar os grãos um por um. Malasartes, que remédio! Começou a contar, a contar, a contar, e levou um mundo de tempo a amontoar os grãozinhos para um lado. Quando já estava acabando a contagem, veio um anjo e misturou tudo. E Malasartes teve de contar de novo…
E até hoje lá está contando e recontando os grãos de milho, sem acabar nunca.

Entrou por uma porta e saiu por outra.
Quem quiser que conte outra

 

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