Aventuras de Pedro Malasartes

 

Compiladas por Luiz da Câmara Cascudo

 

 

 

 

Um casal de velhos possuía dois filhos homens, João e Pedro.
Este era tão astucioso e vadio que o chamavam Pedro Malasartes.
Como eram muitos pobres, o filho mais velho saiu para ganhar a vida. Empregou-se numa fazenda onde o proprietário era rico e cheio de velhacarias, não pagando aos empregados porque fazia contratos impossíveis de serem cumpridos. João trabalhou quase um ano e voltou quase morto.
O patrão tirara-lhe uma tira de couro desde o pescoço até o fim das costas e nada mais lhe dera.
Pedro ficou furioso e saiu para vingar o irmão. Procurou o mesmo fazendeiro e pediu trabalho.
O fazendeiro disse que o empregava com duas condições: não enjeitar serviços e o primeiro que ficasse zangado tiraria do outro uma tira de couro.
Pedro Malasartes aceitou.

No primeiro dia Pedro foi trabalhar numa plantação de milho. O patrão mandou que uma cachorrinha o acompanhasse. Só podia voltar quando a cachorra voltasse para casa.
Pedro meteu o braço no serviço até meio-dia. A cachorrinha deitada na sombra nem se mexia.
Vendo que era combinação, Malasartes largou uma paulada na cachorra que saiu ganindo e correndo até o alpendre da casa. O rapaz voltou e almoçou.
Pela tarde nem precisou bater na cachorra. Fez o gesto e o bicho voou no caminho.

No outro dia o fazendeiro escolheu outra tarefa. Mandou-o limpar a roça de mandioca.
Pedro arrancou toda a plantação, deixando o terreno completamente limpo.
Quando foi dizer ao patrão o que fizera este ficou feio.
- Zangou-se, meu amo?
- Não senhor, respondeu o patrão.

No outro dia, disse que Pedro trouxesse o carro de bois carregado de pau sem nós.
Malasartes cortou quase todo o bananal, explicando que bananeira é pau que não tem nó.
O patrão ficou frio:
- Zangou-se, meu amo?
- Não senhor.
No outro dia mandou-o levar o carro, com a junta de bois, para dentro de uma sala, numa casinha perto, sem passar pela porta. Para melhor atrapalhar, fechou a porta e escondeu a chave.
Malasartes agarrou um machado e fez o carro em pedaços, matou os bois, esquartejou-os e sacudiu, carnes e madeiras, pela janela, para dentro da sala.
O patrão, quando viu, ficou preto:
- Zangou-se, meu amo?
- Não senhor.

Mandou vender na feira um bando de porcos.
Malasartes levou os porcos, cortou as caudas e vendeu-os todos por um bom preço.
Voltando, enterrou os rabinhos num lamaçal. Chegou em casa gritando que a porcada estava atolada no lameiro. O patrão foi ver e deu o desespero.
Malasartes sugeriu cavar com duas pás. Correu para casa e pediu à dona que lhe entregasse dois contos de réis. A velha não queria, mas o rapaz para certificá-la, perguntava ao patrão por gestos se devia levar um ou dois, e mostrava os dedos.
Ante os gritos do amo, a velha entregou o dinheiro ao Pedro.
Voltou para o lameiro e começou a puxar a cauda de cada porco que dizia estar enterrado.
Ia ficando com todas na mão. O patrão ficou suando mas não deu mostras de zanga.
E Pedro ainda negou que tivesse recebido dinheiro...
Vendo que ficava pobre com aquele empregado, o fazendeiro resolveu matá-lo o mais depressa possível, de um modo que não o levasse à justiça.

Teve uma idéia: disse que andava um ladrão rondando o curral e deveriam vigiar, armados, para prender ou afugentar a tiros. A idéia era atirar em Malasartes e dizer que se tinha enganado, supondo-o um malfeitor. De noite o fazendeiro foi para o curral e Pedro deveria substituí-lo ao primeiro cantar do galo.

Quando o galo cantou, Malasartes acordou a velha e disse que o marido a esperava no curral, que levasse a outra espingarda, porque ele, Pedro, ia fazer o cerco pelo outro lado.
A velha apanhou a carabina e foi, sendo morta pelo fazendeiro com um tiro, certo de que abatia, pelo vulto, o atrevido criado.
Assim que a velha caiu, Pedro apareceu chorando e acusando o amo.

Este, assombrado, pagou muito dinheiro para não haver conhecimento da justiça e ofereceu ainda mais dinheiro se o Malasartes fosse embora, sem mais outra proeza. O rapaz aceitou e voltou rico para casa dos pais.

Entrou por uma porta e saiu por outra.
Quem quiser que conte outra

 

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