Aventuras de Pedro Malasartes

 

 

 

De como Malasartes fez o Urubu falar
Lindolfo Gomes - Contos Populares

 

Quando o pai de Pedro Malasartes entregou a alma a Deus, fez-se a partilha dos bens: uma casinha velha, entre os filhos. Tocou a Pedro uma das bandeiras da porta da casa, com o qual ele ficou muito contente. Pôs a porta no ombro e saiu pelo mundo.

Em caminho, viu um bando de urubus sobre um burro morto.

Atirou a porta sobre eles e caçou um urubu que ficou com a perna quebrada. Apanhou-o, pôs a porta às costas e continuou viagem. Obra de uma légua ou mais, avistou uma casa de onde saía fumaça, o que queria dizer que se estava preparando o jantar. Pedro Malasartes, que sentia fome, bateu à porta e pediu de comer. Veio atendê-lo uma preta lambisgóia que foi logo dizer à patroa que ali estava um vagabundo, com um urubu e uma porta, a pedir de jantar.

A mulher mandou que o despachasse - que a sua casa não era coito de malandros. O marido estava de viagem e a mulher no seu bem bom a preparar um banquete para quem ela muito bem o destinava.
Neste mundo há coisas! Pedro Malasartes, tão mal recebido que foi, resolveu subir para o telhado, valendo-se da porta que trazia e lhe serviria de escada. Subiu e ficou espreitando o que se passava naquela casa, tanto mais que sentia o cheiro dos bons petiscos. Espiando pelos vãos das telhas viu os preparativos e tomou nota das iguarias, e ouviu as conversas e confidências da patroa e da negra.
Justamente na hora do jantar chegou o dono da casa que resolveu voltar de inesperado da viagem que fazia.

Quando a mulher percebeu que ele se aproximava mandou esconder os pratos do banquete e veio recebê-lo e abraçá-lo, muito fingida, muito risonha, mas por dentro queimando de raiva.
Vai daí mandou pôr na mesa a janta que constava de feijão aguado, paçoca de carne seca e cobu, dizendo:
- Por que não avisou, marido? Sempre se havia de aprontar mais alguma coisa.
Sentaram-se à mesa. Pedro Malasartes desceu de seu posto e bateu na porta, trazendo o urubu.
O dono da casa levantou-se e foi ver quem era. O rapaz pediu-lhe um prato de comida e ele chamou-o para a mesa a servir-se do pouco que havia.

A mulher estava desesperada, desconfiando com a volta de Malasartes. Pedro tomou assento, puxou o urubu para debaixo da mesa, preso pelo pé num pedaço de corda de pita. Estavam os dois homens conversando, quando de repente o Malasartes pisou no pé quebrado do bicho e este se pôs a gritar: uh! uh! uh!
O dono da casa levou um susto e perguntou que diabo teria o bicho. Pedro respondeu muito sério:
- Nada! São coisas. Está falando comigo.
- Falando! Pois o seu bicho fala?!
- Sim, senhor, nós nos entendemos. Não vê como o trago sempre comigo? É um bicho mágico, mas muito intrometido.
- Como assim?
- Agora, por exemplo, está dizendo que a patroa teve um aviso oculto da volta do senhor e por isso lhe preparou uma boa surpresa.
- Uma surpresa! Conte lá isso como é.
- É deveras! Uma excelente leitoa assada que está ali naquele armário.
- Pois é possível! Ó mulher, é verdade o que diz o urubu desse moço?
Ela com receio de ser apanhada com todo o banquete e certa de que Pedro sabia da marosca, apressou-se em responder:
- Pois então? Pura verdade. O bicho adivinhou. Queria fazer-te a surpresa no fim do jantar.
E gritou pela preta:
- Maria, traz a leitoa.
A negra veio logo correndo, mas de má cara, com a leitoa assada na travessa. Daí a pouco, Pedro Malasartes pisou outra vez no pé do urubu que soltou novo grito.
- O que é que ele está dizendo?
- Bicho intrometido! Está candongando outra vez. Cala a boca, bicho!
- O que é?
- Outras surpresas.
- Outras?!
- Sim, senhor: um peru recheado.
- É verdade, mulher?
- Uma surpresa, maridinho do coração. Maria, traz o peru recheado que preparei para o teu amo.
Veio o peru. E pelo mesmo expediente conseguiu Pedro Malasartes que viessem para a mesa todas as iguarias, doces e bebidas que havia em casa.
Ao fim do jantar, o dono da casa, encantado com as proezas do urubu, propôs comprá-lo a Pedro Malasartes, que o vendeu muito bem vendido, enquanto a mulher e a preta bufavam de raiva, crentes também, no poder mágico do bicho que, assim, seria um constante espião de tudo quanto fizessem.
Fechado o negócio, Pedro Malasartes partiu satisfeito e vingado.

Entrou por uma porta e saiu por outra.
Quem quiser que conte outra

 

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