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A VERDADE ANTES
DE TUDO
Não
confundam com patranhas as verídicas façanhas neste livro
relatadas. Elas podem ser provadas por quem viu fato por
fato; pelo povo bom, pacato, da pequena, mas bonita cidade de
Santa Rita.

Quem
duvidar tome o trem e vá perguntar a alguém: ao delegado, ao
vigário, ao prefeito, ao boticário, enfim a quem lá resida, se a
verdade foi torcida.
 O bondoso
padre Joaquim Bento, recentemente promovido a bispo de
Mandaraçu
 Dr.
Nelson Monteiro, delegado de Santa Rita, cujo nome, nas últimas
eleições, figurou na chapa de deputados do P.S.R.
Mas, se
não tiver vontade de ir à longinqua cidade saber o que diz o
povo, leia esta história de novo, meditando... se puder! E
acredite... se quiser...

Quem não
gosta de animais? Qual o menino que aos pais, se alguma vez teve
ensejo, não revelou o desejo de ter um cachorro, um gato, ou
mesmo um bicho do mato, bicho de pena ou de pelo, para tratar com
desvelo?
ANTONINHO
GANHA UM MACACO!

O
Antoninho, bom menino, que embora sagaz, ladino, nos estudos era
fraco, morria por um macaco. por isso, um dia, na ceia, vendo o
pai de boa veia, por entre agrados lhe diz: - Como eu seria
feliz se ganhasse um macaquinho! Porém o pai do Antoninho, sem
lhe negar o presente, promete dá-lo somente se ele acaso
figurasse entre os primeiros da classe.
Era quase
um desafio que o pai lançava ao vadio! Mas não há dificuldade quando
há força de vontade! E, a partir deste momento, melhorando cem por
cento, o boletim do Antoninho, no correr do ano inteirinho, teve
notas das mais altas e só duas ou três faltas. E o pai do menino,
ufano de tal filho, no fim do ano, trata logo, satisfeito, de
cumprir o trato feito.
Assim, chegado o Natal, indo brincar no quintal, o
garoto acha, contente, junto ao tronco da ameixeira, numa casa de
madeira, feita de um caixão de pinho, um bonito
macaquinho.

XUMBURI, O TALENTOSO!
E vai começar aqui a história do Xumburi, pois
que tal nome de gosto, no macaquinho foi
posto.

Xumburi
era um macaco inteligente, velhaco; tão velhaco e inteligente que
até parecia gente... Dir-se-ia que o magano nasceu bicho, por
engano... Muito esperto, muito vivo, no seu olhar
expressivo, nitidamente se via, que o mequetrefe entendia tudo
com tal perfeição que, se acaso uma lição lhe fosse dada na
escola, guardaria na cachola num relance, num zás-trás, melhor
que muito rapaz.

Certo que há exagero nisto, mas se diz que ele foi
visto disputando, certa vez, um torneio de xadrez... Que macaco
de talento! Era, de fato, um portento! Só lhe faltava falar para
poder frequentar a escola, a fim de aprender a fazer contas e
ler... Mesmo, entanto, sendo mudo, sabia um pouco de tudo e,
talvez, soubesse mais, se ele não fosse dos tais que só gostam das
lições quando ensinam...
reinações...
XUMBURI SAI A PASSEIO
O engraçado macaquinho, sem tardança, do
Antoninho, com matreirice, com jeito, tornou-se amigo do
peito. O bom menino saia sempre em sua companhia, levando-o,
preso, à coleira, em passeios pela feira, confeitaria e
bares, exibindo em tais lugares, impando, cheio de si, o matreiro
Xumburi.

Porém, Xumburi –
coitado! – andava muito humilhado, já que suportava a custo o seu
cativeiro injusto, o vexame da prisão. E tão triste era a
expressão de sua fisionomia, que o Antoninho, certo dia, teve um
gesto bom, clemente, - Libertou-o da corrente. Agora, sim,
Xumburi vive alegre, salta, ri; faz mil trejeitos
gaiatos, atropela cães e gatos com a bomba de
inseticida, deixando-os loucos da vida, e mordaz,
irreverente, arremeda toda a
gente...

Se por
acaso, chibante, de andar todo saltitante, por ele uma jovem
passa, requebrando-se com graça, o danado sai atrás, e tantas
micagens faz, e com tais dengues rebola, que ninguém, ante a
graçola, resiste à impagável cena, rindo a bom rir da
pequena, que olha o macaco de esguelha e fica toda vermelha,
seguindo muito vexada por ouvir tanta
risada...

Quando na
rua, marchando, vem um soldado passando, o macaco não
vacila: fingindo que se perfila, com requintes de imponência, faz
garbosa continência. E depois, marcando passo, bate o pé, sacode o
braço, com notável precisão, como um soldado
alemão...

E se
algum rapaz pedante, com pretensões a elegante, passa cheio de
importância, para curar-lhe a jactância, Xumburi, de pronto, o
segue. E, quando, afinal, consegue alcançá-lo, sem ter dó - Zás!
– lhe puxa o paletó.

Vale a pena ver a
cara do janota que, então, para e, ao perceber que o puxão
fez-lhe na roupa um rasgão, furibundo xinga, ameaça o símio,
autor da chalaça, enquanto, pelas janelas, cochichando,
tagarelas, riem as moças do coitado do peralvilho
rasgado...
Assim andava nas ruas, fazendo sempre das
suas, Xumburi, cujas partidas eram das mais
divertidas... |