AVENTURAS DE XUMBURI
O Macaco Inteligente que até parecia Gente...
Antonio de Pádua Morse
Ilustrações de Hilde Weber
Animações de Maux

 

 

A VERDADE ANTES DE TUDO

Não confundam com patranhas
as verídicas façanhas
neste livro relatadas.
Elas podem ser provadas
por quem viu fato por fato;
pelo povo bom, pacato,
da pequena, mas bonita
cidade de Santa Rita.

Quem duvidar tome o trem
e vá perguntar a alguém:
ao delegado, ao vigário,
ao prefeito, ao boticário,
enfim a quem lá resida,
se a verdade foi torcida.


O bondoso padre Joaquim Bento, recentemente
promovido a bispo de Mandaraçu


Dr. Nelson Monteiro, delegado de Santa Rita, cujo nome,
nas últimas eleições, figurou na chapa de deputados do P.S.R.

Mas, se não tiver vontade
de ir à longinqua cidade
saber o que diz o povo,
leia esta história de novo,
meditando... se puder!
E acredite... se quiser...

      

Quem não gosta de animais?
Qual o menino que aos pais,
se alguma vez teve ensejo,
não revelou o desejo
de ter um cachorro, um gato,
ou mesmo um bicho do mato,
bicho de pena ou de pelo,
para tratar com desvelo?

ANTONINHO GANHA UM MACACO!

O Antoninho, bom menino,
que embora sagaz, ladino,
nos estudos era fraco,
morria por um macaco.
por isso, um dia, na ceia,
vendo o pai de boa veia,
por entre agrados lhe diz:
- Como eu seria feliz
se ganhasse um macaquinho!
Porém o pai do Antoninho,
sem lhe negar o presente,
promete dá-lo somente
se ele acaso figurasse
entre os primeiros da classe.

Era quase um desafio
que o pai lançava ao vadio!
Mas não há dificuldade
quando há força de vontade!
E, a partir deste momento,
melhorando cem por cento,
o boletim do Antoninho,
no correr do ano inteirinho,
teve notas das mais altas
e só duas ou três faltas.
E o pai do menino, ufano
de tal filho, no fim do ano,
trata logo, satisfeito,
de cumprir o trato feito.

Assim, chegado o Natal,
indo brincar no quintal,
o garoto acha, contente,
junto ao tronco da ameixeira,
numa casa de madeira,
feita de um caixão de pinho,
um bonito macaquinho.

XUMBURI, O TALENTOSO!

E vai começar aqui
a história do Xumburi,
pois que tal nome de gosto,
no macaquinho foi posto.

Xumburi era um macaco
inteligente, velhaco;
tão velhaco e inteligente
que até parecia gente...
Dir-se-ia que o magano
nasceu bicho, por engano...
Muito esperto, muito vivo,
no seu olhar expressivo,
nitidamente se via,
que o mequetrefe entendia
tudo com tal perfeição
que, se acaso uma lição
lhe fosse dada na escola,
guardaria na cachola
num relance, num zás-trás,
melhor que muito rapaz.

Certo que há exagero nisto,
mas se diz que ele foi visto
disputando, certa vez,
um torneio de xadrez...
Que macaco de talento!
Era, de fato, um portento!
Só lhe faltava falar
para poder frequentar
a escola, a fim de aprender
a fazer contas e ler...
Mesmo, entanto, sendo mudo,
sabia um pouco de tudo
e, talvez, soubesse mais,
se ele não fosse dos tais
que só gostam das lições
quando ensinam... reinações...

XUMBURI SAI A PASSEIO

O engraçado macaquinho,
sem tardança, do Antoninho,
com matreirice, com jeito,
tornou-se amigo do peito.
O bom menino saia
sempre em sua companhia,
levando-o, preso, à coleira,
em passeios pela feira,
confeitaria e bares,
exibindo em tais lugares,
impando, cheio de si,
o matreiro Xumburi.

Porém, Xumburi – coitado! –
andava muito humilhado,
já que suportava a custo
o seu cativeiro injusto,
o vexame da prisão.
E tão triste era a expressão
de sua fisionomia,
que o Antoninho, certo dia,
teve um gesto bom, clemente,
- Libertou-o da corrente.
Agora, sim, Xumburi
vive alegre, salta, ri;
faz mil trejeitos gaiatos,
atropela cães e gatos
com a bomba de inseticida,
deixando-os loucos da vida,
e mordaz, irreverente,
arremeda toda a gente...



Se por acaso, chibante,
de andar todo saltitante,
por ele uma jovem passa,
requebrando-se com graça,
o danado sai atrás,
e tantas micagens faz,
e com tais dengues rebola,
que ninguém, ante a graçola,
resiste à impagável cena,
rindo a bom rir da pequena,
que olha o macaco de esguelha
e fica toda vermelha,
seguindo muito vexada
por ouvir tanta risada...



Quando na rua, marchando,
vem um soldado passando,
o macaco não vacila:
fingindo que se perfila,
com requintes de imponência,
faz garbosa continência.
E depois, marcando passo,
bate o pé, sacode o braço,
com notável precisão,
como um soldado alemão...



E se algum rapaz pedante,
com pretensões a elegante,
passa cheio de importância,
para curar-lhe a jactância,
Xumburi, de pronto, o segue.
E, quando, afinal, consegue
alcançá-lo, sem ter dó
- Zás! – lhe puxa o paletó.

Vale a pena ver a cara
do janota que, então, para
e, ao perceber que o puxão
fez-lhe na roupa um rasgão,
furibundo xinga, ameaça
o símio, autor da chalaça,
enquanto, pelas janelas,
cochichando, tagarelas,
riem as moças do coitado
do peralvilho rasgado...

Assim andava nas ruas,
fazendo sempre das suas,
Xumburi, cujas partidas
eram das mais divertidas...

Entrou por uma porta e saiu por outra...
Quem quiser que conte outra!

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