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XUMBURI
GANHA A VIDA
Ali pelas seis e
meia, quando a cidade está cheia de gente que para o lar volta a
fim de descansar da faina extenuante, vestindo o terno
elegante que do alfaiate lhe veio, Xumburi sai a passeio, impando
como um pavão de tanta satisfação. Malgrado bicho do mato, quem o
visse no seu fato podia incorrer no engano de julgá-lo um ser
humano, visto que lhe era habitual a posição vertical... Para que
um símio assim ande, precisa equilíbrio... e grande... Xumburi,
porém o tinha conforme ao caso convinha...
UM GRANDE
ACONTECIMENTO
Ninguém pode ter idéia do furor que fez a
estréia do terno de Xumburi. E ele, que não cabe em si por vestir
tão bela roupa, não se cansa, não se poupa, no afã
de mostrar ao povo seu vistoso terno novo.
E por onde o símio passa toda a gente, achando
graça, saudando-o faz, em tons vários, impagáveis
comentários sobre o caso que, em verdade, empolgou toda a
cidade. É
que naquele lugar era um tipo popular o endiabrado Xumburi, pois
não havia guri que não fosse companheiro e amigo do
galhofeiro!

Mas, além da petizada, também a gente
barbada tinha-lhe uma grande afeição, pois, em qualquer
ocasião, quem ao símio recorresse, amigo melhor do que
esse dificilmente acharia, visto como ele fazia grande empenho em
ser leal, prestativo, serviçal, disso a prova convincente temo-la
clara, evidente, nos casos em que se alude a sua
solicitude.
BOMBEIRO
PREVENTIVO

Quando a mecha de um balão, nos festejos de São
João, cai em cima de um telhado, ao receber um chamado, Xumburi,
lépido, atende-o, dado o perigo de incêndio. E, mesmo sem ter
escada, para fazer a escalada, o símio não se atrapalha e, pelo
cano da talha, sobe ao telhado mais alto, do qual desce dando um
salto, sem ter medo do perigo, trazendo a mecha consigo, na ponta
do rabo presa, muito embora esteja
acesa...

E os aplausos que, então, ganha, por essa bela
façanha, agradece, satisfeito, espalmando a mão no
peito...
XUMBURI
COLHENDO FRUTOS

É comum ver nos quintais árvores altas
demais, cujos frutos apodrecem quando ao sol amadurecem. E por
quê? Porque ninguém quer arriscar-se – e faz bem – a pisar num galho
fraco. Porém o nosso macaco, sem dar importância a isso, em tais
casos seu serviço tranquilamente executa, colhendo fruta por
fruta, limpando galho por galho. E, se durante o trabalho, alguns
minutos descansa, não trata de encher a pança comendo o que lhe
apetece, pois, somente quando desce, por ter fina educação, come
a fruta que lhe dão. A educação desse símio, das travessuras,
redime-o...
ESPERTO
SIM, MAS HONESTO...

Lá em casa de Antoninho, quando, às vezes, falta
vinho, café, farinha de trigo, chá, biscoito ou outro artigo que
se encontre no armazém, Xumburi correndo vem se é chamado. Então, no
braço mete um cesto, aperta o passo, e, num pulo vai à venda para
trazer a encomenda que por escrito lhe é dada, se é de coisa
complicada, ou por gestos, se é de algum artigo muito comum. E,
sendo esperto e prudente, mais até que muita gente, ao voltar da
mercearia dos moleques se desvia, não parando no caminho. E traz
tudo direitinho, quer o troco, quer o resto, pois foi sempre muito
honesto...
XUMBURI
EXPLORA OS FÃS

Honesto, educado, ativo, corajoso,
prestativo - eis alguns dos predicados que, nos casos
relatados, vemos que o símio possui. Isso, certo, contribui para
a grande benquerença que todo o povo dispensa, com verdadeiro
carinho, ao travesso macaquinho. Do fato de ser querido, Xumburi
tira partido, saindo cedo de casa e, como não perde vaza, nas
ruas, alegremente, cumprimenta toda a
gente.

Níqueis e pratas, então, ele ganha em
profusão e, dessa forma, abarrota os bolsinhos da fatiota. Graças
a esse dinheiro, o macaco lambisqueiro andava sempre abonado, e
gastava no mercado, nas quitandas, nos cafés, tomando seus
capilés, comendo tudo o que é doce, à farta, como se
fosse, apesar de possuir rabo, algum pródigo
nababo.
XUMBURI É
DE BOM TOM

Era um quadro pitoresco vê-lo tomando um
refresco, pois não raro se atrapalha com o canudinho de
palha, mormente quando lhe é dado algum que esteja rachado... Mas
ele não se amofina e, imitando a gente fina, ao liquidar a
despesa deixa sempre sobre a mesa, como símio de bom tom, a
gorjeta do garçon... Tendo mais pose que um lorde, às vezes tomava
um “Ford”, “Ford” ou qualquer outro carro e, fumando um bom
cigarro, refestelado no assento, soltando a fumaça ao vento, ia à
zona suburbana saborear uma banana. É que banana ele adora quando
é colhida na hora. Além do mais, o traquinas sabia que as
vitaminas que as frutas frescas contêm sempre fazem muito
bem.
XUMBURI
ENTENDE INGLES?

Sendo um símio de alta roda ia ao cinema da
moda que amiúde frequentava, pois o dinheiro sobrava, e além de
ter dinheiro era amigo do porteiro. Valia vê-lo, aos
pinotes, subir para os camarotes, nos dias de vesperais, quando
as fitas naturais e os desenhos animados geralmente são
passados, além dos filmes compridos de cowboys e de bandidos, que
a garotada reclama para gostar do programa. Mas o que causava
espanto era vê-lo, no seu canto, aplaudindo com calor algum
cowboy de valor! O povo cheio de pasmo, em vista desse
entusiasmo, não crê que o símio compreenda sem saber ler a
legenda, e diz por troça, talvez: - Será que ele entende
inglês? Em tom de troça ou tom sério, não há nisso
despautério, porquanto um macaco assim, pode até saber
latim... |