AVENTURAS DE XUMBURI
O Macaco Inteligente que até parecia Gente...
Antonio de Pádua Morse
Ilustrações de Hilde Weber
Animações de Maux

 

XUMBURI GANHA A VIDA

Ali pelas seis e meia,
quando a cidade está cheia
de gente que para o lar
volta a fim de descansar
da faina extenuante,
vestindo o terno elegante
que do alfaiate lhe veio,
Xumburi sai a passeio,
impando como um pavão
de tanta satisfação.
Malgrado bicho do mato,
quem o visse no seu fato
podia incorrer no engano
de julgá-lo um ser humano,
visto que lhe era habitual
a posição vertical...
Para que um símio assim ande,
precisa equilíbrio... e grande...
Xumburi, porém o tinha
conforme ao caso convinha...

UM GRANDE ACONTECIMENTO

Ninguém pode ter idéia
do furor que fez a estréia
do terno de Xumburi.
E ele, que não cabe em si
por vestir tão bela roupa,
não se cansa, não se poupa,
no afã de mostrar ao povo
seu vistoso terno novo.

E por onde o símio passa
toda a gente, achando graça,
saudando-o faz, em tons vários,
impagáveis comentários
sobre o caso que, em verdade,
empolgou toda a cidade.
É que naquele lugar
era um tipo popular
o endiabrado Xumburi,
pois não havia guri
que não fosse companheiro
e amigo do galhofeiro!

Mas, além da petizada,
também a gente barbada
tinha-lhe uma grande afeição,
pois, em qualquer ocasião,
quem ao símio recorresse,
amigo melhor do que esse
dificilmente acharia,
visto como ele fazia
grande empenho em ser leal,
prestativo, serviçal,
disso a prova convincente
temo-la clara, evidente,
nos casos em que se alude
a sua solicitude.

BOMBEIRO PREVENTIVO

Quando a mecha de um balão,
nos festejos de São João,
cai em cima de um telhado,
ao receber um chamado,
Xumburi, lépido, atende-o,
dado o perigo de incêndio.
E, mesmo sem ter escada,
para fazer a escalada,
o símio não se atrapalha
e, pelo cano da talha,
sobe ao telhado mais alto,
do qual desce dando um salto,
sem ter medo do perigo,
trazendo a mecha consigo,
na ponta do rabo presa,
muito embora esteja acesa...

E os aplausos que, então, ganha,
por essa bela façanha,
agradece, satisfeito,
espalmando a mão no peito...

XUMBURI COLHENDO FRUTOS

É comum ver nos quintais
árvores altas demais,
cujos frutos apodrecem
quando ao sol amadurecem.
E por quê? Porque ninguém
quer arriscar-se – e faz bem –
a pisar num galho fraco.
Porém o nosso macaco,
sem dar importância a isso,
em tais casos seu serviço
tranquilamente executa,
colhendo fruta por fruta,
limpando galho por galho.
E, se durante o trabalho,
alguns minutos descansa,
não trata de encher a pança
comendo o que lhe apetece,
pois, somente quando desce,
por ter fina educação,
come a fruta que lhe dão.
A educação desse símio,
das travessuras, redime-o...

ESPERTO SIM, MAS HONESTO...

Lá em casa de Antoninho,
quando, às vezes, falta vinho,
café, farinha de trigo,
chá, biscoito ou outro artigo
que se encontre no armazém,
Xumburi correndo vem
se é chamado. Então, no braço
mete um cesto, aperta o passo,
e, num pulo vai à venda
para trazer a encomenda
que por escrito lhe é dada,
se é de coisa complicada,
ou por gestos, se é de algum
artigo muito comum.
E, sendo esperto e prudente,
mais até que muita gente,
ao voltar da mercearia
dos moleques se desvia,
não parando no caminho.
E traz tudo direitinho,
quer o troco, quer o resto,
pois foi sempre muito honesto...

XUMBURI EXPLORA OS FÃS

Honesto, educado, ativo,
corajoso, prestativo
- eis alguns dos predicados
que, nos casos relatados,
vemos que o símio possui.
Isso, certo, contribui
para a grande benquerença
que todo o povo dispensa,
com verdadeiro carinho,
ao travesso macaquinho.
Do fato de ser querido,
Xumburi tira partido,
saindo cedo de casa
e, como não perde vaza,
nas ruas, alegremente,
cumprimenta toda a gente.

Níqueis e pratas, então,
ele ganha em profusão
e, dessa forma, abarrota
os bolsinhos da fatiota.
Graças a esse dinheiro,
o macaco lambisqueiro
andava sempre abonado,
e gastava no mercado,
nas quitandas, nos cafés,
tomando seus capilés,
comendo tudo o que é doce,
à farta, como se fosse,
apesar de possuir rabo,
algum pródigo nababo.

XUMBURI É DE BOM TOM

Era um quadro pitoresco
vê-lo tomando um refresco,
pois não raro se atrapalha
com o canudinho de palha,
mormente quando lhe é dado
algum que esteja rachado...
Mas ele não se amofina
e, imitando a gente fina,
ao liquidar a despesa
deixa sempre sobre a mesa,
como símio de bom tom,
a gorjeta do garçon...
Tendo mais pose que um lorde,
às vezes tomava um “Ford”,
“Ford” ou qualquer outro carro
e, fumando um bom cigarro,
refestelado no assento,
soltando a fumaça ao vento,
ia à zona suburbana
saborear uma banana.
É que banana ele adora
quando é colhida na hora.
Além do mais, o traquinas
sabia que as vitaminas
que as frutas frescas contêm
sempre fazem muito bem.

XUMBURI ENTENDE INGLES?

Sendo um símio de alta roda
ia ao cinema da moda
que amiúde frequentava,
pois o dinheiro sobrava,
e além de ter dinheiro
era amigo do porteiro.
Valia vê-lo, aos pinotes,
subir para os camarotes,
nos dias de vesperais,
quando as fitas naturais
e os desenhos animados
geralmente são passados,
além dos filmes compridos
de cowboys e de bandidos,
que a garotada reclama
para gostar do programa.
Mas o que causava espanto
era vê-lo, no seu canto,
aplaudindo com calor
algum cowboy de valor!
O povo cheio de pasmo,
em vista desse entusiasmo,
não crê que o símio compreenda
sem saber ler a legenda,
e diz por troça, talvez:
- Será que ele entende inglês?
Em tom de troça ou tom sério,
não há nisso despautério,
porquanto um macaco assim,
pode até saber latim...

Entrou por uma porta e saiu por outra...
Quem quiser que conte outra!

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