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VIDA BOA
TAMBÉM ENJOA

Mas o conforto excessivo tem valor bem
relativo para o símio, que
se cansa dessa vida de folgança. É que a prática lhe ensina que a
vida da gente fina não vale meio centavo, pois ser fino é ser
escravo de mil convenções sociais, das quais riem os animais. Um
macaco que se preza a vida calma despreza! E prefere as
aventuras, as artes, as travessuras! Vida boa, muito boa, é
folgada, mas... enjoa...

Assim
pensando, o danado, que era do chifre furado, põe-se a engendrar
tropelias, e quase todos os dias ele faz uma das suas quando,
acaso, não faz duas... Pregando peças diabólicas, ri tanto, que até
tem cólicas. E, pondo a mão na barriga para que a dor não
prossiga, com os seus botões ele diz: - Agora sim, sou
feliz!
XUMBURI
PERDEU O JUIZO?

Como um Pedro
Malasartes, fazendo teríveis artes, o macaco, dentro em
pouco, deixa a impressão de estar louco. E na cidade pacata o
povo intiero relata, O povo inteiro comenta, as reinações que ele
inventa... Na verdade, Xumburi parece agora um saci!... Vejamos o
que ele fez, narrando um caso por vez.
OS ALFINETES DE
GANCHO

Ao prendermos um
vestido, que acaso esteja comprido; a fraldinha de um bebê, que é
posta em forma de "V"; o terno de algum garoto, que, por azar, ficou
roto; em suma, em casos sem conta, é um perigo quando a ponta do
alfinete fica exposta. Por isso é que a gente gosta de usar os de
segurança, que inspiram maior confiança, pois - é coisa bem sabida
- possuem a ponta escondida. Muito valor não lhe dão, porém, que
bela invenção! Xumburi que é muito esperto, sabe dar-lhe emprego
certo... Descobriu então, certo dia, uma nova serventia para o
alfinete de gancho. No seu terno, todo ancho, vai à loja do
Salim, pensa um mometo e, por fim, aponta entre os sabonetes uma
caixa de alfinetes.

E como símio não
fala, demonstra que quer compra-la puxando pela carteira, que
guardava na algibeira. O bom sírio, que o compreende, os alfinetes
lhe vende, dá-lhe o troco e a caixa embrulha, sem desconfiar em quê
o pulha do macaco empregaria aquela mercadoria... Mas, seja lá
como for, não tem culpa o vendedor se mal emprego se der a um seu
artigo qualquer...
Sem parar pelo
caminho, ao cinema, direitinho, o macaco se dirige. E, conforme o
caso exige, lá se instala na platéia Para executar a
idéia maquiavélica, daninha, que em seu cérebro se aninha. Um
filme muito comprido, mantém o povo entretido...
Então, Xumburi se
abaixa, sem fazer bulha abre a caixa de alfinetes e inicia a
genial estripulia. Paletós, saias, vestidos de delicados
tecidos que, certo, se rasgarão na hora "H" da reinação, uns aos
outros, Xumburi vai prendendo aqui e ali. E como a caixa se
esgote, sobe para o camarote, pois é de lá que quer ver o que vai
acontecer...

Termina o filme. A
assistencia com calma, com displicencia, levanta-se e vai
sair, mas para logo, ao sentir que alguém lhe repuxa a
roupa. Uma velha, então, não poupa um rapaz - que patuscada! - ao
qual se achava pregada. E vocifera: - Atrevido, não segure o meu
vestido! Houve vários quiproquós e rasgões nos paletós, nos
casacos e nas saias. gritarias, socos, vaias, e calos de
estimação pisados na confusão. Trambolhões e
cambalhotas, rapazes, moças, velhotas no chão, de pernas pro
ar, numa balbúrdia sem par. Em suma, toda a
assistencia Precisando de... assistencia...
Xumburi, nesse
momento, sentiu arrependimento de fazer tal travessura. mas... já
pensou na futura! |