AVENTURAS DE XUMBURI
O Macaco Inteligente que até parecia Gente...
Antonio de Pádua Morse
Ilustrações de Hilde Weber
Animações de Maux

 

VIDA BOA TAMBÉM ENJOA

Mas o conforto excessivo
tem valor bem relativo
para o símio, que se cansa
dessa vida de folgança.
É que a prática lhe ensina
que a vida da gente fina
não vale meio centavo,
pois ser fino é ser escravo
de mil convenções sociais,
das quais riem os animais.
Um macaco que se preza
a vida calma despreza!
E prefere as aventuras,
as artes, as travessuras!
Vida boa, muito boa,
é folgada, mas... enjoa...

Assim pensando, o danado,
que era do chifre furado,
põe-se a engendrar tropelias,
e quase todos os dias
ele faz uma das suas
quando, acaso, não faz duas...
Pregando peças diabólicas,
ri tanto, que até tem cólicas.
E, pondo a mão na barriga
para que a dor não prossiga,
com os seus botões ele diz:
- Agora sim, sou feliz!

XUMBURI PERDEU O JUIZO?

Como um Pedro Malasartes,
fazendo teríveis artes,
o macaco, dentro em pouco,
deixa a impressão de estar louco.
E na cidade pacata
o povo intiero relata,
O povo inteiro comenta,
as reinações que ele inventa...
Na verdade, Xumburi
parece agora um saci!...
Vejamos o que ele fez,
narrando um caso por vez.

OS ALFINETES DE GANCHO

Ao prendermos um vestido,
que acaso esteja comprido;
a fraldinha de um bebê,
que é posta em forma de "V";
o terno de algum garoto,
que, por azar, ficou roto;
em suma, em casos sem conta,
é um perigo quando a ponta
do alfinete fica exposta.
Por isso é que a gente gosta
de usar os de segurança,
que inspiram maior confiança,
pois - é coisa bem sabida -
possuem a ponta escondida.
Muito valor não lhe dão,
porém, que bela invenção!
Xumburi que é muito esperto,
sabe dar-lhe emprego certo...
Descobriu então, certo dia,
uma nova serventia
para o alfinete de gancho.
No seu terno, todo ancho,
vai à loja do Salim,
pensa um mometo e, por fim,
aponta entre os sabonetes
uma caixa de alfinetes.

E como símio não fala,
demonstra que quer compra-la
puxando pela carteira,
que guardava na algibeira.
O bom sírio, que o compreende,
os alfinetes lhe vende,
dá-lhe o troco e a caixa embrulha,
sem desconfiar em quê o pulha
do macaco empregaria
aquela mercadoria...
Mas, seja lá como for,
não tem culpa o vendedor
se mal emprego se der
a um seu artigo qualquer...

Sem parar pelo caminho,
ao cinema, direitinho,
o macaco se dirige.
E, conforme o caso exige,
lá se instala na platéia
Para executar a idéia
maquiavélica, daninha,
que em seu cérebro se aninha.
Um filme muito comprido,
mantém o povo entretido...

Então, Xumburi se abaixa,
sem fazer bulha abre a caixa
de alfinetes e inicia
a genial estripulia.
Paletós, saias, vestidos
de delicados tecidos
que, certo, se rasgarão
na hora "H" da reinação,
uns aos outros, Xumburi
vai prendendo aqui e ali.
E como a caixa se esgote,
sobe para o camarote,
pois é de lá que quer ver
o que vai acontecer...

Termina o filme. A assistencia
com calma, com displicencia,
levanta-se e vai sair,
mas para logo, ao sentir
que alguém lhe repuxa a roupa.
Uma velha, então, não poupa
um rapaz - que patuscada! -
ao qual se achava pregada.
E vocifera: - Atrevido,
não segure o meu vestido!
Houve vários quiproquós
e rasgões nos paletós,
nos casacos e nas saias.
gritarias, socos, vaias,
e calos de estimação
pisados na confusão.
Trambolhões e cambalhotas,
rapazes, moças, velhotas
no chão, de pernas pro ar,
numa balbúrdia sem par.
Em suma, toda a assistencia
Precisando de... assistencia...

Xumburi, nesse momento,
sentiu arrependimento
de fazer tal travessura.
mas... já pensou na futura!

Entrou por uma porta e saiu por outra...
Quem quiser que conte outra!

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