AVENTURAS DE XUMBURI
O Macaco Inteligente que até parecia Gente...
Antonio de Pádua Morse
Ilustrações de Hilde Weber
Animações de Maux

 

XUMBURI NA MADRUGADA

Domingo, dia de missa,
sente-se muita preguiça,
visto que o corpo reclama
ficar mais tempo na cama.
É que aos sábados a gente
dorme tarde, geralmente,
mas bem cedo - Bão! Bão! Bão! -
presta o sino o servição
de acordar quem, sendo crente,
vai à missa habitualmente.
Ao chegar o sol a pino,
de novo bimbalha o sino:
o "Angelus" ele anuncia,
justamente ao meio dia.
E quando, por trás de um monte,
na orla rubra do horizonte,
o Sol, aos poucos, afunda,
quando a nossa alma se inunda
de inexplicável tristeza
e a gente se sente presa
de um quê de melancolia,
plange o sino: - "Ave Maria!"
Também ao chegar a hora
da reza, com voz sonora,
na torre o sino badala
e até parece que fala
ao povo para que esteja
pontualmente na igreja.

Fora dessas ocasiões,
salvo quando há procissões,
se acaso o sino bimbalha,
logo a notícia se espalha
de que houve um caso de morte,
ou acidente de porte.
Se o sino dobra com pausa,
em tom lúgubre, não causa
sensação, já que, afinal,
morte é coisa natural.
Porém, se toca apressado,
vibrando descompassado,
o povo fica apreensivo,
porquanto só por motivo
de gravissimo acidente
que requeira auxílio urgente,
é que assim o sino plange.
E o coração se confrange,
da população, tão boa,
que, enquanto o bronze ressoa,
sai à rua em alvoroço,
pois se alguém caiu num poço,
ou pegou fogo na mata,
toda a gente logo trata,
cumprindo um dever sagrado,
de ajudar o precisado.
Essa solidariedade
era um culto na cidade.

Xumburi que sabe disso,
arquiteta no toutiço
uma travessura enorme.
enquanto a cidade dorme,
pelas três da madrugada,
ei-lo fazendo a escalada
da alta torre da matriz.
E lá - que ac
hado feliz! -
ninguém sabe o que o bilontra
com grande surpresa encontra:
a igreja que esteve em obras,
na torre tinha umas sobras
de tintas e de vernizes
de diferentes matizes.
Tal achado não tem preço
para o macaco travesso,
pois vinha mesmo a propósito
o encontro desse depósito.

E agora - Bão-ba-la-lão!
Bão-ba-la-lão! Bão! Bão! Bão! -
atroa o sino nos ares!
Xumburi fazendo esgares,
como um louco puxa a corda
e toda a cidade acorda.
Sempre nesse diapasão,
sem cessar o símio vibra
na torre em que se equilibra.
O povo apreensivo, aflito,
sai para a rua convicto
de que a sombra da desgraça
sobre a cidade perpassa.
Do sino - Bão-ba-la-lão! -
longe se ouve a vibração...
A rua se movimenta.

Aos poucos o povo aumenta,
pois todos saltam da cama,
de camisola ou pijama,
para saber a razão
por que o sino - Bão-ba-la-lão! -
àquelas horas não para.
Toda a gente o caso encara
com sombrio pessimismo,
supondo que um cataclismo,
que algum desastre tremendo
haja feito o reverendo,
o bom do padre Joaquim,
badalar o sino assim..

Seria revolução?
Porventura da prisão,
teriam fugido, ilesos,
assassinos e outros presos?
Será que devido ao vento,
houve desmoronamento
de algum prédio e que, em perigo,
lá se encontra um  nosso amigo?
Mil conjeturas como essas,
pelas ruas e travessas
eram ouvidas, porém,
todos acham que convém
ir ao largo da matriz
ouvir o que o padre diz.
E quem informes deseja,
encaminha-se para a igreja.

Lá chegando - oh! que surpresa! -
não há luz alguma acesa!
A paz o templo amortalha
enquanto o sino bimbalha:
Bão-ba-la-lão! Bão! Bão! Bão!
Ninguém acha explicação
plausível para tal fato
e, destarte, estupefato,
o povo, que se aglomera,
do vigário fica à espera.

O macaco, a tudo atento,
vê que é chegado o momento
de rematar a aventura.
Na torre as tintas procura
e ao seu lado logo trata
de alinhar lata por lata.
Enquanto o símio trabalha,
o bronze não mais bimbalha.
O desfecho se aproxima:
todos olham para cima.
De repente, o povaréu
recebe em cheio, do céu,
um tremendissimo banho,
um banho tremendo e estranho,
de verniz, de óleo e de cal,
pois esse banho, afinal,
era das tintas deixadas
no campanário guardadas.

E a multidão, surpreendida
pela chuva colorida,
vendo uma ponta de rabo
na torre, pensa que o diabo
é que seja o autor da peça.
E sai correndo, e tropeça,
e pelo chão se esparrama...

- Socorro! - é o que o povo clama
na barafunda infernal
que parece um carnaval:
- Todos de cara pintada
às quatro da madrugada!

Xumburi, mais uma vez,
arrepende-se do que fez,
dessa terrivel diabrura,
mas... já pensa na futura...

Entrou por uma porta e saiu por outra...
Quem quiser que conte outra!

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