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XUMBURI NA
MADRUGADA

Domingo,
dia de missa, sente-se muita preguiça, visto que o corpo
reclama ficar mais tempo na cama. É que aos sábados a gente dorme
tarde, geralmente, mas bem cedo - Bão! Bão! Bão! - presta o sino o
servição de acordar quem, sendo crente, vai à missa
habitualmente. Ao chegar o sol a pino, de novo bimbalha o sino: o
"Angelus" ele anuncia, justamente ao meio dia. E quando, por trás de
um monte, na orla rubra do horizonte, o Sol, aos poucos,
afunda, quando a nossa alma se inunda de inexplicável tristeza e
a gente se sente presa de um quê de melancolia, plange o sino: -
"Ave Maria!" Também ao chegar a hora da reza, com voz sonora, na
torre o sino badala e até parece que fala ao povo para que
esteja pontualmente na igreja.

Fora
dessas ocasiões, salvo quando há procissões, se acaso o sino
bimbalha, logo a notícia se espalha de que houve um caso de
morte, ou acidente de porte. Se o sino dobra com pausa, em tom
lúgubre, não causa sensação, já que, afinal, morte é coisa
natural. Porém, se toca apressado, vibrando descompassado, o povo
fica apreensivo, porquanto só por motivo de gravissimo
acidente que requeira auxílio urgente, é que assim o sino
plange. E o coração se confrange, da população, tão boa, que,
enquanto o bronze ressoa, sai à rua em alvoroço, pois se alguém caiu
num poço, ou pegou fogo na mata, toda a gente logo
trata, cumprindo um dever sagrado, de ajudar o precisado. Essa
solidariedade era um culto na cidade.

Xumburi
que sabe disso, arquiteta no toutiço uma travessura
enorme. enquanto a cidade dorme, pelas três da madrugada, ei-lo
fazendo a escalada da alta torre da matriz. E lá - que
achado
feliz! - ninguém sabe o que o bilontra com grande surpresa
encontra: a igreja que esteve em obras, na torre tinha umas
sobras de tintas e de vernizes de diferentes matizes. Tal achado
não tem preço para o macaco travesso, pois vinha mesmo a
propósito o encontro desse depósito.

E agora -
Bão-ba-la-lão! Bão-ba-la-lão! Bão! Bão! Bão! - atroa o sino nos
ares! Xumburi fazendo esgares, como um louco puxa a corda e
toda a cidade acorda. Sempre nesse diapasão, sem cessar o símio
vibra na torre em que se equilibra. O povo apreensivo, aflito, sai para a
rua convicto de que a sombra da desgraça sobre a cidade
perpassa. Do sino - Bão-ba-la-lão! - longe se ouve a
vibração... A rua se movimenta.

Aos poucos
o povo aumenta, pois todos saltam da cama, de camisola ou
pijama, para saber a razão por que o sino - Bão-ba-la-lão!
- àquelas horas não para. Toda a gente o caso encara com
sombrio pessimismo, supondo que um cataclismo, que algum desastre
tremendo haja feito o reverendo, o bom do padre Joaquim, badalar
o sino assim..

Seria
revolução? Porventura da prisão, teriam fugido,
ilesos, assassinos e outros presos? Será que devido ao
vento, houve desmoronamento de algum prédio e que, em perigo, lá
se encontra um nosso amigo? Mil conjeturas como essas, pelas
ruas e travessas eram ouvidas, porém, todos acham que convém ir
ao largo da matriz ouvir o que o padre diz. E quem informes
deseja, encaminha-se para a igreja.

Lá chegando - oh! que surpresa! - não há luz
alguma acesa! A paz o templo amortalha enquanto o sino
bimbalha: Bão-ba-la-lão! Bão! Bão! Bão! Ninguém acha
explicação plausível para tal fato e, destarte, estupefato, o
povo, que se aglomera, do vigário fica à
espera.

O macaco,
a tudo atento, vê que é chegado o momento de rematar a
aventura. Na torre as tintas procura e ao seu lado logo trata de
alinhar lata por lata. Enquanto o símio trabalha, o bronze não mais
bimbalha. O desfecho se aproxima: todos olham para cima. De
repente, o povaréu recebe em cheio, do céu, um tremendissimo
banho, um banho tremendo e estranho, de verniz, de óleo e de
cal, pois esse banho, afinal, era das tintas deixadas no
campanário guardadas.

E a
multidão, surpreendida pela chuva colorida, vendo uma ponta de
rabo na torre, pensa que o diabo é que seja o autor da peça. E
sai correndo, e tropeça, e pelo chão se
esparrama...

-
Socorro! - é o que o povo clama na barafunda infernal que parece um
carnaval: - Todos de cara pintada às quatro da
madrugada!

Xumburi, mais uma vez, arrepende-se do que fez, dessa
terrivel diabrura, mas... já pensa na
futura... |