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XUMBURI É
DETETIVE

Rapaz de
má catadura, nesta façanha figura, Fio-de-Linha era a alcunha que
o povo todo lhe punha. É comprido, seco, esguio, mais magro que
o próprio fio. Tão alto que causa assombro: ninguém alcança o seu
ombro. Tem uns três palmos a mais do que os rapazes normais. E
que traste! Como é mau o terrível varapau! É o flagelo da
cidade: vive só para a maldade. Graças a sua estatura, faz muita
incrível diabrura. Ninguém seria capaz de fazer o que ele
faz.

Rabisca e
pinta caretas nas mais altas tabuletas. Quando na rua ele
passa, todas as casas devassa. Sabe o que se passa
nelas, espiando pelas janelas. Das casas baixas demais tira
telhas dos beirais. E, das esquinas, o tranca todas as placas
arranca.

Que
vandalismo! Que sanha! Que rapaz de alma tacanha! Nem mesmo a cadeia
espanta o temível sacripanta. Longas pernas ele tem, e corre como
ninguém. Por isso é que abusa tanto e anda solto como um
santo.

A polícia
quer dar cabo desse parente do diabo... Com tal intento, o
rapaz põe a premio num cartaz. Isso - além de uma medalha que
outro tanto talvez valha... Do cartaz tão tentador nada sabe o
malfeitor. E ei-lo que impávido passa com toda a calma na
praça...

O povo pacato teme-o, porém quer ganhar o premio. E se
lança, decidido, atrás do moço comprido. Mas o maroto se
esgueira, ganhando grande dianteira. Longe, agora ele blasona que
é campeão de maratona...

Xumburi
sem confusões faz as suas deduções. E compreende, num
zás-trás, qual a razão do cartaz. Resoluto, sem demora, em
detetive se arvora. Seguindo a praxe, ele até compra um cachimbo e
um boné.

Vai para casa e, no chão, estende um grande
colchão. Agora, com fé, trabalha a fin de tirar-lhe a palha. Boa
idéia a do macaco: - do colchão fazer um saco... Indo depois ao
quintal, tira o arame do varal. E, à maneira de um balão, bota
boca no ex-colchão... Assim preparado o laço, sai no encalço do
madraço.

Vai para o mato, lá onde Fio-de-Linha se
esconde. Subindo num tronco, então, foca à espera do mandrião. Os
seus níqueis ele arrisca a espalhar no chão como isca... O macaco,
lá de cima, vê que o peste se aproxima. Vem direitinho na
trilha em que se encontra a armadilha. Ao ver os níqueis se
abaixa, pois vai reforçar a "caixa". Como tem pernas de sobra, em
dois o biltre se dobra.

Nesse momento, o macaco - Zás! - derruba o grande
saco. Depois desce, com presteza, para rematar a proeza. Evitando
qualquer brecha, puxa o arame e o saco fecha. Dobrado em dois, o
malvado, ei-lo, afinal... ensacado... Xumburi dá-lhe, sem dó, uma
surra de cipó.

Por
lá passava, por sorte, um caboclo muito forte. Vê logo do que se
trata e leva o saco da mata. O malandro, desta vez, foi metido no
xadrez! Os jornais deram notícia desse caso da
polícia. A façanha portentosa foi narrada em verso e
prosa. Toda a gente agora vive a gabar o detetive. Até mesmo o
delegado sua astúcia tem louvado. E, por ser justo, ele pensa em
lhe dar a recompensa. Para tal fim, marca o dia e enfeita a
delegacia.

A casa
fica repleta de gente da mais seleta. Nisto, todos abrem alas nos
corredores e salas. É que chega, de ar triunfante, o Sherlock
diletante. O povo, então, lhe promove uma ovação que o comove. O
macaco, ufano, inchado, se apresenta ao delegado. Este, num belo
discurso, agradece o seu concurso. Enaltecendo o seu
feito, põe-lhe a medalha no peito! Quanto ao premio em
dinheiro, esse... ficou no inteiro... |