AVENTURAS DE XUMBURI
O Macaco Inteligente que até parecia Gente...
Antonio de Pádua Morse
Ilustrações de Hilde Weber
Animações de Maux

 

XUMBURI É DETETIVE

Rapaz de má catadura,
nesta façanha figura,
Fio-de-Linha era a alcunha
que o povo todo lhe punha.
É comprido, seco, esguio,
mais magro que o próprio fio.
Tão alto que causa assombro:
ninguém alcança o seu ombro.
Tem uns três palmos a mais
do que os rapazes normais.
E que traste! Como é mau
o terrível varapau!
É o flagelo da cidade:
vive só para a maldade.
Graças a sua estatura,
faz muita incrível diabrura.
Ninguém seria capaz
de fazer o que ele faz.

Rabisca e pinta caretas
nas mais altas tabuletas.
Quando na rua ele passa,
todas as casas devassa.
Sabe o que se passa nelas,
espiando pelas janelas.
Das casas baixas demais
tira telhas dos beirais.
E, das esquinas, o tranca
todas as placas arranca.

Que vandalismo! Que sanha!
Que rapaz de alma tacanha!
Nem mesmo a cadeia espanta
o temível sacripanta.
Longas pernas ele tem,
e corre como ninguém.
Por isso é que abusa tanto
e anda solto como um santo.

A polícia quer dar cabo
desse parente do diabo...
Com tal intento, o rapaz
põe a premio num cartaz.
Isso - além de uma medalha
que outro tanto talvez valha...
Do cartaz tão tentador
nada sabe o malfeitor.
E ei-lo que impávido passa
com toda a calma na praça...


O povo pacato teme-o,
porém quer ganhar o premio.
E se lança, decidido,
atrás do moço comprido.
Mas o maroto se esgueira,
ganhando grande dianteira.
Longe, agora ele blasona
que é campeão de maratona...

Xumburi sem confusões
faz as suas deduções.
E compreende, num zás-trás,
qual a razão do cartaz.
Resoluto, sem demora,
em detetive se arvora.
Seguindo a praxe, ele até
compra um cachimbo e um boné.

Vai para casa e, no chão,
estende um grande colchão.
Agora, com fé, trabalha
a fin de tirar-lhe a palha.
Boa idéia a do macaco:
- do colchão fazer um saco...
Indo depois ao quintal,
tira o arame do varal.
E, à maneira de um balão,
bota boca no ex-colchão...
Assim preparado o laço,
sai no encalço do madraço.

Vai para o mato, lá onde
Fio-de-Linha se esconde.
Subindo num tronco, então,
foca à espera do mandrião.
Os seus níqueis ele arrisca
a espalhar no chão como isca...
O macaco, lá de cima,
vê que o peste se aproxima.
Vem direitinho na trilha
em que se encontra a armadilha.
Ao ver os níqueis se abaixa,
pois vai reforçar a "caixa".
Como tem pernas de sobra,
em dois o biltre se dobra.

Nesse momento, o macaco
- Zás! - derruba o grande saco.
Depois desce, com presteza,
para rematar a proeza.
Evitando qualquer brecha,
puxa o arame e o saco fecha.
Dobrado em dois, o malvado,
ei-lo, afinal... ensacado...
Xumburi dá-lhe, sem dó,
uma surra de cipó.

Por lá passava, por sorte,
um caboclo muito forte.
Vê logo do que se trata
e leva o saco da mata.
O malandro, desta vez,
foi metido no xadrez!
Os jornais deram notícia
desse caso da polícia.
A façanha portentosa
foi narrada em verso e prosa.
Toda a gente agora vive
a gabar o detetive.
Até mesmo o delegado
sua astúcia tem louvado.
E, por ser justo, ele pensa
em lhe dar a recompensa.
Para tal fim, marca o dia
e enfeita a delegacia.

A casa fica repleta
de gente da mais seleta.
Nisto, todos abrem alas
nos corredores e salas.
É que chega, de ar triunfante,
o Sherlock diletante.
O povo, então, lhe promove
uma ovação que o comove.
O macaco, ufano, inchado,
se apresenta ao delegado.
Este, num belo discurso,
agradece o seu concurso.
Enaltecendo o seu feito,
põe-lhe a medalha no peito!
Quanto ao premio em dinheiro,
esse... ficou no inteiro...

Entrou por uma porta e saiu por outra...
Quem quiser que conte outra!

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