AVENTURAS DE XUMBURI
O Macaco Inteligente que até parecia Gente...
Antonio de Pádua Morse
Ilustrações de Hilde Weber
Animações de Maux

 

XUMBURI VIRA ENFERMEIRO.

Viver! - que pesado fardo
pra quem não é felizardo!
Xumburi, por certo deve
achar o fardo bem leve...
Tem casa, cama e comida
sem fazer nada na vida.
Como, porém, nada faça,
julga a existência sem graça.
Quem consome a vida à toa
não pode achar que ela é boa.
Por isso se faz mister
ter um trabalho qualquer.
O trabalho, além de nobre,
faz feliz o rico e o pobre.
Só mesmo um tolo, um paspalho,
é que renega o trabalho.

Xumburi, pensando assim,
à vadiação quer dar fim.
Põe-se, então, a matutar
no que iria trabalhar.
Lembra-se, ele que um enfermeiro
ganha bastante dinheiro.
Ademais, tal profissão
denota bom coração.
E ele - fato extraordinário! -
era um "bicho humanitário"...
Por todos esses motivos
faz os seus preparativos.
Remexendo uma gaveta,
acha a adequada maleta.
E os remédios requeridos?
Como serão conseguidos?
O pai do Antoninho tinha,
em casa, uma botiquinha.
Xumburi, é claro, arrasa
a botiquinha da casa.
Falta somente a roupagem
com que exerce a enfermagem,
m
as o avental de Nhá Chica
qual uma bata lhe fica!

Afinal, com tudo pronto,
junto à farmácia faz ponto.
E ei-lo esperando, contente,
pelo primeiro cliente.
Mas - que azar! - niguém confia
na sua sabedoria.
Embora enfermeiro exímio,
não o chamam por ser símio.
Depois de uma longa espera
de alguns dias, desespera.
E, talvez, dando o cavaco,
assim reflita o macaco:
- "Que espiga! Possuir o diabo
do contrapeso do rabo!
Tivesse nascido gente
venceria facilmente.
Sendo macaco, porém,
serei sempre um Zé Ninguém...
Pois o povo por desgraça,
tem... preconceitos de raça...
É bem possível que morra
antes que a um símio recorra.
Mas, enfim, seu Serafim,
que fazer se a vida é assim?"
Em suma, ele vê, tristonho,
malograr seu lindo sonho.
O sonho róseo, fagueiro,
de vir a ser enfermeiro...

Mas o seu temperamento
não comporta desalento.
Ante o fracasso iminente
procura um remédio urgente.
Alegre o rabo sacode,
pois uma idéia lhe acode.
Um simples pão-de-sabão
vai salvar-lhe a situação!
Há na cidade uma esquina
que em forte rampa se inclina.
Xumburi, de madrugada,
passa sabão na calçada.
A certa distância aguarda
o amanhecer, que não tarda.

São seis horas: amanhece;
a ladeira o povo desce.
Porém, ao chegar à esquina,
- Catrapus! - que triste sina!
Cada qual, como uma empada,
se esborracha na calçada!
E comenta, pondo a mão
em conhecida região:
- "Como é dura essa ladeira
para a almofada traseira!..."

Fingindo-se alheio ao caso,
surge o símio... "por acaso"...
É de ver a cara sonsa
do grande amigo... da onça...
A bem fornida maleta
abre ao lado da sarjeta.
A torto e a direito aplica
tinturas de iodo e arnica.
Nas já citadas regiões
faz massagens e fricções.
A turma, que mal se aguenta,
grande alívio experimenta.
Cada socorrido externa
sua gratidão eterna.
E por fim, sem mais espera,
regiamente o remunera.

Xumburi nessa ocorrência,
mostrou que tem competência.
Hoje é enfermeiro de fama
e, assim, toda a gente o chama.
Depois da escorregadela
não lhe falta clientela...
E sendo tão procurado
nem dá conta do recado...
Do povo, ele agora mofa
e com razão filosofa:
- "Mais vale um pão-de-sabão
que ser muito sabichão..."

Entrou por uma porta e saiu por outra...
Quem quiser que conte outra!

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