|
XUMBURI
VIRA ENFERMEIRO.

Viver! -
que pesado fardo pra quem não é felizardo! Xumburi, por certo
deve achar o fardo bem leve... Tem casa, cama e comida sem fazer
nada na vida. Como, porém, nada faça, julga a existência sem
graça. Quem consome a vida à toa não pode achar que ela é
boa. Por isso se faz mister ter um trabalho qualquer. O trabalho,
além de nobre, faz feliz o rico e o pobre. Só mesmo um tolo, um
paspalho, é que renega o trabalho.

Xumburi,
pensando assim, à vadiação quer dar fim. Põe-se, então, a
matutar no que iria trabalhar. Lembra-se, ele que um
enfermeiro ganha bastante dinheiro. Ademais, tal profissão denota
bom coração. E ele - fato extraordinário! - era um "bicho
humanitário"... Por todos esses motivos faz os seus
preparativos. Remexendo uma gaveta, acha a adequada maleta. E os
remédios requeridos? Como serão conseguidos? O pai do Antoninho
tinha, em casa, uma botiquinha. Xumburi, é claro, arrasa a
botiquinha da casa. Falta somente a roupagem com que exerce a
enfermagem, mas o avental de Nhá Chica qual uma bata lhe
fica!
Afinal,
com tudo pronto, junto à farmácia faz ponto. E ei-lo esperando,
contente, pelo primeiro cliente. Mas - que azar! - niguém
confia na sua sabedoria. Embora enfermeiro exímio, não o chamam
por ser símio. Depois de uma longa espera de alguns dias,
desespera. E, talvez, dando o cavaco, assim reflita o macaco: -
"Que espiga! Possuir o diabo do contrapeso do rabo! Tivesse nascido
gente venceria facilmente. Sendo macaco, porém, serei sempre um
Zé Ninguém... Pois o povo por desgraça, tem... preconceitos de
raça... É bem possível que morra antes que a um símio
recorra. Mas, enfim, seu Serafim, que fazer se a vida é
assim?" Em suma, ele vê, tristonho, malograr seu lindo sonho. O
sonho róseo, fagueiro, de vir a ser enfermeiro...

Mas o seu
temperamento não comporta desalento. Ante o fracasso
iminente procura um remédio urgente. Alegre o rabo sacode, pois
uma idéia lhe acode. Um simples pão-de-sabão vai salvar-lhe a
situação! Há na cidade uma esquina que em forte rampa se
inclina. Xumburi, de madrugada, passa sabão na calçada. A certa
distância aguarda o amanhecer, que não tarda.

São seis
horas: amanhece; a ladeira o povo desce. Porém, ao chegar à
esquina, - Catrapus! - que triste sina! Cada qual, como uma
empada, se esborracha na calçada! E comenta, pondo a mão em
conhecida região: - "Como é dura essa ladeira para a almofada
traseira!..."

Fingindo-se alheio ao caso, surge o símio... "por
acaso"... É de ver a cara sonsa do grande amigo... da onça... A
bem fornida maleta abre ao lado da sarjeta. A torto e a direito
aplica tinturas de iodo e arnica. Nas já citadas regiões faz
massagens e fricções. A turma, que mal se aguenta, grande
alívio experimenta. Cada socorrido externa sua gratidão eterna. E
por fim, sem mais espera, regiamente o
remunera.

Xumburi nessa ocorrência, mostrou que tem
competência. Hoje é enfermeiro de fama e, assim, toda a gente o
chama. Depois da escorregadela não lhe falta clientela... E sendo
tão procurado nem dá conta do recado... Do povo, ele agora mofa e
com razão filosofa: - "Mais vale um
pão-de-sabão que ser muito
sabichão..." |