JOÃOZINHO NINGUÉM

Era véspera de Natal. 
Joãozinho, menino pretinho,
escreveu alguma coisa em um pedaço de papel.
Era uma carta prá Papai Noel...
O que teria escrito o menino pretinho?
Teria pedido, quem sabe, uma bola,
um pião, ou uma pasta pequena
para guardar os livros da escola...

Não. Joãozinho pediu simplesmente ao Papai Noel,
que curasse seu paizinho que estava doente.
Doente? Sim. E de uma doença terrível:
a bebedeira, que debilita o corpo,
entorpece a alma e mata aos poucos.
Joãozinho passava fome. Estava muito magrinho.
Sua pobre mãe, coitada, lavava roupa prá fora
e ainda tinha que aturar o marido
que chegava em casa sempre embriagado...

Nesta noite, véspera de Natal, bastante embriagado,
o pai de Joãozinho procurou a casa mais cedo
e se atirou ao chão. Ao chão de barro batido,
umedecido, insensível ao pranto da esposa
e às lágrimas do filho que pedia insistente:
- Pai, levanta, paizinho, levanta!
Joãozinho deitou-se ao lado do pai.
Deixou o bilhete pertinho da esteira.

Coitado, tão pobrezinho! Mas não sofria porisso.
Afinal, Jesus também foi pobre!
José seu pai era um pobre carpinteiro
e pobre também era a mãe de Jesus, a Virgem Maria...
Joãozinho pensava: - Será que ele vem?
Baixinho pedia: - Papai Noel,
velhinho bondoso de barbas branquinhas,
não se esqueça de mim...
E terminava assim sua oração:
- Atende ao pedido de Joãozinho Ninguém...

Altas horas da noite, sentado no chão,
à luz quase mortiça do velho lampião,
o pai de Joãozinho procurava soletrar
aquela carta de amor que seu filhinho escrevera.
Em torno, SILÊNCIO. Silêncio pesado.
Silêncio de chumbo...

"Papai Noel, você que é tão bom,
você vai me atender neste Natal.
Você sabe o que eu mais desejo?
Se não sabe, vou dizer: eu queria,
eu queria que o meu pai deixe de beber,
que seja bom prá minha mãe..."

O velho pai não pôde prosseguir.
Soluçando, beijou a fronte do filho.
Joãozinho despertou. Parecia atordoado.
Seu pai ali estava ao seu lado, ajoelhado,
dizendo: - Meu filho, obrigado,
obrigado, obrigado... O milagre acontecera:
o pai de Joãozinho, o menino pretinho,
se levantou transformado e nunca mais bebeu...

Gesse Cardoso
Página formatada em 16 abr 2005

Obs. Esse é um dos poemas de minha infância.
Encontrado numa compilação de revistas metodistas "Bem te Vi", organizada pela saudosa dona Lídia Guedes, ao emprestá-los para aquela menininha, mitigava a sua sede de leitura e conhecimentos.

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