O Pássaro Cativo

Armas, num galho de árvore, o
alçapão.
E, em breve, uma avezinha descuidada,
batendo as asas cai
na escravidão.
Dás-lhe então, por esplêndida morada,
a gaiola
dourada; dás-lhe alpiste,
e água fresca, e ovos e tudo.
Por que
é que, tendo tudo,
há de ficar o passarinho mudo,
arrepiado e triste
sem cantar?
É que, criança, os pássaros não falam.
Só gorjeando a
sua dor exalam,
sem que os homens os possam
entender...
Se os pássaros falassem,
talvez os teus ouvidos
escutassem
este cativo pássaro dizer:
"Não quero o teu
alpiste!
Gosto mais do alimento que procuro
na mata livre em que a
voar me viste.
Tenho água fresca num recanto escuro
da selva em que
nasci.
Da mata entre os verdores,
tenho frutos e flores sem
precisar de ti!
Não quero a tua esplêndida gaiola,
pois nenhuma
riqueza me consola,
de haver perdido aquilo que perdi...
Prefiro o
ninho humilde, construído
de folhas secas, plácido,
escondido.
Solta-me ao vento e ao sol!
Com que direito à
escravidão me obrigas?
Quero saudar as pombas do arrebol!
Quero, ao
cair da tarde,
entoar minhas tristíssimas cantigas!
Por que me
prendes? Solta-me, covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade!
Não
me roubes a minha liberdade...
Quero voar! Voar!"
Estas cousas o
pássaro diria,
se pudesse falar...
E a tua alma, criança,
tremeria,
vendo tanta aflição...
E a tua mão tremendo lhe
abriria
a porta da prisão...
Olavo Bilac
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abr 2005