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Aurora Boreal
Tenho
quarenta janelas nas paredes do meu quarto. Sem vidros nem
bambinelas posso ver através delas o mundo em que me
reparto.
Por uma entra a
luz do Sol, por outra a luz do luar, por outra a luz das
estrelas que andam no céu a rolar.
Por esta entra a
Via Láctea como um vapor de algodão, por aquela a luz dos
homens, pela outra a escuridão.
Pela maior entra
o espanto, pela menor a certeza, pela da frente a beleza que
inunda de canto a canto.
Pela quadrada
entra a esperança de quatro lados iguais, quatro arestas, quatro
vértices, quatro pontos cardeais.
Pela redonda
entra o sonho, que as vigias são redondas, e o sonho afaga e
embala à semelhança das ondas.
Por além entra a
tristeza, por aquela entra a saudade, e o desejo, e a
humildade, e o silêncio, e a surpresa,
e o amor dos
homens, e o tédio, e o medo, e a melancolia, e essa fome sem
remédio a que se chama poesia,
e a inocência, e
a bondade, e a dor própria, e a dor alheia, e a paixão que se
incendeia, e a viuvez, e a piedade,
e o grande
pássaro branco, e o grande pássaro negro que se olham
obliquamente, arrepiados de medo,
todos os risos e
choros, todas as fomes e sedes, tudo alonga a sua sombra nas
minhas quatro paredes.
Oh janelas do meu quarto, quem vos
pudesse rasgar! Com tanta janela aberta falta-me a luz e o
ar.
Antônio
Gedeão Página formatada em 03 ago
2004 |