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VALÉRIA T. ARELHO |
Origami
Numa
tarde qualquer
na qual te amei,
fui o papel espelho
que você vincou.
Ficaram em mim
as marcas desse atropelo
(e de teus dedos)...
Enquanto fui só amor para dar
(e medo), você apenas brincou
de me dobrar...
O
Casamento da Malhada
No casamento da Malhada
veio toda a bicharada
que mora lá na roça.
Vou contar sem muita prosa
como foi essa festança...
Teve música caipira,
cantoria de viola,
foguetório, busca-pé
e muito arrasta-pé...
Tinha uma enorme fogueira
que em brasas se ardia
crepitando a noite inteira
até o raiar do dia.
Enquanto rolava a dança,
a bicharada da roça
enchia também a pança...
Nossa, que comilança!
Chego a ficar enjoada!
No casamento da Malhada
tinha milho e coalhada,
tinha pipoca e paçoca
feita de amendoim,
tinha também aipim
(que é o mesmo que mandioca).
O bolo confeitado
foi o doce mais provado
por todos os convidados.
Para acompanhar a comida
foi servida a bebida:
quentão de gengibre e canela,
vinho quente, aguardente,
suco e refrigerante
para crias e donzelas.
Para os filhotes lactentes
não faltou o sagrado leite!
Depois que se divertiram,
os bichos se enfileiraram
em torno do arraial
para cumprimentar o casal.
Na frente estava a boiada
seguida dos outros quadrúpedes,
depois vinham os bípedes,
anfíbios e animais domésticos;
sobrevoando a bicharada
estavam as aves e insetos.
No final desse cortejo
se via os animais do brejo.
Essa história envolvente
de um casamento rural
entre o touro Cintilante
e a vaca de nome Malhada,
sucedeu lá no curral
da Fazenda Aritana
numa noite enluarada.
Foi tudo muito bacana!
A
Fuzarca da Bicharada
Quando os bichos falavam,
resolveram fazer um pagode.
Convidaram toda a bicharada,
para esse emenda-bigode.
E escolheram para o baile,
a bela fazenda do bode.
A cabra cuidou dos manjares,
o bode preparou a bebida.
Com tantas iguarias na mesa,
ninguém brigaria por comida.
E quem bebesse poderia,
tomar o maior porre da vida.
Vou falar dos comes e bebes,
mas não fiquem com água na boca.
Quem está fazendo dieta,
seja bizarra ou barroca.
Nessa festa só apareça,
se for um cabeça oca.
Arroz-doce e paçoquinha,
canjica e mungunzá.
Amendoim e pé-de-moleque,
caruru e vatapá.
Bolo de aipim e de puba,
tucupi e tacacá.
Um gostoso churrasco gaúcho,
das moquecas só dou uma pista.
Um saboroso tutu à mineira,
e também um virado paulista.
Uma boa feijoada carioca,
para completar esta lista.
Pão de queijo e sequilho,
brigadeiro e rosquinha.
Pastel, jujuba e empada,
olho-de-sogra e queijadinha.
Sanduíche de queijo e presunto,
milho, quibe e coxinha.
Batidas de todos os tipos,
caldo de cana e aluá.
Cerveja, chopp e quentão,
e cachaça lá do Pará.
Suco de todas as frutas,
uísque, vinho e guaraná.
Os cartazes foram pintados,
em folhas de bananeiras.
E a fazenda toda enfeitada,
com balões, lanternas e bandeiras.
No centro fizeram um palco,
e em volta algumas fogueiras.
E numa noite de lua cheia,
sob um céu todo estrelado.
Uma linda queima de fogos,
deu o baile por começado.
Ao som do "Mela-cueca ",
pelo bode contratado.
A zabumba era tocada,
pelo mico-leão dourado.
A preguiça muito atenta,
atacava no teclado.
E o mestre Tamanduá,
na sanfona deu seu recado.
Tartaruga era o regente,
de polainas, fraque e cartola.
No clarinete a ariranha,
estava toda gabola.
O tucano tocava a flauta,
e também usava argola.
O sapo no contrabaixo,
no cavaquinho o tatu.
Cigarra era a cantora,
fazia o "back" o urubu.
E na guitarra elétrica,
o roqueiro Uirapuru.
Arara tocava bateria,
onça dedilhava o violão.
A anta no cavaquinho,
capivara com o pandeiro na mão.
O guará no saxofone,
fazia a maior sensação.
Assum-preto no atabaque,
jacaré no reco-reco.
O flamingo no triângulo,
repicava fazendo eco.
Porco-espinho nos pratos,
e no piano o marreco.
Ao fim da apresentação,
de orquestra tão garbosa.
Recebamos os convidados,
para essa festa charmosa.
Vestidas nos mais lindos trajes,
de costureiras famosas.
A borboleta e o vagalume,
chegaram antes do periquito.
O grilo veio logo atrás,
na orelha do cabrito.
E a mulher do quero-quero,
chegou dando faniquito.
Também muito elegante,
chega o amigo gavião.
Com um legítimo Armany,
o ilustre camaleão.
E num belíssimo Dior,
chegou a mulher do pavão.
O sabiá e o curió,
não poderiam faltar.
E o belo tenor rouxinol,
uma "palha" teria que dar.
A garça e a cegonha vieram,
com a égua e a preá.
Galo e beija-flor fofocavam,
com o indiscreto bem-te-vi.
A pulga e o piolho vieram,
no ombro do jabuti.
A raposa e o pernilongo chegaram,
com a paca e o quati.
O gafanhoto apressado,
aos pulos foi entrando.
O burro e o jumento,
ficaram ali cochichando.
Mas o cavalo e o boi,
aos dois não estavam ligando.
E o jegue muito teimoso,
na porta ficou empacado.
E o seu amigo calango,
ficou ali ao seu lado.
Mais tarde chegou o cachorro,
de uma gata acompanhado.
Já chegou um tanto "cheio",
o mal-cheiroso gambá.
Centopéia cheia de pernas,
disse que vinha dançar.
E a aranha numa teia rendada,
só queria tomar chá.
Morcego chegou dizendo,
ser o vampiro da novela.
Perereca chego falando,
que o pinto é tagarela.
Que conta prá todo mundo,
coisas que nem fez com ela.
Metidos em belos smokings,
chegou o carneiro e o pato.
De alpercatas, meias e fraques,
veio o caracol e o rato.
Com o pelo todo lambido,
chegou um velho gato.
O zebu trouxe consigo,
uma linda vaca holandesa.
A ema chegou bem discreta,
num vestido azul-turquesa.
Mariposa estava tão linda,
que parecia uma princesa.
Macaco muito gaiato,
chegou fazendo micagens.
Papagaio sempre devasso,
entrou dizendo bobagens.
Gavião chegou comentando:
- Nunca vim por essas paragens!
A formiga num salto dezoito,
equilibrava-se para não cair.
Percevejo viera de botas,
e o anum não pôde vir.
A bbarata e a lagartixa,
não quiseram se assumir.
De roupa e chapéu de cowboy,
chegou o veado campeiro.
A rã parecia uma miss,
num modelito maneiro.
Carangueijo chegou mexendo,
o seu gordo trazeiro.
Disposta a dançar o forró,
A galinha não saiu do salão.
A coruja reclamava do dólar,
e culpava uma tal eleição.
O mosquito chegou sozinho,
de colete azul e blusão.
Também muito grã-fino,
estava o pomposo peru.
Fazendo cara de galã,
foi entrando o jacu.
Besouro trouxe a joaninha,
e a lagarta o jaburu.
A cobra vestia um longo,
o teiú um palitó encarnado.
O coelho trouxe a mosca,
marimbondo chegou apressado. chegou
A ovelha chegou com a pomba,
com seus vestidos surrados.
O ganso e a abelha,
que estavam namorando.
Viram quando o sariguê,
saiu do salão suando.
E uma bela taturana,
que vinha atrás abanando.
Decidiram fazer uma quadrilha,
e o bezerro foi marcar.
Andorinha era par do esquilo,
e só o queria beijar.
A lesma era o par do cágado,
mas não sabiam dançar.
O pardal e a seriema,
se escondiam do canário.
O burrico e a perdiz,
se trancaram num armário.
A iguana e o cupim,
tavam atrás do campanário.
O frango chegou atrazado,
quase acabada a função.
Mas o baile durou tantos dias,
que fez calo no esporão.
Mas foi por todos aclamado,
como o rei do baião.
Todos beberam bastante,
e encheram bem a pança.
Esta festa maravilhosa,
há de ficar na lembrança.
Mas eu paro por aqui,
pois vou assistir "Esperança".
Durou a fuzarca do bode,
uma semana de alegria.
Ninguém alterou no pagode,
que transcorreu na maior harmonia.
Se você acha que pode,
conte outra qualquer dia.