O ÚLTIMO COLIBRI
Vanius Meton Gadelha Vieira

Espantados, os olhinhos do menino acompanhavam o vaivém da curiosa sombra que, ritmicamente, ora tapava, ora abria uma estreita fresta, por onde entravam os primeiros raios daquele dia de verão. Ainda sonolento e cauteloso, Pedrinho dirigiu-se à janela de seu quarto, escorando o rosto no sólido caixilho de sucupira da persiana. Com a respiração entrecortada e o olhar cuidadoso, descobriu, surpreso e tomado de alegria, um cintilante colibri com sua deslumbrante plumagem. Para cá e para lá, numa imobilidade inquieta, aquele novelinho de plumas irisadas oscilava no ar, fariscando as luxuriantes fragrâncias das flores no parapeito da janela. Como se fossem mais leves que o ar, as esvoaçantes asas do beija-flor, suspendiam-no imóvel no espaço, enquanto seu longo e encurvado bico se escondia nas vistosas corolas descaídas dos velhos jarros.

Sem se incomodar com a presença do menino, a minúscula ave cuidava somente de sua desassossegada liberdade. No entanto, se o seu território fosse molestado, ela certamente se tornaria irascível e briguenta. Com esse movimento harmonioso e belo, o colibri espargia em sua volta, os reflexos daquela manhã, debuxando com cores vivas a infância do menino.
Pedrinho debruçou-se à janela, aguardando Anunciada. Não tardava sua vinda da igreja, onde diariamente ia rezar pelas almas. Ali, recolhida em um canto, ouvia piedosamente o sermão do padre a falar de Deus, da maldade do mundo e do inferno.

Pelo recorte da janela do sobrado, voltado para o poente, o menino entregou-se à vista que contemplava, como se fosse um painel pintado a mão. O dia brilhava com mais intensidade, lá em baixo, no mar. A manhã estava linda, com seus fios de sol riscando de luz e delimitando as sombras daquela paisagem. Ao fundo, ressaltava-se a tonalidade azulada do oceano, largo e pontilhado com minúsculas embarcações. O outeiro subia da praia, dando a impressão de boiar na intensidade das águas. Os telhados alaranjados das casas, desbotados pela chuva e pelo sol, cobriam as lombadas do morro. Alguns deles se escondiam entre portentosas mangueiras, castanholeiras, fícus-de-benjamins e debaixo dos flamboyants carregados com floradas vermelhas.

Bem no alto do morro, a casa de Pedrinho se alteava no beco de esquina com a principal rua do bairro. Essa ruela era quase toda sombreada por uma enorme adenantera. Voltados para o céu, os firmes galhos desta árvore protegiam o beco, como um avançado bastião, contra o agitado vento do mar. Suas potentes raízes iam se nutrir nas águas abandonadas de um cacimbão cavado no quintal daquela casa. Prendendo melhor a planta na terra, algumas dessas raízes corriam na superfície do solo, rachando as pedras da calçada que as aprisionavam. Sua imensa copa cobria-se de densos cachos amarelados. Logo mais, seria tomada por folículos marrons que, contorcidos, deixariam cair sementes duras e vermelhas, chamadas de jeriquiti pelas crianças.

Colhidas por Anunciada, essas contas eram utilizadas nos chocalhos feitos com latas roliças usadas para guardar óleo de cozinha. Entre a ramagem da árvore voejava um bando de passarinhos silvestres, trinando seus afinados pios, que serviam de chama ao sol nascente. Tarde da noite, o farfalhar de suas folhagens participava dos misteriosos ruídos da escuridão. Sussurrava um suave acalanto vindo do mar, só entrecortado pelos estridentes chirrios das rasga-mortalhas. Essas aves de assombração riscavam os céus, voando do campanário da igreja para os telhados das casas mais altas.

Debaixo do quarto de Pedrinho, escorado na parede da casa, havia um galpão desocupado que dava para os fundos do quintal. Ali, Anunciada construiu seu abrigo. Seu único canto de repouso, nas raras noites em que dormia, esta dependência era delimitada, palmo a palmo, por pilhas de caixas secas de papelão e farrapos de pano espetados em incontáveis gravetos secos.  Quando jovem, Anunciada foi cozinheira da avó do menino. Nessa época, desconhecia-se o mal que a atormentaria por toda a vida. Com o tempo, foram-se amiudando os ataques imprevisíveis e no chão, caída, tremia e roncava feio, até que uma baba espumosa lhe descia pelo canto da boca.

Não se contavam as vezes em que era transportada, ainda aturdida, para Parangaba. Mas, a danada da mulher, sempre arranjava um meio de fugir do hospital, alardeando a todos que aquilo era uma arapuca para pegar passarinhos. Somente a liberdade lhe dava alento para suportar sua desditosa vida, convencida de que tinha mais o que fazer com sua força e com a sua vontade de viver. Seu porte era mais elevado que a média das mulheres. Possuía a cor baça e uma pele áspera queimada de sol. As mamas fartas lhe caiam sobre a alta cintura. Praticamente desnudos, seus peitos eram expostos, debaixo da ordinária chita de seu vestido esvoaçante. Os cabelos crespos emolduravam um rosto anguloso, onde se avantajavam olhos grandes e vitrificados, de cor castanho-avermelhada que, por vezes espantados, amedrontavam os estranhos que a incomodavam. Um farto buço marcava seu lábio, roçando as narinas abertas. Seu riso gaiteiro rematava-se com medonhos dentes separados. As orelhas permaneciam sempre tapadas por chumaços de algodão cru, catados nos fardos dos armazéns da praia, para não escutarem as alucinações, não ouvidas por mais ninguém. Em seus longos braços e pernas expunham-se as marcas indeléveis de seus ataques, quando ela caia sobre as fogueiras que ateava, encantada pelo brilho das labaredas incandescentes, nos cantos escuros das noites mortas.

Astuciosa e envolvente, Anunciada distraia a todos com uma boa prosa, animada e contagiante. Por vezes, podia-se até duvidar que falasse a sério, que tudo fizesse parte de uma loucura ou de uma estratégia sedutora. A mulher, cuja doidice era bem tolerada no bairro, adentrava livremente pelas portas de toda a vizinhança, privando com seus moradores. Procurava ser solícita e conquistava as pessoas atendendo aos seus pedidos. Trazia mensagens e notícias de amigos que moravam na outra banda da cidade. Cuidava que as crianças atravessassem a rua com segurança, ajudando a descida daquelas mais travessas, dos altos galhos e dos muros dos quintais. Sua figura assustadora, aliada a uma afoiteza desmedida e seus horrendos berros eram capazes de afugentar qualquer malfeitor desprevenido, quando ela passava, insone, noites a fio.

Após um bom tempo de espera, Pedrinho viu Anunciada despontando na esquina do beco. Caminhava viva e alegre, toda enfeitada com retalhos de panos de várias cores. Logo mais, iniciaria sua barulhenta alvorada cotidiana, batendo nas latas velhas com baquetas improvisadas. Num ritmo bem marcado, a mulher começava batucando um baião; ao sabor de sua excitação descontrolada, acabava no compasso de um acelerado xaxado. Participava, assim, da organização dos dias do bairro, pontuando suas horas. Não raramente, alardeava conselhos, de quem conhecia os perigos da vida:
- Cuidado, minha gente, com o dia traiçoeiro!
Essa barulheira matinal acordava os moradores mais dispostos, após um sono tranqüilo, garantido por aquele cão de fila que guardava a noite.

Pedrinho trajou-se de gala para uma solenidade em seu Colégio Militar: túnica branca, ornada por ombreiras azuis, bem ajustada ao corpo pelo cinto branco, cuja fivela dourada ostentava o emblema do colégio; calça vermelha com listas laterais azuis. Desceu para o jardim, ao encontro de Anunciada, para lhe mostrar sua vistosa farda marcial. Falou-lhe sobre o beija-flor que já o tinha acordado antes que ela chegasse. Depois de elogiar a elegância do menino, a mulher, em voz baixa, segredou-lhe:
- Eu também trabalho pro pelotão do quartel: cuido das ruas de noite e, pela manhã, acordo o povo prá trabalhar. Um pouco pensativa continuou:
- Eu queria ser beija-flor. O Cão é que me faz de sabiá para pecar no mundo.
Depois de cheirar, demoradamente, um cravo branco, colocou-o no bolso do casaco do menino. Num lampejo de alegria, arremeteu, com o dedo em riste, antes de partir:
- Agora, vá estudar bem muito, para ser o meu general.

Com um ar de felicidade nos olhos, Pedrinho despediu-se da amiga. Anunciada tomou o rumo da praia, até o menino perdê-la de vista. O dia prometia horas felizes e cheias de ventura. Depois daquele toque de alvorada, Anunciada ganhava o mundo. Vendo-se solta, arruava à toa, de canto a canto, caçando em outros bairros a solicitude e o calor humano. Onde quer que ela passasse, as pessoas ficavam a escutar seus movimentos e as cantilenas monótonas e dolentes, herança indígena de um tempo distante. Em seus obcecados desvarios, percorrendo grandes distâncias com seus pés rachados, ela se imaginava uma fogosa morena do seu Cariri ou uma sabiá de canto sedutor, enfeitiçando os homens. Com o nome de Sabiá ganhara certa fama. Os rapazes gracejavam:
- Psiu, psiu, Sabiá... psiu, psiu, Sabiá.
As matronas, preocupadas, chamavam a atenção para aquela figura:
- Lá vem de novo a Sabiá! - e por precaução, mandavam as crianças para dentro de casa.
A errante seguia até Jacarecanga, para os lados dos trilhos de ferro.
Ali, pacientemente, esperava o apito do trem que supostamente traria seu noivo, o Presidente Juscelino. Neste aprazível bairro, colhia flores frescas nos jardins das sombreadas chácaras ou nas capelas do Campo Santo. À tardinha, costumava tomar banho de mar, toda nua, no Pirambu.

De vez em quando, ao esmorecer da tarde, zarpava para o Mucuripe. Dizia que ia namorar os navios. Cobria-se com um capuz feito de saco de estopa para se proteger dos ventos e dos pingos das ondas. Como se fosse um cabeço fixado no cais, para a marração das embarcações, permanecia de cócoras, imóvel, esperando ser alçada pelos navios. Silenciosamente, fixava, por longas horas, a linha que ligava o céu ao mar e pitava seu tosco cachimbo de aroeira enegrecido pelo fumo. Sentia as baforadas da brisa trazendo a maresia para suas ventas. Para cá e para lá, seu fôlego inebriado acompanhava a oscilação do marulho das vagas, que se perdiam na praia, com o fragor de uma disputa com a terra, intercalado com vazios de silêncio. Atinava para as forças convulsivas das águas profundas, puxando e levando as navegações, até sumirem nos longes do horizonte.

Lá pelas tantas, quando as primeiras estrelas apontavam, Anunciada descia para a cidade. A beleza do por do sol contrastava com sua macilenta sombra que se movia, frouxamente, rolando nas areias túmidas, molhadas pelas ondulações das águas. Procurava chamar a atenção de todos, tentando, assim, afastar sua amarga solidão. Na Rua da Ponte, notava-se um movimento intenso: um magote de moleques da pelada da praia, ainda com seus calções umedecidos, acompanhava os pescadores na volta para casa. Aqui e ali, paravam em uma bodega para um trago de pinga. Essa corriola cruzou com aquela inusitada figura, mais assemelhada a um pássaro cinzento-oliváceo, paramentada de estopa, com um graveto de capim-de-burro preso no canto da boca.
- É a Sabiá... - riam todos, entreolhando-se numa cumplicidade zombeteira. E, de pronto, começavam a gozação com gritos e assobios.
- Sabiá... ei, Sabiá... Sabiá, mostra teu ninho...teu lindo ninho, Sabiá.
Anunciada se transformava, coloria sua figura e, num fogo, tornava-se provocativa, como se estivesse no cio. Sorria, lascivamente, para os lados; rodopiava, levantando largamente, sem pudor, a saia. Expunha um monte-de-vênus, já não mais cetinoso, recoberto de pentelhos ralos que mal escondiam seu fruto da mata, ainda cabaçudo, com a porta da vida intacta. "Bicho bom para deixar feitiço", pensava ela, perdida em seus delírios eróticos.

Quando a noite descia, a popular andarilha retornava com um ramalhete de flores para Pedrinho. Antes de se recolher ia ter com o menino. Sentava-se ao seu lado e lhe contava casos estranhíssimos. Aos cochichos, exagerava e bravateava alguns de seus feitos. Quando o menino abria a boca, sonolento, rezava com ele as orações da noite; afagava, ternamente, sua cabecinha e a beijava, tranqüilizando o menino:
- Vá dormir sossegado que eu pastoro o teu sono...

Um verdadeiro tumulto se deflagrava quando o território de Anunciada, delimitado por seus preciosos cacarecos, era invadido. Dia a dia, esses bagulhos iam se acumulando, formando monturos de lixo espalhados pelo quintal da casa. Era a hora de dar um basta naquele exagero. Mandava-se chamar o Rodrigo, rapagão acostumado, no sertão, a derrubar boi pelo rabo. A hora da limpeza era acertada de véspera, lá para o fim da tarde. Podia-se ter quase certeza que nessa ocasião Anunciada estaria bem longe do bairro. Sem perda de tempo, o destemido moço varria tudo, desentulhava o galpão, despejando toda aquela catrevage no caminhão de lixo da municipalidade que esperava debaixo da grande árvore.

Como se fora advertida daquela traição por um espírito maligno, Anunciada chegava de rompante, e avançava pela rua, transformada numa besta enfurecida, incorporando uma conturbada mula-sem-cabeça. Com seu cacete de maçaranduba investia contra aqueles que se atreveram a destruir sua casa. Corria, zurrando como um bicho, ao encalço dos lixeiros. Xingava os homens, com os mais horrendos palavrões. Sempre pegos de surpresa, no exato momento daquelas investidas, os garis corriam e gritavam assustados e, mais que depressa, subiam nos estrados do caminhão que já estava engatado na primeira marcha, apressando-os nervosamente, com o barulho intermitente do acelerador. Vestidos com trajes laranja-avermelhados, de uma cor puxada para o fogo, os funcionários da limpeza curtiam aquele espetáculo endiabrado. Assobiavam e requebravam como pequenas labaredas bruxuleantes, antes de serem apagadas pela noite. Açulavam a fera-maior gritando em coro estridente:
- Xô, xô, Sabiá; xô, xô, Sabiá; Sabiá, cadê o teu ninho?

A desmiolada se exasperava ainda mais e, os lixeiros em posição defensiva, de cima do caminhão, ameaçavam chutar com suas longas botas de borracha preta, a cabeça avariada da mulher. Por sua vez, Rodrigo assumia uma atitude prepotente: de pé, de peito estufado, braços arqueados apoiados na cintura, acompanhava atentamente o desfecho do seu serviço, como se cuidasse de evitar os estragos de um estouro de boiada. Quando tudo terminava, Anunciada voltava desconjuntada e, esbaforida, olhando raivosamente para aquele boiadeiro enxerido, insultava-o com um fio de voz:
- Corno!

Rodrigo continuava sem dizer uma só palavra, impassível, senhor da situação. Com o cenho cerrado, fuzilava a mulher com um olhar enviesado de censura. No dia seguinte, para acabar com aquela pendenga, Anunciada aproximava-se, timidamente, de Rodrigo. Com os dedos em cruz sobre os lábios beijava seu taludo peito, ofertando-lhe um caprichado buquê de flores. Tudo voltava, de novo, a correr como antes, com o tempo a fluir mansamente. A criançada só falava naquela confusão em que a força vencera o medo, graças ao corajoso Rodrigo, que sempre acabava como o herói do bairro. Os habituais contestadores opinavam que a briga fora pau a pau, pois a valente Anunciada se defendera sozinha daquele golpe traiçoeiro. Mas outras proezas e parolices ainda estavam por vir. Surgiam as apostas para ver quem levaria vantagem da próxima vez; a repetição daquela baderna de rua era ansiosamente aguardada.

Com o passar dos anos, Pedrinho terminou o curso do Colégio Militar. À princípio, pensava seguir a carreira das armas; depois, optou pela profissão de seu pai. Seria médico porque era sensível ao sofrimento do mundo. Anunciada envelhecia. Seu corpo já mostrava as marcas do tempo: o rosto se engelhava, os ataques se repetiam com maior freqüência. Sua vitalidade, no entanto, ainda era apreciada pelas pessoas.. Várias vezes aparecia toda machucada, com a cabeça coberta por ataduras manchadas de sangue, envolvidas, às pressas, na emergência municipal, já que a rebelde mulher continuava fugindo de todos hospitais. Logo mais, ela se desfazia das gazes, substituindo-as por panos umedecidos em caldo de mastruz macerada por ela própria. Já não se importava com o pudor. Costumava tomar banho de cuia debaixo da goiabeira do quintal, toda despida, mostrando seus peitos murchos. Se alguém a espiava, dizia com a ponta do dedo voltada para o céu:
- Foi Deus que me fez assim, minha gente.

Às vezes, parecia já cansada de viver. Certa ocasião, fechou-se no canil e tocou fogo em um monte de gravetos. O fogaréu rebentou na casinha; o cachorro latia, desesperado, juntando uma pequena multidão em volta de seu abrigo. Arrombaram a fechadura da porta e o cão, mais que depressa, saiu correndo em disparada, derrubando Anunciada no chão. Já quase asfixiada pela fumaceira, ela foi arrastada para fora. A pobre coitada, arquejando, repetia palavras que pareciam confirmar sua total perda de juízo.
Somente Pedrinho pode entender seus lamentos:
- Deixa eu quieta, meu povo; deixa eu ir pro céu. Não quero ser Sabiá! Deus me quer prá beija-flor...

Após um disputado vestibular, Pedro ingressou na Faculdade de Medicina. Nos impiedosos trotes da calourada, quando os veteranos da escola pretendiam mostrar sua superioridade sobre os novatos, ele se lembrou de Anunciada. Trajou-se de médico, em seu uniforme branco, com seu nome num crachá verde, preso no bolso do jaleco. Bem compenetrado de seu novo papel, pediu ao pai que o fotografasse. Pedro era, sem por nem tirar, a cara do pai. Procurou Anunciada para repartir com ela sua alegria, mas não a encontrou em seu recanto escondido no galpão.

Na aula inaugural, o mestre discorreu sobre o tema da morte, um fato sempre presente no exercício da medicina.
- Cada um de nós- afirmou solenemente o professor – traz em si todas as condições da existência humana: a saúde, a doença e a inevitável morte. Esta, reside subjacente, dentro de todos nós e nos acompanha durante toda a vida, como uma realidade assustadora. Por todos os meios tentamos suprimi-la de nossa existência, por ser a principal origem do medo e da angústia da vida. No entanto, enfrentando-a com coragem e com o espírito científico nós, médicos, podemos lutar pela saúde e pela vida.

A palestra impressionou aos alunos que tornaram-se mais apreensivos com a aproximação da primeira aula de anatomia, onde ocorreria a iniciação do ensino médico, ao redor dos corpos embalsamados dos indigentes abandonados e não reclamados por familiares. Os acadêmicos iniciantes receavam esse confronto com a morte. Para minorar a tensão, como costume, apelidaram os cadáveres, no intuito de despersonalizá-los, tornando-os apenas objetos de estudo: Nicodemus, Honorata, Balbina, Jeremias e Perpétua. Resguardavam, assim, suas identidades humanas.

Pedro chegou cedo na faculdade. Vestiu sua bata branca e apanhou as luvas de borracha; pegou o bisturi, a pinça e a tesoura de dissecção.Com um grupo de colegas dirigiu-se ao anatômico. O servente do anfiteatro de anatomia, responsável pelo translado dos cadáveres, encorajou os tensos rapazes para se aproximarem de suas mesas.
- Vem conhecer a tua Perpétua – exclamou o servente para Pedrinho, apontando com o queixo para uma mesa próxima a eles.

Pedrinho, hesitante, aproximou-se do móvel. Sobre sua superfície lisa se estendia um corpo enrijecido, todo depilado e escurecido pelo formol. O rapaz engoliu em seco um soluço e prendeu as lágrimas, mordendo o lábio para dissimular sua emoção. Evitou olhar, mas não conseguiu, petrificado e mudo. Percebendo o transtorno do estudante, seus colegas alertaram o monitor de anatomia.

Pedrinho queria ficar sozinho. Desejava poder voltar a ser criança e ser acordado do pesadelo pelo vôo feliz de um brilhante colibri, pelos gorjeios que carregavam a grande árvore, pelos perfumes exalados do jardim. Precisava, de novo, ver a alegria passar. Diante dele, no entanto, encontrava-se aquela impiedosa realidade: a morte empestada pelo nauseabundo cheiro do formol, fixando aqueles olhos vazios voltados para ele.

O monitor dirigiu-se ao rapaz, colocando a mão reconfortante em seu ombro:
- Isso passa. A gente se acostuma - afirmou o professor, encorajando-o.
Voltando-se para o monitor, Pedrinho deixou cair duas longas e traiçoeiras lágrimas, externando toda a sua angústia. Da boca empapuçada da defunta saltavam quatro dentes embaçados e bem separados, como se sorrissem para o rapaz:

- Ela não é a Perpétua, professor - desabafou Pedrinho - Foi uma forte guerreira que partiu....Uma mulher que lutou muito para ser reconhecida como gente e suportar a doença que a destruía. Ela passou muita alegria para as crianças de um bairro que, agora, com sua morte, perdem parte de si mesmas. Ela era a Anunciada, a minha Anunciada e mesmo silenciada pela morte, ainda está servindo à vida...


6º Prêmio Ideal Clube de Literatura – Prêmio Moreira Campos
Gênero: Conto
Categoria: Trabalho Inédito
Pseudônimo: João da Matta

Classificação: 6º lugar

 

Página formatada em 08 nov 2003

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