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O ÚLTIMO COLIBRI Espantados, os olhinhos do menino acompanhavam o vaivém da curiosa sombra que, ritmicamente, ora tapava, ora abria uma estreita fresta, por onde entravam os primeiros raios daquele dia de verão. Ainda sonolento e cauteloso, Pedrinho dirigiu-se à janela de seu quarto, escorando o rosto no sólido caixilho de sucupira da persiana. Com a respiração entrecortada e o olhar cuidadoso, descobriu, surpreso e tomado de alegria, um cintilante colibri com sua deslumbrante plumagem. Para cá e para lá, numa imobilidade inquieta, aquele novelinho de plumas irisadas oscilava no ar, fariscando as luxuriantes fragrâncias das flores no parapeito da janela. Como se fossem mais leves que o ar, as esvoaçantes asas do beija-flor, suspendiam-no imóvel no espaço, enquanto seu longo e encurvado bico se escondia nas vistosas corolas descaídas dos velhos jarros. Sem se
incomodar com a presença do menino, a minúscula ave cuidava somente de sua
desassossegada liberdade. No entanto, se o seu território fosse molestado,
ela certamente se tornaria irascível e briguenta. Com esse movimento
harmonioso e belo, o colibri espargia em sua volta, os reflexos daquela
manhã, debuxando com cores vivas a infância do menino. Pelo recorte da janela do sobrado, voltado para o poente, o menino entregou-se à vista que contemplava, como se fosse um painel pintado a mão. O dia brilhava com mais intensidade, lá em baixo, no mar. A manhã estava linda, com seus fios de sol riscando de luz e delimitando as sombras daquela paisagem. Ao fundo, ressaltava-se a tonalidade azulada do oceano, largo e pontilhado com minúsculas embarcações. O outeiro subia da praia, dando a impressão de boiar na intensidade das águas. Os telhados alaranjados das casas, desbotados pela chuva e pelo sol, cobriam as lombadas do morro. Alguns deles se escondiam entre portentosas mangueiras, castanholeiras, fícus-de-benjamins e debaixo dos flamboyants carregados com floradas vermelhas. Bem no alto do morro, a casa de Pedrinho se alteava no beco de esquina com a principal rua do bairro. Essa ruela era quase toda sombreada por uma enorme adenantera. Voltados para o céu, os firmes galhos desta árvore protegiam o beco, como um avançado bastião, contra o agitado vento do mar. Suas potentes raízes iam se nutrir nas águas abandonadas de um cacimbão cavado no quintal daquela casa. Prendendo melhor a planta na terra, algumas dessas raízes corriam na superfície do solo, rachando as pedras da calçada que as aprisionavam. Sua imensa copa cobria-se de densos cachos amarelados. Logo mais, seria tomada por folículos marrons que, contorcidos, deixariam cair sementes duras e vermelhas, chamadas de jeriquiti pelas crianças. Colhidas por Anunciada, essas contas eram utilizadas nos chocalhos feitos com latas roliças usadas para guardar óleo de cozinha. Entre a ramagem da árvore voejava um bando de passarinhos silvestres, trinando seus afinados pios, que serviam de chama ao sol nascente. Tarde da noite, o farfalhar de suas folhagens participava dos misteriosos ruídos da escuridão. Sussurrava um suave acalanto vindo do mar, só entrecortado pelos estridentes chirrios das rasga-mortalhas. Essas aves de assombração riscavam os céus, voando do campanário da igreja para os telhados das casas mais altas. Debaixo do quarto de Pedrinho, escorado na parede da casa, havia um galpão desocupado que dava para os fundos do quintal. Ali, Anunciada construiu seu abrigo. Seu único canto de repouso, nas raras noites em que dormia, esta dependência era delimitada, palmo a palmo, por pilhas de caixas secas de papelão e farrapos de pano espetados em incontáveis gravetos secos. Quando jovem, Anunciada foi cozinheira da avó do menino. Nessa época, desconhecia-se o mal que a atormentaria por toda a vida. Com o tempo, foram-se amiudando os ataques imprevisíveis e no chão, caída, tremia e roncava feio, até que uma baba espumosa lhe descia pelo canto da boca. Não se contavam as vezes em que era transportada, ainda aturdida, para Parangaba. Mas, a danada da mulher, sempre arranjava um meio de fugir do hospital, alardeando a todos que aquilo era uma arapuca para pegar passarinhos. Somente a liberdade lhe dava alento para suportar sua desditosa vida, convencida de que tinha mais o que fazer com sua força e com a sua vontade de viver. Seu porte era mais elevado que a média das mulheres. Possuía a cor baça e uma pele áspera queimada de sol. As mamas fartas lhe caiam sobre a alta cintura. Praticamente desnudos, seus peitos eram expostos, debaixo da ordinária chita de seu vestido esvoaçante. Os cabelos crespos emolduravam um rosto anguloso, onde se avantajavam olhos grandes e vitrificados, de cor castanho-avermelhada que, por vezes espantados, amedrontavam os estranhos que a incomodavam. Um farto buço marcava seu lábio, roçando as narinas abertas. Seu riso gaiteiro rematava-se com medonhos dentes separados. As orelhas permaneciam sempre tapadas por chumaços de algodão cru, catados nos fardos dos armazéns da praia, para não escutarem as alucinações, não ouvidas por mais ninguém. Em seus longos braços e pernas expunham-se as marcas indeléveis de seus ataques, quando ela caia sobre as fogueiras que ateava, encantada pelo brilho das labaredas incandescentes, nos cantos escuros das noites mortas. Astuciosa e envolvente, Anunciada distraia a todos com uma boa prosa, animada e contagiante. Por vezes, podia-se até duvidar que falasse a sério, que tudo fizesse parte de uma loucura ou de uma estratégia sedutora. A mulher, cuja doidice era bem tolerada no bairro, adentrava livremente pelas portas de toda a vizinhança, privando com seus moradores. Procurava ser solícita e conquistava as pessoas atendendo aos seus pedidos. Trazia mensagens e notícias de amigos que moravam na outra banda da cidade. Cuidava que as crianças atravessassem a rua com segurança, ajudando a descida daquelas mais travessas, dos altos galhos e dos muros dos quintais. Sua figura assustadora, aliada a uma afoiteza desmedida e seus horrendos berros eram capazes de afugentar qualquer malfeitor desprevenido, quando ela passava, insone, noites a fio. Após um
bom tempo de espera, Pedrinho viu Anunciada despontando na esquina do
beco. Caminhava viva e alegre, toda enfeitada com retalhos de panos de
várias cores. Logo mais, iniciaria sua barulhenta alvorada cotidiana,
batendo nas latas velhas com baquetas improvisadas. Num ritmo bem marcado,
a mulher começava batucando um baião; ao sabor de sua excitação
descontrolada, acabava no compasso de um acelerado xaxado. Participava,
assim, da organização dos dias do bairro, pontuando suas horas. Não
raramente, alardeava conselhos, de quem conhecia os perigos da vida: Pedrinho
trajou-se de gala para uma solenidade em seu Colégio Militar: túnica
branca, ornada por ombreiras azuis, bem ajustada ao corpo pelo cinto
branco, cuja fivela dourada ostentava o emblema do colégio; calça vermelha
com listas laterais azuis. Desceu para o jardim, ao encontro de Anunciada,
para lhe mostrar sua vistosa farda marcial. Falou-lhe sobre o beija-flor
que já o tinha acordado antes que ela chegasse. Depois de elogiar a
elegância do menino, a mulher, em voz baixa, segredou-lhe: Com um ar
de felicidade nos olhos, Pedrinho despediu-se da amiga. Anunciada tomou o
rumo da praia, até o menino perdê-la de vista. O dia prometia horas
felizes e cheias de ventura. Depois daquele toque de alvorada, Anunciada
ganhava o mundo. Vendo-se solta, arruava à toa, de canto a canto, caçando
em outros bairros a solicitude e o calor humano. Onde quer que ela
passasse, as pessoas ficavam a escutar seus movimentos e as cantilenas
monótonas e dolentes, herança indígena de um tempo distante. Em seus
obcecados desvarios, percorrendo grandes distâncias com seus pés rachados,
ela se imaginava uma fogosa morena do seu Cariri ou uma sabiá de canto
sedutor, enfeitiçando os homens. Com o nome de Sabiá ganhara certa fama.
Os rapazes gracejavam: De vez em quando, ao esmorecer da tarde, zarpava para o Mucuripe. Dizia que ia namorar os navios. Cobria-se com um capuz feito de saco de estopa para se proteger dos ventos e dos pingos das ondas. Como se fosse um cabeço fixado no cais, para a marração das embarcações, permanecia de cócoras, imóvel, esperando ser alçada pelos navios. Silenciosamente, fixava, por longas horas, a linha que ligava o céu ao mar e pitava seu tosco cachimbo de aroeira enegrecido pelo fumo. Sentia as baforadas da brisa trazendo a maresia para suas ventas. Para cá e para lá, seu fôlego inebriado acompanhava a oscilação do marulho das vagas, que se perdiam na praia, com o fragor de uma disputa com a terra, intercalado com vazios de silêncio. Atinava para as forças convulsivas das águas profundas, puxando e levando as navegações, até sumirem nos longes do horizonte. Lá pelas
tantas, quando as primeiras estrelas apontavam, Anunciada descia para a
cidade. A beleza do por do sol contrastava com sua macilenta sombra que se
movia, frouxamente, rolando nas areias túmidas, molhadas pelas ondulações
das águas. Procurava chamar a atenção de todos, tentando, assim, afastar
sua amarga solidão. Na Rua da Ponte, notava-se um movimento intenso: um
magote de moleques da pelada da praia, ainda com seus calções umedecidos,
acompanhava os pescadores na volta para casa. Aqui e ali, paravam em uma
bodega para um trago de pinga. Essa corriola cruzou com aquela inusitada
figura, mais assemelhada a um pássaro cinzento-oliváceo, paramentada de
estopa, com um graveto de capim-de-burro preso no canto da boca. Quando a
noite descia, a popular andarilha retornava com um ramalhete de flores
para Pedrinho. Antes de se recolher ia ter com o menino. Sentava-se ao seu
lado e lhe contava casos estranhíssimos. Aos cochichos, exagerava e
bravateava alguns de seus feitos. Quando o menino abria a boca, sonolento,
rezava com ele as orações da noite; afagava, ternamente, sua cabecinha e a
beijava, tranqüilizando o menino: Um verdadeiro tumulto se deflagrava quando o território de Anunciada, delimitado por seus preciosos cacarecos, era invadido. Dia a dia, esses bagulhos iam se acumulando, formando monturos de lixo espalhados pelo quintal da casa. Era a hora de dar um basta naquele exagero. Mandava-se chamar o Rodrigo, rapagão acostumado, no sertão, a derrubar boi pelo rabo. A hora da limpeza era acertada de véspera, lá para o fim da tarde. Podia-se ter quase certeza que nessa ocasião Anunciada estaria bem longe do bairro. Sem perda de tempo, o destemido moço varria tudo, desentulhava o galpão, despejando toda aquela catrevage no caminhão de lixo da municipalidade que esperava debaixo da grande árvore. Como se
fora advertida daquela traição por um espírito maligno, Anunciada chegava
de rompante, e avançava pela rua, transformada numa besta enfurecida,
incorporando uma conturbada mula-sem-cabeça. Com seu cacete de maçaranduba
investia contra aqueles que se atreveram a destruir sua casa. Corria,
zurrando como um bicho, ao encalço dos lixeiros. Xingava os homens, com os
mais horrendos palavrões. Sempre pegos de surpresa, no exato momento
daquelas investidas, os garis corriam e gritavam assustados e, mais que
depressa, subiam nos estrados do caminhão que já estava engatado na
primeira marcha, apressando-os nervosamente, com o barulho intermitente do
acelerador. Vestidos com trajes laranja-avermelhados, de uma cor puxada
para o fogo, os funcionários da limpeza curtiam aquele espetáculo
endiabrado. Assobiavam e requebravam como pequenas labaredas bruxuleantes,
antes de serem apagadas pela noite. Açulavam a fera-maior gritando em coro
estridente: A
desmiolada se exasperava ainda mais e, os lixeiros em posição defensiva,
de cima do caminhão, ameaçavam chutar com suas longas botas de borracha
preta, a cabeça avariada da mulher. Por sua vez, Rodrigo assumia uma
atitude prepotente: de pé, de peito estufado, braços arqueados apoiados na
cintura, acompanhava atentamente o desfecho do seu serviço, como se
cuidasse de evitar os estragos de um estouro de boiada. Quando tudo
terminava, Anunciada voltava desconjuntada e, esbaforida, olhando
raivosamente para aquele boiadeiro enxerido, insultava-o com um fio de
voz: Rodrigo continuava sem dizer uma só palavra, impassível, senhor da situação. Com o cenho cerrado, fuzilava a mulher com um olhar enviesado de censura. No dia seguinte, para acabar com aquela pendenga, Anunciada aproximava-se, timidamente, de Rodrigo. Com os dedos em cruz sobre os lábios beijava seu taludo peito, ofertando-lhe um caprichado buquê de flores. Tudo voltava, de novo, a correr como antes, com o tempo a fluir mansamente. A criançada só falava naquela confusão em que a força vencera o medo, graças ao corajoso Rodrigo, que sempre acabava como o herói do bairro. Os habituais contestadores opinavam que a briga fora pau a pau, pois a valente Anunciada se defendera sozinha daquele golpe traiçoeiro. Mas outras proezas e parolices ainda estavam por vir. Surgiam as apostas para ver quem levaria vantagem da próxima vez; a repetição daquela baderna de rua era ansiosamente aguardada. Com o
passar dos anos, Pedrinho terminou o curso do Colégio Militar. À
princípio, pensava seguir a carreira das armas; depois, optou pela
profissão de seu pai. Seria médico porque era sensível ao sofrimento do
mundo. Anunciada envelhecia. Seu corpo já mostrava as marcas do tempo: o
rosto se engelhava, os ataques se repetiam com maior freqüência. Sua
vitalidade, no entanto, ainda era apreciada pelas pessoas.. Várias vezes
aparecia toda machucada, com a cabeça coberta por ataduras manchadas de
sangue, envolvidas, às pressas, na emergência municipal, já que a rebelde
mulher continuava fugindo de todos hospitais. Logo mais, ela se desfazia
das gazes, substituindo-as por panos umedecidos em caldo de mastruz
macerada por ela própria. Já não se importava com o pudor. Costumava tomar
banho de cuia debaixo da goiabeira do quintal, toda despida, mostrando
seus peitos murchos. Se alguém a espiava, dizia com a ponta do dedo
voltada para o céu: Às vezes,
parecia já cansada de viver. Certa ocasião, fechou-se no canil e tocou
fogo em um monte de gravetos. O fogaréu rebentou na casinha; o cachorro
latia, desesperado, juntando uma pequena multidão em volta de seu abrigo.
Arrombaram a fechadura da porta e o cão, mais que depressa, saiu correndo
em disparada, derrubando Anunciada no chão. Já quase asfixiada pela
fumaceira, ela foi arrastada para fora. A pobre coitada, arquejando,
repetia palavras que pareciam confirmar sua total perda de
juízo. Após um disputado vestibular, Pedro ingressou na Faculdade de Medicina. Nos impiedosos trotes da calourada, quando os veteranos da escola pretendiam mostrar sua superioridade sobre os novatos, ele se lembrou de Anunciada. Trajou-se de médico, em seu uniforme branco, com seu nome num crachá verde, preso no bolso do jaleco. Bem compenetrado de seu novo papel, pediu ao pai que o fotografasse. Pedro era, sem por nem tirar, a cara do pai. Procurou Anunciada para repartir com ela sua alegria, mas não a encontrou em seu recanto escondido no galpão. Na aula
inaugural, o mestre discorreu sobre o tema da morte, um fato sempre
presente no exercício da medicina. A palestra impressionou aos alunos que tornaram-se mais apreensivos com a aproximação da primeira aula de anatomia, onde ocorreria a iniciação do ensino médico, ao redor dos corpos embalsamados dos indigentes abandonados e não reclamados por familiares. Os acadêmicos iniciantes receavam esse confronto com a morte. Para minorar a tensão, como costume, apelidaram os cadáveres, no intuito de despersonalizá-los, tornando-os apenas objetos de estudo: Nicodemus, Honorata, Balbina, Jeremias e Perpétua. Resguardavam, assim, suas identidades humanas. Pedro
chegou cedo na faculdade. Vestiu sua bata branca e apanhou as luvas de
borracha; pegou o bisturi, a pinça e a tesoura de dissecção.Com um grupo
de colegas dirigiu-se ao anatômico. O servente do anfiteatro de anatomia,
responsável pelo translado dos cadáveres, encorajou os tensos rapazes para
se aproximarem de suas mesas. Pedrinho, hesitante, aproximou-se do móvel. Sobre sua superfície lisa se estendia um corpo enrijecido, todo depilado e escurecido pelo formol. O rapaz engoliu em seco um soluço e prendeu as lágrimas, mordendo o lábio para dissimular sua emoção. Evitou olhar, mas não conseguiu, petrificado e mudo. Percebendo o transtorno do estudante, seus colegas alertaram o monitor de anatomia. Pedrinho queria ficar sozinho. Desejava poder voltar a ser criança e ser acordado do pesadelo pelo vôo feliz de um brilhante colibri, pelos gorjeios que carregavam a grande árvore, pelos perfumes exalados do jardim. Precisava, de novo, ver a alegria passar. Diante dele, no entanto, encontrava-se aquela impiedosa realidade: a morte empestada pelo nauseabundo cheiro do formol, fixando aqueles olhos vazios voltados para ele. O monitor dirigiu-se ao rapaz, colocando a mão
reconfortante em seu ombro: - Ela não
é a Perpétua, professor - desabafou Pedrinho - Foi uma forte guerreira que
partiu....Uma mulher que lutou muito para ser reconhecida como gente e
suportar a doença que a destruía. Ela passou muita alegria para as
crianças de um bairro que, agora, com sua morte, perdem parte de si
mesmas. Ela era a Anunciada, a minha Anunciada e mesmo silenciada pela
morte, ainda está servindo à vida...
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em 08 nov 2003
