MEUS SONETOS PREDILETOS

 

 

 

OS CISNES

A vida, manso lago azul, algumas
vezes; algumas vezes mar fremente,
tem sido para nós, constantemente,
um lago azul sem ondas, sem espumas.

Sobre ele, quando desfazendo as brumas
matinais, rompe um sol vermelho e quente,
nós dois vagamos, indolentemente,
como dois cisnes de alvacentas plumas.

Um dia, um cisne morrerá por certo.
Quando chegar este momento incerto
- no lago onde talvez a água se tisne -

que o cisne vivo cheio de saudade,
nunca mais cante, nem sozinho nade,
nem nade nunca ao lado de outro cisne!...

Júlio Salusse

 

AS POMBAS...

Vai-se a primeira pomba despertada ...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
de pombas vão-se dos pombais, apenas
raia sanguínea e fresca a madrugada...

E à tarde, quando a rígida nortada
sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
ruflando as asas, sacudindo as penas,
voltam todas em bando e em revoada...

Também dos corações onde abotoam,
os sonhos, um por um, céleres voam,
como voam as pombas dos pombais.

No azul da adolescência as asas soltam,
fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
e eles aos corações não voltam mais...

Raimundo Correia
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CÍRCULO VICIOSO

Bailando no ar, gemia inquieto vagalume:
"Quem me dera que eu fosse aquela loira estrela
que arde no eterno azul, como uma eterna vela!"
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

"Pudesse eu copiar-te o transparente lume,
que, da grega coluna à gótica janela,
contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela."
Mas a lua, fitando o sol com azedume:

"Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela
claridade imortal, que toda a luz resume"!
Mas o sol, inclinando a rútila capela:

"Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta luz e desmedida umbela...
Por que não nasci eu um simples vagalume?...

Machado de Assis

 

BARCOS DE PAPEL

Quando a chuva cessava, e um vento fino
franzia a tarde tímida e lavada,
eu saia a brincar pela calçada,
nos meus tempos felizes de menino.

Fazia de papel, toda uma armada
e, estendendo meu braço pequenino,
eu soltava os barquinhos, sem destino,
ao longo das sarjetas, na enxurrada...

Fiquei moço e hoje sei, pensando neles,
que não são barcos de ouro os meus ideais:
são feitos de papel, são como aqueles...

Perfeitamente, exatamente iguais... 
- Que os meus barquinhos, lá se foram eles!
Foram-se embora e não voltaram mais!...

Guilherme de Almeida

 

AMARGURA

Só podes me ofertar o silêncio e a amargura.
Meu pobre amor de ti só espera a indiferença...
Perdoa o meu amor... Perdoa-me a loucura,
pois quem tem como eu tenho um coração não pensa...

Há muito pela vida eu seguia à procura
de alguém que viesse encher de luz minha descrença...
Foi então que te vi... e julguei que a ventura
pudesse ainda encontrar nesta jornada imensa...

E foi assim que um dia eu fui sentimental...
Acreditei no amor... E, talvez por castigo,
fizeste-me sofrer - mas não te quero mal...

Quem amou fui eu só... Eu nunca fui amado!...
Mereço a minha dor e este sofrer bendigo,
na amargura cruel de me julgar culpado!...

J. G. de Araújo Jorge

 

DOIS CAMINHOS

Eu queria te dar minha emoção mais pura...
Associar-te ao meu sonho e dividir contigo,
migalha por migalha, o pouco de ventura
que pudesse colher no caminho onde sigo...

E esse estranho desejo em que se desfigura
a palavra de amor e pureza que eu digo...
E queria te dar essa minha ternura
que, às vezes, por trair-se ao teu olhar, maldigo...

Bem que eu quis te ofertar meu destino, meu sonho,
minha vida, e até mesmo esta efêmera glória
que esperdiço a cantar nos versos que componho...

Nada quiseste... E assim, os sonhos que viviam,
se ontem, puderam ser um começo de história,
hoje, são dois caminhos que se distanciam...

J. G de Araújo Jorge

 

A CAROLINA

Querida, ao pé do leito derradeiro
em que descansas dessa longa vida,
aqui venho e virei, pobre querida,
trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
que, a despeito de toda a humana lida,
fez a nossa existência apetecida
e num recanto pôs o mundo inteiro.

Trago-te flores, restos arrancados
da terra que nos viu passar unidos
e, ora mortos, nos deixa separados...

Que eu, se tenho nos olhos mal feridos,
pensamentos de vida formulados,
são pensamentos idos e vividos...

Machado de Assis

 

SUAVE CAMINHO

Assim, ambos assim, no mesmo passo,
iremos percorrendo a mesma estrada.
Tu no meu braço trêmulo, amparada,
e eu, amparado no teu lindo braço.

Ligados nesse arrimo, embora escasso,
venceremos as urzes da jornada...
Tu te sentirás menos cansada,
e eu, menos sentirei o meu cansaço.

E assim, ligados pelos bens supremos
que para mim o teu carinho trouxe,
placidamente pela vida iremos.

Calcando mágoas, afastando espinhos,
como se a escarpa desta vida fosse
o mais suave de todos os caminhos.

Mário Pederneiras

 

ESSA QUE EU HEI DE AMAR

"Essa que eu hei de amar perdidamente um dia,
será tão loura, e clara, e vagarosa, e bela,
que eu pensarei que é o sol que vem, pela janela,
trazer luz e calor a essa alma escura e fria.

E quando ela passar, tudo o que eu não sentia
da vida, há de acordar no coração, que vela…
E ela irá como o sol, e eu irei atrás dela
como sombra feliz…" Tudo isso eu me dizia,

quando alguém me chamou. Olhei: um vulto louro,
e claro, e vagaroso, e belo, na luz de ouro
do poente me dizia adeus, como um sol triste…

E falou-me de longe: "Eu passei a teu lado,
mas ias tão perdido em teu sonho dourado,
meu pobre sonhador, que nem sequer me viste!"

Guilherme de Almeida

 

SER MÃE

Ser mãe é desdobrar fibra por fibra
o coração! Ser mãe é ter no alheio
lábio que suga, o pedestal do seio,
onde a vida, onde o amor, cantando, vibra.

Ser mãe é ser um anjo que se libra
sobre um berço dormindo! É ser anseio,
é ser temeridade, é ser receio,
é ser força que os males equilibra!

Todo o bem que a mãe goza é bem do filho,
espelho em que se mira afortunada,
luz que lhe põe nos olhos novo brilho!

Ser mãe é andar chorando num sorriso!
Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!
Ser mãe é padecer num paraíso!

Coelho Neto

Meus Sonetos  Prediletos

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