MARIINHA MOTA






No mesmo abrigo do galho
onde a abelha tira o mel,
a víbora, em seu trabalho
fabrica peçonha e fel.

É no abrigo dos teus braços
que eu encontro, compassiva,
na febre dos meus cansaços,
uma fonte de água-viva.

Enche os teus dias no mundo
na construção do dever...
Há sempre um tormento fundo
no instante do entardecer...

Em nossa rota perdida
no mundo que só reclama,
recordemos que, na vida,
mil flores nascem na lama.

De partilhar com irmãos
tua alma simples e boa,
semeias entre cristãos
a fé que salva e Perdoa.

Como a hera sobre o muro,
teimosa a agarrar-se, então,
é a saudade, nó escuro,
atado em meu coração.

Esse amor ao nosso lado
é a canção que a vida tece,
é o lindo empíreo estrelado,
é a leira farta da messe.

Distante do coração
há perenes primaveras
refulgentes na amplidão,
pelos édens sem quimeras. 

Se o próximo faz-se mudo,
não guardes mágoa ou receio,
pois o pouco é quase tudo
quando o amor está no meio.

Ao acordar, de manhã,
sinto-me leve, feliz,
pois lembro que sou irmã
de São Francisco de Assis.

Como é bom sentir o vento,
ver árvores generosas,
ver astros no firmamento,
ouvir canções, ver as rosas!

Meu amigo, pára e pensa
nestes dons que Deus te empresta:
a visão, o sonho, a crença,
toda a natureza em festa!

Lindos pomos tentadores
da macieira que domina;
antes de ser seiva e cores
foi semente pequenina!

Há tanta gente vibrando
para que a vida me vença
que, às vezes, fico pensando:
Ah! se não fosse esta crença...

Está você, noite e dia,
dia e noite em meu sonhar;
sonhar que é a minha alegria
e também é o meu penar.

Os crimes que mais me aterram
não são os de morte, não,
mas aqueles que soterram
toda a paz do coração.

Quando ajudarmos alguém,
não devemos vacilar,
pois todos sabem que o bem
protege sem perguntar.

Terá sempre triste sina
quem cultiva a displicência.
Considero a disciplina
toda a alma da eficiência.

Desprezo sem condição
pelo cultivo da terra,
constitui malversação
dos bens que Deus nos descerra.

O respeito à Criação
constitui simples dever;
os abates, queimas, são
atraso moral do ser.

A conversa que incrimina,
palavras de pouca monta,
são verbos sem disciplina 
que geram males sem conta. 

Recebe de alma serena
todo golpe que te doa;
opõe, à voz que condena,
a tua paz serena e boa!

Agradeço, a alma em prece:
o lar, a saúde, o pão,
a Inspiração que me aquece,
cantando de gratidão!

Acende a luz da bondade
nas lutas do dia-a-dia;
ninguém sabe se em verdade
mendigarás simpatia.

Mesmo a rosa mais bonita,
de todas que a gente vê,
mesmo a bondade infinita,
nada se iguala a você!

As trovas, como são belas
como prendas de ouro e luz!
E, por serem tão singelas,
lembram o Verbo de JESUS!

Meu amor, quantas riquezas
eu guardo em meu coração!
Mas entre estas mil grandezas
você é o melhor quinhão!

Enquanto eu tiver certeza
de que me amas com emoção,
viverei sem ter tristeza,
cantando de gratidão!

Cheio de aurora, ofuscante,
o meu coração o vê.
Não sei quem é mais brilhante,
se é o Sol ou se é você.

Se você soubesse, amor,
que eu vivo do seu sorriso,
veria que em cada flor
há um pouco de Paraíso.

No Ideal que é o nosso escudo
buscamos, na vida afora,
uma síntese de tudo
na perfeição que em Deus mora.

Nós semeamos e colhemos
na vida - solo de luz;
ajudando saberemos
que a bondade reproduz.

Sei que o amor não é paixão
nem o nomeio por tal,
ele é celeste atração,
prescinde do amor carnal.

O Cristão não pode odiar
a quem lhe faz mal profundo,
o seu lema é: "Crer e Amar",
servindo a Cristo no mundo.

Dos mil ódios inquietantes
que a vida me trouxe, um dia,
eu extraio, desafiantes,
esperanças e alegrias.

Serenidade não é
jardim de dias dourados;
é suprimento de fé
para os dias perturbados.

A natureza é santuário
no qual se torna visível
de Deus o itinerário
mostrando sapiência incrível.

Nenhum mal me faz ferida
no sofrer de cada dia.
Já recebi, desta vida,
minha carta de alforria.

"Vida Afora"
Mariinha Mota

 

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