FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

 




Carmen Miranda

Boa Vizinhança



Orson Welles no Ceará, dentro de uma jangada.
Arquivo Vanius Meton Gadelha Vieira

No esforço de conquista de alianças para a guerra, os Estados Unidos intensificaram sua política de "boa vizinhança". Seus fundamentos eram o intercâmbio econômico, político e cultural entre os Estados Unidos e seus vizinhos latino-americanos, a defesa da autodeterminação dos povos e a constituição de uma política conjunta entre os países do continente. Na verdade, essa política é anterior à guerra. Até o final da década de 20, a política norte-americana para seus vizinhos ao sul consistia no "Big Stich" ("grande porrete"). Em poucas palavras, significava o uso da intervenção armada como ultima ratio para a resolução de problemas. A nova postura diplomática visava pôr fim às intervenções armadas explícitas, através do estímulo ao intercâmbio econômico e da constituição de política hemisférica comum às Américas. Com a iminência da guerra, o Departamento de Estado norte-americano se preocupava com as alianças políticas no continente. Nas conferências de chanceleres de Lima (1938), Panamá (1939) e Havana (1940), a participação norte-americana teve o objetivo de ampliar o pacto de segurança continental e garantir uma "neutralidade" favorável aos seus objetivos estratégicos. Essa política de alianças, baseada na "boa vizinhança", deveria ir além de seus aspectos diplomáticos e econômicos. Deveria abranger também o campo cultural, em sentido amplo. Assim, os principais objetivos da política externa norte-americana para com seus "bons vizinhos" continentais não se limitariam a garantir uma liderança política sem contestações nas Américas, ampliar a integração econômica em favor dos Estados Unidos, diminuir o espaço das relações comerciais com outros países europeus e suprimir as influências do Eixo no continente, mas também incluía a disseminação do American Way of Life, através da divulgação dos valores culturais e ideológicos do capitalismo liberal norte-americano. À medida que a sombra da guerra se espalhava pela Europa e atingia o Norte da África, e o Eixo conquistava cada vez mais simpatizantes na América do Sul, os esforços norte-americanos para garantir o apoio latino-americano às suas políticas iam sendo ampliados. Em agosto de 1940, foi criado o Office for Coordination of Commercial and Cultural Relations Between the American Republics, mais tarde rebatizado de Office of the Coordinator of Inter-American Affairs. Informalmente, ficou conhecido como "Birô lnteramericano" ou simplesmente "Birô", e tinha sede no Rio de Janeiro. Suas funções eram promover medidas para estimular a recuperação das economias da América Latina e produzir programas de educação, cultura e propaganda que disseminassem os valores norte-americanos de maneira a garantir não apenas a proeminência política, econômica e militar dos Estados Unidos, mas também a cultural. O "Birô" era apoiado por grandes empresas privadas norte-americanas e não economizou recursos nem esforços. Das medidas de "boa vizinhança" empreendidas, as mais visíveis foram aquelas de caráter cultural. Hollywood "descobriu" a América Latina e vários filmes foram feitos utilizando suas temáticas, cenários e atores. No Brasil, a presença de Carmen Miranda em películas de Hollywood, a criação do personagem "Zé Carioca", por Walt Disney, e a produção nunca acabada de um filme do cineasta Orson Welles tornaram-se as "contribuições" mais notórias. No ritmo do esforço de guerra, procedeu-se a uma crescente monopolização norte-americana das agências de notícias e meios de radiodifusão. Intercâmbios culturais e científicos e implantação de programas de educação e saneamento básico nas localidades carentes complementavam a "aliança" e proporcionavam-lhe um caráter mais humanitário. Contudo, por mais que se apresentasse como uma via de mão dupla, na verdade a política de "boa vizinhança" consistiu na disseminação unilateral de valores e produtos de consumo norte-americanos. O intercâmbio ressaltava mais ainda a distância entre o desenvolvido vizinho do norte e os exóticos países do sul. A essência de todos os programas de intercâmbio era clara: os norte-americanos eram aqueles que ensinariam os irmãos latinos a crescerem e se desenvolverem como nações, em todos os sentidos: politicamente, com a difusão dos ideais democráticos em países com tradições ditatoriais; economicamente, com o melhor aproveitamento dos abundantes recursos naturais e humanos do continente, sem os entraves dos nacionalismos estéreis e dos excessos de intervenções estatais, contrárias ao progresso do livre comércio e da livre iniciativa; socialmente, com as lições de como melhorar a educação, os padrões de higiene e saúde e como desfrutar um padrão de vida melhor. O American Way of Life encontrava, ao sul do Rio Grande, alunos atentos e aplicados. Enquanto isso, a contrapartida latino-americana, e do Brasil em particular, era enviar seus recursos materiais estratégicos e oferecer suas culturas nacionais "exóticas" para o entretenimento fugaz das massas consumidoras norte-americanas. A curta duração desse intercâmbio mostra quão pragmática, para os Estados Unidos, foi essa aproximação. Quando a guerra acabou, a presença da cultura latino-americana nos Estados Unidos praticamente desapareceu e os estereótipos pouco edificantes voltaram a preencher as telas do cinema, as páginas de jornais, revistas e livros e a própria política externa do país. Fora da área econômica, política e estratégica, as principais conseqüências, para o Brasil, dessa política de "boa vizinhança", foram, por um lado, a consolidação do imperialismo cultural, principalmente com a difusão dos produtos da indústria de entretenimento e, por outro, a instituição definitiva do norte-americanismo como paradigma cultural, em substituição ao paradigma europeu (principalmente o modelo francês, até então padrão de "civilidade" cultural das elites urbanas do país).

"Os Brasileiros e a Segunda Guerra Mundial"
Francisco César Ferraz




O primitivo Jangada Clube
Arquivo Vanius Meton Gadelha Vieira

 

Em 10/09/1941, um grupo de quatro pescadores cearenses empreendeu um “raid” de jangada, de Fortaleza ao Rio de Janeiro. Manoel Olímpio Meira, o Jacaré, presidente da colônia de pescadores; Manoel Pereira da Silva, o Manoel Preto; Jerônimo André de Souza e Raimundo Correia Lima, o Tatá, pretendiam, com esse feito, levar “uma mensagem de apelo ao Sr. Getúlio Vargas” alertando o presidente da República para as precárias condições de vida dos jangadeiros. Em 16/11/1941, a “Gazeta de Notícias”, no título “Apoteótica Recepção no Rio”, ressaltou o bom êxito da missão dos quatro jangadeiros. Jacaré, ao saber que voltaria ao Ceará, de avião, respondeu, com o humor de homem simples: “Vim feito peixe e vou voltar que nem urubu...” Essa façanha dos bravos cearenses, publicada na revista “Time”, no final de 1941, chamou a atenção do artista cinematográfico norte-americano, Orson Welles, que incluiria o episódio em seu filme “It’s All True”, uma trilogia baseada em histórias verdadeiras, rodado no Brasil. A história daquela heróica travessia de 1941, quando numa frágil embarcação, foram percorridos 2 500 quilômetros da costa brasileira, seria, em parte, rodada no Ceará. Para atores deste tema do filme, foram contratados os próprios jangadeiros.  Orson Welles (1915-1985) atingiu celebridade mundial com seu noticiário radiofônico de 30/10/1938, quando provocou pânico em milhares de ouvintes desavisados. Baseado na “Guerra dos Mundos” de H. G. Wells, Orson Welles transformou em crônica jornalística um hipotético ataque marciano à cidade de New Jersey. Em 1940, este gênio versátil escreveu, dirigiu, produziu e atuou em “Cidadão Kane” - sua obra prima -, uma biografia disfarçada do poderoso magnata da imprensa norte-americana William Randolph Hearst, um filme tido, por muitos, como o melhor de todos os tempos, tendo estreado nos Estados Unidos, em 1941. No Brasil, onde permaneceu cerca de seis meses, Orson Welles iniciou a filmagem de “It’s All True”, (Tudo é Verdade), encomendado pelos estúdios da RKO. O filme fazia parte da política de “Boa Vizinhança”, desenvolvida pelo governo de Franklin Roosevelt e coordenada por Nelson Rockfeller, então chefe do escritório latino-americano do Departamento de Estado e sócio da produtora cinematográfica RKO. Preocupados com a indecisão ideológica dos países latino-americanos, diante da guerra, o governo norte-americano - que ingressara no conflito em dezembro de 1941 -, empenhou-se na conquista de uma identidade comum, tentando, através de uma boa relação com sua vizinhança, conduzi-la à adesão da causa dos Estados Unidos e Países Aliados, na Segunda Guerra Mundial. Para isso, urgia a necessidade de um estreitamento cultural entre os Estados Unidos e esses países. Desse projeto participou, também, Walter Disney, com sua criação imortal, o maroto papagaio “Zé Carioca”, personagem inspirado no malandro do Rio de Janeiro, apresentado no filme “Você já foi a Bahia?”, ao lado do Pato Donald, típico representante norte - americano e do galo mexicano. Em 13/02/1942, Orson Welles aterrissava no Rio de Janeiro para rodar “It’s All True”. No Rio, Orson Welles filmou cenas do carnaval carioca, com Grande Otelo e lançando Anselmo Duarte, que iniciou sua carreira de astro como figurante neste filme. Para inteirar–se melhor sobre o terceiro tema de seu filme, a heróica travessia dos jangadeiros cearenses, Orson Welles fez sua primeira viagem à Fortaleza, visitando a terra e conhecendo os costumes de seus protagonistas. A filmagem desse terceiro episódio, iniciou-se em maio e Orson Welles intitulou-o de “Four Men On a Raft” (Quatro Homens numa Jangada). Por ocasião das filmagens na Barra da Tijuca, Jacaré, um dos atores e personagens do filme, perdeu a vida acidentalmente, no primeiro dia de filmagem, quando se reconstituía a chegada dos jangadeiros no Rio de Janeiro.  O jornal “O Estado” de 20/05/1942, consternado, noticiou: 

“Jacaré morreu afogado na Barra da Tijuca.
(...) Manuel Olímpio Meira, nome de batismo de Jacaré, contava 45 anos, era cearense, tendo nascido, nesta cidade, no ano de 1895. (...) Com pouco mais de 25 anos contraiu núpcias com d. Josefina de Castro da qual teve 9 filhos. Em 10/09/1941, empreendeu um raid de jangada ao Rio de Janeiro com mais três companheiros: Jerônimo, Tatá e Manuel Preto. Saiu de Fortaleza nesta data, chegando ao Rio em 15/11. Regressou dias após, a Fortaleza, onde permaneceu até janeiro de 42. Contratado por Orson Welles, partiu de Fortaleza em 16/01/1942 (...) Ontem pela manhã (...) a embarcação virou completamente ficando de lastro para cima (...)” 

O filme “It’s All True” ficou inacabado. Pressionado pela RKO, Orson Welles recebeu ordem de regressar, o quanto antes, aos Estados Unidos. Desobedecendo essa orientação, Welles propôs-se a terminar o episódio dos Jangadeiros. Regressou à Fortaleza e prolongou as filmagens até julho daquele ano. Reconstruindo o trajeto dos jangadeiros, filmou também em Recife e na Bahia, regressando aos Estados Unidos somente em agosto. Vários fatores contribuíram para a interrupção desta obra memorável. Entre esses, o rumo da mensagem que ele passaria, diferente daquela orientação da política da “Boa Vizinhança”, que desejava enfatizar uma visão paradisíaca do Brasil. O que deveria ser um documento turístico, com a imagem de um Brasil exótico e alegre, transmitido no exterior pela notável Carmen Miranda e pelos desenhos animados do Zé Carioca, havia-se transformado num libelo social, mostrando o lado real do Brasil, pela câmara de Orson Welles. A direção da RKO despediu Welles e desfez-se de sua produção, reforçando, dessa maneira, toda a lenda criada em torno do filme deste realizador genial. Em 1985, apareceram 314 latas com o material de “It’s All True”, apresentado ao público, em um filme denominado “Isto é Brasil.” A “Gazeta de Notícias”, de 10/06/1942, registrou:

“Fortaleza hospedará mais uma vez, o grande cinematografista americano Orson Welles da R.K.O. Radio que se encontra há vários meses no Brasil filmando o sensacional ‘raid’ dos jangadeiros cearenses. A reportagem da Gazeta esteve com o sr. Fernando Pinto, presidente do Jangada Club, o qual nos declarou, que o famoso ‘Cidadão Kane’ é esperado em nossa capital na próxima semana no dia 17 do corrente. O produtor ianque que desfruta nos U.S.A. de um cartaz consagrado vem a Fortaleza concluir a filmagem da película focalizando a vida aventurosa dos homens do mar. Orson Welles, chegado a Terra da Luz, ficará hospedado em uma casa na praia do Mucuripe. Na enseada onde o governo constrói o futuro porto de Fortaleza, Orson Welles filmará as últimas cenas da produção cinematográfica que está preparando sobre o ‘raid’ do saudoso Jacaré e seus companheiros da jangada São Pedro. O Sr. Fernando Pinto que tem sido um protetor dos marítimos e pescadores das praias cearenses, segundo declarou ontem à nossa reportagem, reunirá sábado próximo, a diretoria do Jangada Club, a fim de traçar o programa em homenagem a Orson Welles.” 

Apresentado a Fernando Pinto por Assis Chateaubriand, Orson Welles hospedou–se, em Fortaleza, cerca de vinte dias, no Jangada Club. Na noite de sua chegada, este clube lhe ofereceu um jantar com a participação da sociedade cearense. O cineasta foi, também, recepcionado no Ideal Club, com “uma reunião chic”, segundo os jornais da época. José Collares Cintra, gerente do Cassino do Ideal, “numa deferência especial, pôs, à disposição de Orson Welles, uma encantadora casa residencial na Praia do Mucuripe, onde todas as manhãs o famoso cinematografista americano filma novos detalhes da fauna dos jangadeiros pescando no mar.” Em 18/06/1942, a “Gazeta de Notícias” focalizou a procissão de Jangadas que se faria em homenagem a São Pedro, sendo filmada por Orson Welles, tentando fixar todos os elementos folclóricos e religiosos do ato. 

Segundo informou à nossa reportagem o Sr. Fernando Pinto, presidente do Jangada Club, a procissão de jangadas, partirá do Mucuripe, num trajeto marítimo que terá como ponto final a Praia de Iracema. O Sr. Fernando Pinto acentuou em suas declarações à reportagem, que a Procissão de São Pedro, padroeiro dos nossos jangadeiros, este ano contará com a participação de mais de cem jangadas. É pensamento de Orson Welles, finalizou o presidente do Jangada Club, filmar todos os atos litúrgicos da procissão, enquadrando-os numa produção de pequena metragem.” 

Incalculável multidão assistiu a essa procissão, encerrada com uma missa na Igrejinha de São Pedro. O Jangada Club promoveu todas as festividades dessa comemoração a São Pedro. A sua frente, registrado em fotografias estava seu patrocinador, Fernando de Alencar Pinto.

Vanius Meton Gadelha Vieira
"Ideal Clube - História de uma Sociedade"



BATALHA DO ATLÂNTICO

Antes mesmo de iniciar-se o conflito europeu, os Estados Unidos preocupavam-se com a situação do oceano Atlântico, e com a posição estratégica que o Brasil apresentava pela sua costa marítima e também pelo saliente do Nordeste, importante acidente geográfico que avança pelo mar em direção ao continente africano. Foram tomadas medidas diplomáticas, como a visita do General George C. Marshall, então vice-chefe do Estado-Maior do Exército americano, e iniciou-se a troca de informações militares. Os americanos procuravam neutralizar a influência da Alemanha junto a alguns chefes militares brasileiros, que manifestavam admiração e entusiasmo pelo ressurgimento da Wehrmacht depois de Versalhes, e pelo uso das forças blindadas. Em meados de 1941, já em plena guerra européia, os planejadores militares dos Estados Unidos convenceram-se de que a Alemanha e seus aliados só poderiam conseguir a vitória com o domínio dos mares, particularmente do Atlântico. Em conseqüência dessa conclusão, o Presidente Roosevelt determinou a transferência de parte da esquadra do Pacífico para o Atlântico, via canal do Panamá, e essa decisão estratégica, tomada no dia 22 de maio de 1941, foi comunicada ao Embaixador Caffery, que a transmitiu imediatamente ao Chanceler brasileiro Oswaldo Aranha, grande aliado dos antinazistas no Brasil. Os ingleses impuseram o bloqueio marítimo contra a Alemanha, iniciativa que iria trazer vários problemas ao Brasil, criando incidentes diplomáticos com a Inglaterra. O mais sério foi, sem dúvida, a captura do navio brasileiro Siqueira Campos. Antes da guerra, o Brasil havia comprado, da firma alemã Krupp, canhões antiaéreos e outros equipamentos militares, e a transação foi liquidada antes do início das hostilidades. Ao embarcar aquele equipamento após a declaração de guerra, e, conseqüentemente, a instauração do bloqueio naval pela Inglaterra, o navio brasileiro foi apresado em alto-mar por navio de guerra britânico elevado a Gibraltar. Foram iniciadas então penosas negociações diplomáticas, nas quais os Estados Unidos tiveram papel preponderante. Foi preciso também uma extraordinária habilidade e uma paciência sem limites do Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Oswaldo Aranha, para que não prevalecessem as exigências dos chefes militares, à frente dos quais o chefe do Estado-Maior do Exército, General Góis Monteiro, que reclamava o rompimento das relações com os ingleses. Nessa ocasião, o Governo brasileiro possuía simpatizantes do nazismo e da Alemanha, admiração gratuita, reforçada pelo sucesso alcançado no front europeu e pela atuação da quinta-coluna que, com interesses outros, agia bastante, ora ostensivamente, ora de forma dissimulada, mas sempre a favor do que já então se denominava Potências do Eixo (Alemanha, Itália, Japão, este último ainda neutro). A posição geográfica do Brasil funcionava como um determinante histórico e estratégico, que faz com que a nação não possa excluir-se de qualquer atividade que tenha como palco o Atlântico Sul, apesar do seu desejo de permanecer neutra. Essa fase da nossa história foi conturbada, com a campanha pró-Alemanha, a quinta-coluna e outro episódio que iria tumultuar ainda mais o ambiente político. No dia 11 de junho de 1940, a bordo do encouraçado São Paulo, na solenidade comemorativa da batalha naval do Riachuelo, o Presidente Getúlio Vargas pronunciou um famoso discurso cujas entrelinhas permitiam interpretação de uma completa declaração pró-Alemanha. Houve enorme celeuma. Os americanos se preocuparam, os pró-nazistas exultaram, mas a crise foi contornada com paciência e habilidade pelo Chanceler Oswaldo Aranha. O Embaixador americano Caffery recebeu instruções urgentes de seu Departamento de Estado para questionar junto a Oswaldo Aranha e demonstrar que tinha surgido uma nova situação, que exigia medidas imediatas para segurança e defesa do hemisfério ocidental. A par dessas providências diplomáticas, começou a surgir a necessidade de medidas de ordem militar. O Almirante Stark, Chefe de Operações Navais da Marinha dos Estados Unidos, em concordância com o General Marshall, entendia que o saliente do Nordeste era área altamente estratégica e, por isso, deveria ser obtido do Governo brasileiro o consentimento para movimentação de tropas do Exército e Marinha americanos naquele futuro Teatro de Operações. Ao longo da nossa história, inúmeros eventos vieram demonstrar esse determinismo geográfico, no qual o Brasil é sempre parte do que ocorre no oceano que lhe banha o litoral. Isso ocorre desde os tempos de D. João III, quando foi tomada a decisão de defender as costas brasileiras das incursões de estrangeiros, das invasões francesas, que, em 1612, fundaram a França equinocial, ocupando o Maranhão, e a ocupação por Villegaignon da ilha que tomou o seu nome, na Baía de Guanabara. A invasão dos holandeses, da Companhia das Índias Ocidentais, de Pernambuco, foi uma demonstração da importância estratégica cada vez maior dessa área. Um episódio do Brasil Colônia, pode ser considerado como precursor daquilo que iria se desenrolar a partir de 1942, e que foi denominado de "Trampolim da Vitória". Das costas atlânticas brasileiras partiu, em pleno século XVII, a expedição de Salvador Correia de Sá, para expulsar os holandeses que tinham se localizado nas costas de Angola, o que já era uma demonstração da importância estratégica da nossa costa. Já em pleno século XX, o Brasil não fugiu desse determinismo: na I Guerra Mundial, uma divisão naval de cruzadores atuou no Triângulo de Gibraltar-São Vicente-Dakar. Assim, o Brasil não poderia desconhecer essa situação estratégica, sobretudo quando a guerra européia, com o ataque às bases americanas de Pearl Harbour pelos japoneses, foi transformada num conflito universal. A 7 de janeiro de 1941, Sumner Welles, Subsecretário do Departamento de Estado norte-americano, encaminhou ao representante do Brasil nos Estados Unidos uma nota em que demonstrava a satisfação do Governo americano com a possibilidade do uso de bases na costa brasileira, em caso de ampliação do conflito bélico europeu. Nessa mesma ocasião, o Secretário de Estado Cordell Hull recebeu memorando sobre os entendimentos do chefe da missão naval americana, Comandante A.T. Beauregard, com o Ministro da Marinha do Brasil. A conclusão dessas conversações não era animadora para o chefe da missão naval americana, o Brasil não se mostrava alarmado com a situação mundial, como deveria estar, e suas forças navais estavam despreparadas para o conflito bélico. No dia 16 de fevereiro de 1941, o Presidente Roosevelt reuniu na Casa Branca os Secretários da Marinha e do Exército e os Chefes dos Estados Maiores das duas Forças, concluindo que os Estados Unidos manteriam uma atitude defensiva no Pacífico com sua esquadra baseada no Havaí, e que no Atlântico teriam que sustentar condições de comboiar os transportes para a Inglaterra, patrulhando toda a costa continental. O ano de 1941 iniciou-se com os norte-americanos tomando medidas preliminares para a defesa do continente. Além da missão naval chefiada pelo Comandante A.T. Beauregard, outros contatos foram mantidos. Os entendimentos não progrediam como desejavam os americanos, preocupados com o despreparo das forças brasileiras, sobretudo da Marinha, sem condições para proteger convenientemente a sua extensa costa. Na mesma época, Roosevelt, em discurso aos industriais de Hollywood, a 28 de fevereiro, disse que a defesa nacional dos Estados Unidos transformara-se na defesa do Hemisfério Ocidental e de toda a América. Após essa declaração, a defesa do Nordeste não era mais um assunto somente brasileiro. Já se realizavam, portanto, no início de 1941, conversações na área militar entre o Brasil e os Estados Unidos, embora sem nenhuma definição clara do Governo brasileiro, que se apegava à absoluta neutralidade e sofria indisfarçável pressão pró-Eixo, proveniente das colônias alemãs e italianas. As respectivas embaixadas insuflavam, com o objetivo de que o Brasil se manifestasse cada vez mais a favor das potências do Eixo, naquele momento vitoriosas nos campos da Europa. Em junho realizou-se em Washington uma reunião do comitê para assuntos de defesa, órgão de alto nível de política interministerial. A preocupação básica era referente à defesa do continente americano. Como conseqüência de uma dessas reuniões, o Subsecretário Sumner Welles pediu ao General Marshall, já então Chefe do Estado-Maior do Exército, que redigisse memorando no qual fosse exposto, com clareza, o que os americanos desejavam em relação ao Brasil e, sobretudo, no Nordeste brasileiro. A finalidade desse memorando era estabelecer a segurança do Nordeste, contra possível ataque bélico das potências do Eixo. O chefe das operações navais da Marinha dos Estados Unidos, Almirante Harold R. Stark, reiterou sua opinião que deveria ser obtido consentimento do Governo brasileiro para o trânsito de tropas do Exército e da Marinha americanos naquela região e que, paralelamente, fosse solicitado dos governos da Colômbia e Venezuela cooperação para utilização dos seus portos e aeroportos. O historiador Hélio Silva informa com precisão que o pensamento dos chefes americanos, General Marshall e Almirante Stark, era voltado para outro ponto e que, talvez, esse não devesse ser apresentado ao Presidente Getúlio Vargas. Os dois chefes militares americanos temiam a possibilidade de uma rápida captura de aeroportos e portos do Nordeste brasileiro por forças existentes no país sob influência da quinta-coluna. Estas forças poderiam agir em cooperação com pequenas forças alemãs, coordenando seus movimentos, para aportarem, pelo ar ou pelo mar, nesses locais, tão logo fossem ocupados por tropas simpatizantes do Eixo. Hoje, esse receio pode parecer uma fantasia. As possibilidades eram remotas, mas possíveis, e a importância do Nordeste não permitia o descuido em hipótese alguma, ainda mais depois que chegaram à conclusão da viabilidade de ataques ao hemisfério ocidental. Os pontos mais vulneráveis eram a Islândia, no hemisfério Norte, e Natal, hemisfério Sul, que ficavam mais perto de Dakar do que seria desejável. A travessia do Atlântico era uma possibilidade. A concepção desse plano esbarrava na natural resistência do Presidente Getúlio Vargas e de outros membros do governo à hipótese da presença de tropas norte-americanas em território brasileiro. As delicadas negociações prosseguiram e, em 24 de julho, um acordo feito por oficiais do Estado-Maior regulou as atividades da comissão Brasil-Estados Unidos. Foi assinado pelo General Dutra e pelo chefe da missão militar americana um documento em que o Brasil se comprometia a ajudar a defender o continente americano e construir bases navais. Os Estados Unidos, em contrapartida, se comprometiam a auxiliar o nosso País, quando necessário. As reuniões dessa comissão começaram a se prolongar, e as discussões resultavam muitas vezes infrutíferas. Os americanos davam prioridade ao envio de elementos seus para o Nordeste, e o Brasil em receber armamentos e equipamentos modernos para suas tropas. Nesse meio tempo, o General Dutra passou a reforçar as bases militares localizadas no Nordeste, usando exclusivamente recursos brasileiros. Do ponto de vista dos brasileiros, a prioridade absoluta era o recebimento de armas e equipamentos. No dia 1º de outubro de 1941, o Brasil assinou, em Washington, o acordo de empréstimo e arrendamento, pelo qual ficou estabelecido o fornecimento de artigos de defesa como cooperação para segurança do Continente. Foi o primeiro documento de uma série de outros que iriam ser firmados no sentido de aproximar as relações entre os dois países para melhorar a defesa do Continente - vale dizer das áreas estratégicas do Nordeste, fonte constante de preocupação dos americanos. Esse documento foi bombardeado pela imprensa germanófila e questionado por aqueles que insistiam em que a América, especialmente a América do Sul, sempre estaria longe do conflito europeu. Pouco mais de um mês depois, os acontecimentos desmentiriam essa versão. O Governo brasileiro manteve a neutralidade enquanto pôde. Essa situação perdurou até o ataque dos japoneses a Pearl Harbour. Durante esse período, nas pequenas cidades do país onde havia concentração de colônias alemãs ou italianas, particularmente no Sul, era grande a pressão em favor do Eixo, que havia conquistado quase todos os países da Europa. Esse panorama mudaria totalmente após 7 de dezembro. Em obra recentemente editada nos Estados Unidos sobre a espionagem alemã na América do Sul, no período pré-guerra, é relatado que, a 28 de novembro de 1941, o Embaixador alemão Kurt Prüffer ofereceu um jantar na embaixada e, entre outros convidados, figurava Benjamim Vargas, irmão mais moço do Presidente Vargas. Terminado o jantar, o Embaixador e o irmão do Presidente Vargas tiveram uma conversa confidencial, na qual o brasileiro teria comentado que Getúlio Vargas desejava manter bom relacionamento com o Governo alemão, mas que talvez fosse obrigado afazer algumas concessões aos americanos, sem que isso significasse uma mudança de política. Enquanto isso, o Embaixador italiano Ugo Sola fazia um trabalho de propaganda do fascismo, reunindo na embaixada grupos de líderes políticos e pessoas de expressão social e cultural do país. Na recepção, projetava filmes com as realizações sociais do fascismo, o progresso industrial e comercial da Itália e também a força das armas italianas. Alguns convidados saíam encantados com o desenvolvimento e as conquistas do fascismo, mas outros, mais argutos, manifestavam sua preocupação com o perigo que corria a liberalidade no mundo.

"A FEB por um Soldado"
Joaquim Xavier da Silveira



Orson Welles em 1942, no Ceará
Arquivo Vanius Meton Gadelha Vieira

 

Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP)

O DIP foi criado por decreto presidencial em dezembro de 1939, com o objetivo de difundir a ideologia do Estado Novo junto às camadas populares. Mas sua origem remontava a um período anterior. Em 1931 foi criado o Departamento Oficial de Publicidade, e em 1934 o Departamento de Propaganda e Difusão Cultural (DPDC). Já no Estado Novo, no início de 1938, o DPDC transformou-se no Departamento Nacional de Propaganda (DNP), que finalmente deu lugar ao DIP. O DIP possuía os setores de divulgação, radiodifusão, teatro, cinema, turismo e imprensa. Cabia-lhe coordenar, orientar e centralizar a propaganda interna e externa, fazer censura ao teatro, cinema e funções esportivas e recreativas, organizar manifestações cívicas, festas patrióticas, exposições, concertos, conferências, e dirigir o programa de radiodifusão oficial do governo. Vários estados possuíam órgãos filiados ao DIP, os chamados "Deips". Essa estrutura altamente centralizada permitia ao governo exercer o controle da informação, assegurando-lhe o domínio da vida cultural do país. Na imprensa, a uniformização das notícias era garantida pela Agência Nacional. O DIP as distribuía gratuitamente ou como matéria subvencionada, dificultando assim o trabalho das empresas particulares. Contando com uma equipe numerosa e altamente qualificada, a Agência Nacional praticamente monopolizava o noticiário. Quanto ao rádio, buscou-se difundir seu uso nas escolas e nos estabelecimentos agrícolas e industriais, de modo a promover a cooperação entre a União, os estados, os municípios e particulares. O programa oficial "Hora do Brasil" era transmitido para todo o território nacional. Outra realização do DIP foi o "Cinejornal Brasileiro", série de documentários de curta metragem de exibição obrigatória antes das sessões de cinema. No "Cinejornal" fazia-se a crônica cotidiana da política nacional, recorrendo-se ao forte impacto dos recursos audiovisuais. Alguns filmes eram exportados para países como a Argentina, o Uruguai e o Paraguai. Um dos reflexos da guerra no Brasil foi uma campanha de penetração cultural do governo norte-americano destinada a barrar a influência alemã no país. O DIP colaborou nessa campanha, que marcou a presença do Tio Sam no Brasil, apoiando e desenvolvendo projetos conjuntos com a agência norte-americana criada para esse fim. Foi nesse contexto que vieram ao Brasil artistas famosos como o cineasta Orson Welles, Walt Disney e Nelson Rockefeller. Também foi instituída no DIP uma sessão de intercâmbio cultural luso-brasileiro. Um dos frutos desse intercâmbio foi a revista Brasília, publicada pelo Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de Coimbra. O DIP costumava realizar concursos de monografias e reportagens sobre temas nacionais. Foi através de seu setor de divulgação que se editaram várias coleções como a Coleção Brasil, Vultos, datas e realizações e O Brasil na guerra. Para divulgar essas obras foi criada uma rede de bibliotecas em escolas, quartéis, hospitais e sindicatos. A centralização informativa era apresentada como fator de modernidade e justificada pelos princípios de agilidade,eficiência e racionalidade. Devido à importância de suas funções, o DIP acabou se transformando numa espécie de "super
-ministério". Cabia-lhe exercer a censura às diversões públicas, antes de responsabilidade da Polícia Civil do Distrito Federal. Também os serviços de publicidade e propaganda dos ministérios, departamentos e órgãos da administração pública passaram à responsabilidade do DIP. Entre 1939 e 1942 o DIP esteve sob a direção de Lourival Fontes, que já dirigira o DPDC e o DNP. Seus sucessores foram o major Coelho dos Reis, de agosto de 1942 até julho de 1943, e o capitão Amilcar Dutra de Menezes, que atuou até a extinção do DIP, em maio de 1945.

 

 

Um Herói nunca morre!

Simples História de um Homem Simples
As Origens
Força Expedicionária Brasileira
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