FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

 

 

A OUTRA GUERRA DOS PRACINHAS DA FEB...


A FEB em combate na Itália
Imagem escaneada da revista Nossa História - ano 2 - nº 15 - Janeiro de 2005

 

A Guerra em Tempo de Paz

Em maio de 1945, a guerra na Europa chegava ao fim e os expedicionários brasileiros se preparavam para voltar para casa. Se no Brasil se organizavam festas para recebê-los, as maiores movimentações se davam, no entanto, na área política. Disseminou-se, pela imprensa e nos meios de oposição ao governo, a idéia de que a vitória da Força Expedicionária Brasileira (FEB) contra o nazi-fascismo tornaria insustentável a continuidade do Estado Novo e a permanência de Getúlio Vargas no poder. Cientes da movimentação em torno do simbolismo da FEB, o ministro da Guerra, general Eurico Gaspar Dutra, e o chefe do Estado Maior do Exército, general Góes Monteiro, trataram de desmobilizar rapidamente os expedicionários e evitar ao máximo a politização de seu retorno. Uma das principais medidas foi a dissolução da FEB, quando o grosso do contingente ainda estava na Itália. Os expedicionários foram proibidos de dar declarações públicas e até mesmo de andar uniformizados pelas ruas ou portando medalhas e condecorações. Ainda conforme as determinações, assim que os ex-combatentes chegassem ao Rio de Janeiro desfilariam e ficariam por alguns dias aguardando, nos quartéis, suas dispensas e o pagamento dos soldos devidos. Uma vez dispensados, ficariam por sua própria conta e risco. As novas ordens produziram as conseqüências políticas desejadas pelos chefes militares: poucos expedicionários se envolveram em política, no crepúsculo do Estado Novo. Vargas foi deposto sem resistência e os opositores do general Dutra, candidato à Presidência da República nas eleições de 1946, não puderam contar com o simbolismo febiano na campanha eleitoral, pois este já estava distante no tempo e esquecido. As conseqüências sociais dessa desmobilização apressada foram, contudo, muito mais duradouras e desastrosas. As festas e homenagens aos expedicionários, as maiores da história da República, lhes deram a ilusória impressão de que a pátria, agradecida, não lhes faltaria. Mas com o passar dos dias e dos meses, a quantidade e o entusiasmo das homenagens foram arrefecendo. Para os veteranos, tratava-se de voltar às rotinas da vida em tempos de paz. Os que eram militares de carreira ou que escolheram, no momento da desmobilização, continuar na vida da caserna, logo perceberam que, dentro da instituição, suas folhas de combate e suas medalhas não lhes trariam proeminência ou respeito dos colegas não-combatentes. Muito pelo contrário, encontraram má vontade generalizada entre seus pares, pois a maioria dos militares que não foram à guerra temia "ficar para trás" em suas carreiras. Assim que chegaram, muitos dos oficiais febianos foram transferidos para guarnições distantes, ao invés de serem destacados para liderar a instrução da guerra moderna aos que ficaram no país. Nos quartéis, a hostilidade a esses oficiais e praças era freqüente. Para piorar a situação, vários direitos que eram privativos dos veteranos da FEB, conquistados pela participação direta na campanha da Itália, como promoções e condecorações, foram distribuídos, anos depois, a militares que não saíram do país durante a guerra. Apesar do ambiente ruim, os militares de carreira ainda podiam contar com a estrutura que a profissão poderia proporcionar: emprego estável, assistência médica, aposentadoria. A maioria dos expedicionários, contudo, preferiu retornar à vida civil, e para estes os problemas foram ainda maiores. O primeiro desafio foi a retomada da vida social. Depois de participarem da barbárie da guerra, era natural que não voltassem os mesmos. No entanto, o Exército não ofereceu nenhum suporte ou preparo para os expedicionários realizarem a transição para a vida civil. Se a instituição militar, voltada para o ofício e as conseqüências da guerra em seus homens, se omitia em relação aos seus veteranos, pode-se imaginar o despreparo da sociedade civil em compreender as dificuldades de sua volta aos lares, aos empregos, à vida social. Dado o número insignificante de veteranos, em relação à população (cerca de 25 mil, numa população de mais de 40 milhões de habitantes), esperava-se que eles se adaptassem à sociedade, e não o contrário. De modo geral, nas primeiras semanas após o retorno ao país, praticamente todos os veteranos sentiram, em maior ou menor grau, alguma dificuldade de convívio com a população não combatente. Aqueles que possuíam formação escolar ou habilitações profissionais encontraram melhores oportunidades de reintegração. Uma minoria, porém, não conseguiu se readaptar satisfatoriamente à vida civil. A incidência de casos de alcoolismo e violência doméstica agravava os problemas de ressocialização e aumentava a marginalização dos veteranos. Reportagens sobre ex-combatentes na miséria, vivendo como mendigos nas ruas das grandes metrópoles, e mesmo casos de suicídio, foram freqüentes na imprensa brasileira, nas décadas que se seguiram ao fim da guerra. As dificuldades para partilhar com a sociedade as recordações da participação na guerra, por parte dos veteranos, eram semelhantes às da reintegração social. As pessoas já não queriam mais ouvir os ex-pracinhas e suas histórias das batalhas, e várias vezes ex-combatentes chegaram a escutar que o que fizeram na Itália fora mais um passeio do que uma guerra de verdade. A dificuldade material se somava a desvalorização de seus feitos e sacrifícios em combate. Os problemas mais graves surgiram, contudo, na reintegração profissional. As leis de convocação para a guerra garantiam aos expedicionários o retorno aos mesmos empregos que deixaram quando foram mobilizados para o conflito. No entanto, a legislação nem sempre era cumprida, e, mesmo quando isso acontecia, freqüentemente os veteranos eram dispensados depois de readmitidos, sob alegação de inadaptação, incompetência e problemas de relacionamento. Além do mais, o direito de readmissão valia apenas para os trabalhadores urbanos, pois na década de 1940, trabalhadores rurais não possuíam direito algum. Como a maior parte da população brasileira trabalhava no campo, e como a FEB reproduziu em suas fileiras a composição da classe trabalhadora do país, pode-se constatar que a maior parte dos veteranos estava desprovida de direitos em seu retorno.Veteranos com algum tipo de enfermidade permanente, como por exemplo, doenças respiratórias contraídas no  front, ou alguma incapacidade decorrente da guerra - mutilações, deficiências visuais, auditivas, neuroses, etc. - tiveram de esperar meses ou anos para requererem as indenizações e pensões, e mesmo assim sem a certeza de consegui-las, pois os órgãos governamentais tratavam-nos com desconfiança, suspeitando de fraudes e simulações de doenças inexistentes. Mais uma vez o padrão se repetia: os mais escolarizados e bem relacionados conseguiam os benefícios, enquanto a maioria tinha de amargar longas esperas pelo cumprimento de seus direitos, nem sempre com sucesso. Segundo as associações de ex-combatentes, criadas logo após o retorno da guerra, o desemprego foi o maior problema enfrentado pelos pracinhas. Em seus primeiros anos, devido à grande influencia dos comunistas, que ocupavam cargos de direção, essas associações eram mais combativas, entrando seguidamente em confronto com os governos, exigindo os direitos devidos e se pronunciando em questões políticas do momento. Essas práticas políticas, no entanto, eram reprovadas pela maioria dos associados. No final da década de 1940, com a participação ativa de alas anticomunistas do Exército, os dirigentes de esquerda foram afastados de seus cargos. A partir de então, as associações exercitaram uma política mais assistencialista e de colaboração com as Forças Armadas e com os governos, postura que continua até os dias de hoje. Durante décadas, às associações e políticos que reivindicavam melhorias no tratamento dos veteranos de guerra, o governo federal respondia decretando dezenas de leis, como aquelas concedendo-lhes preferência na ocupação de vagas no serviço público. O cumprimento delas, contudo, nunca foi seguido à risca, além da desinformação de muitos ex-combatentes sobre seus direitos, essas leis mexiam com a principal moeda de troca do clientelismo brasileiro: o emprego público. Era comum o veterano requerer a vaga, demonstrando possuir os requisitos e aptidões para a função, e ser preterido por algum protegido de político local.  Apenas em 1988, com a nova Constituição Federal, os veteranos de guerra do Brasil conquistaram o direito de uma pensão especial, como reconhecimento de seus sacrifícios na linha de frente. Os benefícios, no entanto, chegaram tarde demais para a maioria deles: dos 25 mil expedicionários, pouco menos de 10 mil ainda estavam vivos quando o benefício foi aprovado. Os veteranos brasileiros enfrentaram, durante mais de meio século, um processo lento e progressivo de desvalorização de sua participação na Segunda Guerra Mundial. A participação brasileira na guerra aparece pouco nos livros de História, os pracinhas estão desaparecendo com o passar dos anos, assim como as sedes das associações e seus acervos. Mas suas lutas continuam. Para esses idosos veteranos, seja celebrando suas histórias, seja enfrentando as diversas modalidades de esquecimento, a guerra em que lutaram nunca acabou.

Francisco César Alves Ferraz
Artigo publicado na revista Nossa História - ano 2 - nº 15 - Janeiro de 2005


Retornando da guerra, os pracinhas recebiam os cumprimentos da população brasileira.
Brevemente seriam esquecidos, humilhados e tristemente abandonados à própria sorte.
Foto escaneada do livro "Trinta Anos depois da Volta" - Octávio Costa

Das Trincheiras ao Pavilhão de Doentes Mentais

Da região de São João Del Rei, 3 258 pracinhas do 11° RI integraram a Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial. Quando retornaram, foram recebidos com as mais efusivas comemorações, versões locais de manifestações como as do Rio de Janeiro. Cada uma de suas casas ostentava orgulhosamente um cartaz: "Daqui saiu um expedicionário!". Mas, se os pracinhas, entusiasmados com a calorosa recepção, imaginavam que os dias penosos se transformariam em uma vaga lembrança, logo se deram conta do engano. Aqui mesmo, em solo brasileiro, outra guerra começava - a luta pela sobrevivência. Neste combate esteve meu pai, Francisco Pedro de Resende, que me revelou, numa conversa emocionada, o "terrível sacrifício e tremenda injustiça" que enfrentou no pós-guerra. Seu relato é um emblema daquilo que aconteceu com boa parte dos nossos pracinhas. Poucos dias após o desembarque no Brasil ele, entre tantos outros, já estava "abandonado à própria sorte". Em função de sua baixa escolaridade, meu pai foi logo licenciado, passando a engrossar as fileiras de desempregados do país. De todas as suas lembranças a mais tocante, certamente, foi o alto preço que pagou pela tão almejada reforma - a garantia de um soldo proporcional à patente. Para consegui-la teve de "baixar no pavilhão de doentes mentais" do Hospital Central do Exército do Rio de Janeiro, pois, conforme dispunha a lei, esse benefício destinava-se àqueles que tivessem alguma limitação por motivos de saúde. Ele foi "obrigado a mentir" dissimulando desequilíbrio emocional, para obter o parecer favorável da Junta Médica. Permaneceu no HCE por longos quatro meses, na primeira internação, e mais 17 dias, na segunda. Enquanto isso, minha mãe, professora primária, se incumbia, em Minas Gerais, da responsabilidade de cuidar dos 11 filhos. Apesar da morosidade, a reforma foi aprovada para muitos e a do meu pai, finalmente, publicada no Diário Oficial em novembro de 1976. Seja como for, não fosse a coragem para enfrentar "tamanha humilhação" meu pai - entre tantos outros pracinhas - sequer teria conquistado algum reconhecimento até a Constituição de 1988, quando, enfim, transcorrido quase meio século, foi assegurada uma pensão especial aos ex-combatentes. Essas páginas, lamentáveis e vergonhosas, não se encontram registradas nos compêndios sobre a Segunda Guerra Mundial. Vieram à tona - não sem dor e amargura - através do desabafo de meu pai. Resistindo a todo esse descaso, mesmo assim ainda encontrou ânimo para tocar nessas "feridas" pacientemente - como é de seu temperamento (ou do que a vida lhe exigiu) -, como que reforçando o valor e a fortaleza de sua geração. Em homenagem aos seus feitos na juventude, ainda estampo, com orgulho, na parede de minha casa, uma carta emoldurada, escrita por ele no dia 16 de maio de 1945, noticiando o término da guerra, enquanto aguardava com expectativa o embarque para o "Brasil amado, cobertos de louros da vitória que nos custou inúmeros sacrifícios". Durante todos esses anos, cada vez que eu relia esta carta, era tomada por um sentimento de indignação - na condição de filha e de historiadora - e me perguntava: quando os pracinhas teriam o reconhecimento pelos "sacrifícios" que enfrentaram em solo brasileiro? Parece que esse dia, finalmente, chegou...

Maria Leon Chaves de Resende
Artigo publicado na revista Nossa História - ano 2 - nº 15 - Janeiro de 2005


Acidente nos Apeninos
Foto escaneada do livro "A Epopéia dos Apeninos" - José de Oliveira Ramos

 

A Tarefa Rotineira de Matar

Corno foi tradição, as narrativas sobre a participação brasileira na campanha da Itália se pautaram por um tom grandiloqüente, de forma geral ressaltando a importância dos grandes comandantes e da liderança em alto escalão. Essa versão da história da FEB acabou provocando um efeito negativo, pois gerou desconfiança semelhante àquela com que os leitores em geral olham as costumeiras e já desgastadas abordagens utilizadas nos demais textos clássicos sobre os episódios militares de nosso país, em geral apologéticos e triunfalistas. Em contraposição a essa vertente, nas últimas décadas foi bastante difundida a opinião de que as tropas brasileiras chegaram às linhas de frente no fim do conflito, tendo enfrentado um inimigo cansado que defendia posições secundárias de forma fraca reticente. De acordo com tal versão, a participação da FEB na fase final da campanha da Itália teria sido de pouca relevância para o desfecho das operações do V Exército Americano, ao qual os brasileiros estavam subordinados. Por conta dessa visão, certas narrativas da ação brasileira nos campos de batalha eram marcadas por ceticismo ou mesmo zombaria. O resultado foi que não se deu a devida atenção à realidade vivida por dezenas de milhares de jovens brasileiros. Convocados entre 1942 e 1944, foram um pais de clima muito diferente enfrentar um inimigo experiente, que as vezes tinha uma vantagem desproporcional em função do terreno montanhoso. Veteranos da FEB contribuíram para a falta de conhecimento da história da campanha na Itália. Por medo de chocarem as pessoas, eles evitavam contar detalhes da ferocidade dos combates e de vida na frente de batalha. Nas eventuais tentativas de contato com antigos integrantes da FEB sobressaem as narrativas de cunho anedótico como as eventuais aventuras com garotas e situações cômicas  vividas em acampamentos na retaguarda, no lugar das recordações traumáticas que a própria memória procura convenientemente ocultar. Na verdade o Brasil entrou na guerra num momento em que a balança das vitórias pendia favoravelmente para o lado do Eixo nazi-fascista. A esmagadora maioria dos nossos soldados de infantaria provinha das lavouras, ou dos setores do operariado urbano. Um número significativamente menor era oriundo do setor de serviços e apenas a mais ínfima parte por estudantes. Sua média de idade situava-se em torno dos 23 anos. O braço letal da FEB, que totalizava 25 334 homens e mulheres, era constituído pela 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária, composta de cerca de 15 mil combatentes. Uma vez engajado em campanha, o típico soldado de infantaria brasileiro carregava uma ferramenta para escavação de abrigos individuais - característica primordial na Segunda Guerra, pois os soldados passavam longos períodos estacionários entre os ataques, protegidos em pequenos buracos que acomodavam dois ou três homens. Nestes intervalos, eram constantes as tarefas de patrulhamento e segurança das posições mais avançadas, atividades extremamente desgastantes, pois vivia-se sob os bombardeios e as intempéries, que, além dos engenhos bélicos, causavam baixas por problemas respiratórios (foram comuns temperaturas abaixo de -15° C no último inverno da guerra) e de circulação nos membros locomotores, que, se não fossem tratados a tempo, resultavam em gangrena e amputação das pernas. Nos postos da primeira linha no front, as condições de higiene eram extremamente precárias. Dependendo da exposição ao inimigo, era inviável executar os mais básicos hábitos de asseio pessoal. Em posições como a Torre di Nerone, elevação situada no vale do rio Reno, no norte italiano, foi impossível que os soldados de alguns batalhões da FEB se banhassem por períodos de até três meses. O contato com a terra facilitava o surgimento de parasitas como piolhos, insetos que procriavam por debaixo das várias camadas de uniformes, estes últimos indispensáveis para suportar a intensidade do inverno. Para a satisfação das necessidades fisiológicas, utilizavam-se os invólucros cilíndricos de munição, feitos de papelão, ou as latas das rações de combate, que, uma vez cheias, eram atiradas para fora dos abrigos. Por vezes, as condições no front eram ainda mais rudes: em algumas circunstâncias, a ocupação de posições-chave obrigou os soldados a escavarem seus abrigos ao longo ou até mesmo por baixo dos cemitérios dos vilarejos italianos. Convivia-se dia e noite ao lado de túmulos, que com freqüência abriam-se, a poder de granadas inimigas, espalhando seu conteúdo por entre os abrigos. O veterano Leonercio Soares, em seu livro de memórias de guerra, descreveu a situação que os soldados enfrentaram em posições à frente de Monte Castelo: "A terra, pisada e repisada pelos pés dos soldados, tornou-se um lamaçal pastoso e gelado. E fétido, também. Sobretudo ali, naquelas medonhas e encharcadas posições, abertas, em forma de túnel, enrustidas que foram sob o velho cemitério de Bombiana. Ali, naqueles buracos de toupeiras, sentia-se ainda muito frio no decorrer das noites. As mãos gelavam-se ao tocar na terra negra e malcheirosa. Dela, permanentemente emanava-se o odor sepulcral de defuntos centenários, confundindo- se, misturando-se e aderindo ao fedor do feno podre que enchia os galochões - o fedor de chulé, de suor velho e encalacrado - o mau cheiro de toda sorte de sujeira, acumulada nos corpos vivos que conviviam com os mortos. Um bafejo forte escapava-se do fundo da terra do velho cemitério - emanação pegajosa, grudenta, nauseante, impregnava todas as coisas que ali se encontravam". O nevoeiro das montanhas, a fumaça das explosões, a poeira levantada pelos deslocamentos de ar, ruídos ensurdecedores, a vegetação calcinada e triturada por estilhaços, a lama misturada com neve derretida, os obstáculos de arame farpado, o aroma nauseante de pólvora queimada e todo tipo de odor causado por matéria orgânica em decomposição, completavam o cenário dos combates. Em virtude do campo de visão limitado do combatente e de ele estar ocultado no terreno, era comum que brasileiros e alemães entrassem em choque a distâncias tão curtas como dez ou 15 metros. Para o soldado emaranhado na luta, tornava-se impossível conseguir uma noção aproximada do desenrolar dos eventos. Os exércitos nazista e italiano dispunham de uma doutrina defensiva elaborada com o propósito de ter o máximo aproveitamento do terreno montanhoso que ocupavam. Era comum que um grupo de cinqüenta soldados alemães, bem entrincheirados nas encostas de uma montanha, conseguisse segurar centenas de soldados aliados por dias ou até semanas. Quando a infantaria dos países Aliados avançava, seu percurso era batido por fogos cruzados disparados por armas dispostas de maneira que qualquer ponto pudesse ser atingido, por projéteis ou granadas. Nos espaços entre os ninhos de metralhadoras e morteiros, pequenos grupos de atiradores de elite alemães, com freqüência armados de fuzis com lunetas, faziam precisos disparos contra os soldados aliados. Em função dos atrozes efeitos físicos causados por tais armas, os soldados que se preparavam o batismo de fogo eram mantidos num estado de alheamento no que se refere aos riscos que muito brevemente viriam a correr, uma vez envolvidos em combates. Quase nenhuma informação era transmitida aos soldados a respeito dos ferimentos mais graves que os estilhaços podiam causar, como castração, evisceração, perda de matéria encefálica ou até a própria desintegração do corpo humano, quando nas proximidades da detonação de uma granada de grosso calibre. Uma vez conscientes da enorme amplitude de agressões físicas que a guerra poderia acarretar, as tropas engajadas no front começavam a apresentar reações psicológicas comuns aos soldados mais experientes. Como afirmou o fuzileiro Santo Torres, "eu me desenganei da minha saúde. Aquele sofrimento era tão grande que a gente esperava o fim da guerra ou o nosso fim". O tratamento das baixas da FEB ocasionadas por fadiga de combate, ao menos pela duração da guerra, foi exemplar, graças ao trabalho do capitão médico Mirandolino Caldas, encarregado do Posto Avançado de Neuropsiquiatria. Caldas, seguidor de uma postura cientifica avançada para a época, já reconhecia que os casos mentais vulgarmente conhecidos como "neurose de guerra" se originavam das insuportáveis condições a que eram submetidos os soldados. Para a maioria dos médicos militares da época, esses casos eram provocados por desvios comportamentais. Atualmente, a "estafa de combate" é definida como "síndrome do estresse pós-traumático", reação observada igualmente em vitimas de assaltos e acidentes automobilísticos. Infelizmente, muitos dos casos da síndrome se manifestaram anos após o final do conflito, quando os veteranos da FEB não mais dispunham de acompanhamento médico conveniente. Outra das conseqüências da permanência em combate era a brutalização, o abandono de reações e comportamentos ditos civilizados. O soldado Ferdinando Palermo, alfaiate convocado para servir numa companhia de fuzileiros, considera o resultado de sua experiência de guerra:

"Todo o sentimento que eu tinha foi perdido na guerra, que destrói tudo. Ela destrói todo o seu sentimento humano, e você passa a ser um bicho. No início, a desgraça que nos cercava impressionava muito, mas com o passar do tempo, comecei a achar tudo aquilo comum. Um colega caia ferido, eu olhava, nem mesmo podia ajudar, pois a minha função não era de padioleiro (carregador de maca), que era quem ajudava o ferido. Fiquei completamente desumano, perdi todo o amor que sentia pelo semelhante".

Matar inimigos era, por definição, uma função do soldado em guerra. A princípio, as reações a essa matança variavam conforme a índole de cada um, indo da profunda compaixão e relutância em matar até o cinismo. Após longos períodos no front, porém, era comum o surgimento de uma indiferença generalizada em relação às mortes. Os serviços de propaganda procuravam continuamente criar um clima de ódio em relação ao inimigo, mas a tarefa rotineira de matar ainda encontrava sólidas barreiras em fatores culturais. A duração do confronto e a dureza dos combates, porém, lembra os soldados a todo instante da situação irredutível de matar ou ser morto, que, somada à brutalização, dissipava os eventuais obstáculos morais. Aceitar essa realidade durante a campanha cobrou seu preço nos dilemas de consciência que emergiram na solidão do pós-guerra. Infelizmente, alcoolismo e suicídio não foram raros entre os veteranos da FEB, após seu retorno ao Brasil. 

Cesar Campiani Maximiano 
Artigo publicado na revista Nossa História - ano 2 - nº 15 - Janeiro de 2005



FAB em ação
Arquivo Diana de Oliveira Maciel

O PROBLEMA DA ASSISTÊNCIA PSICOLÓGICA

E' meu desejo chamar a atenção dos oficiais estudiosos e de visão larga, para este ponto, visto que apenas contribuo com o meu depoimento despretensioso, enquanto eles muito poderão fazer com os seus conhecimentos especializados em prol de um assunto de alta relevância no campo da disciplina e bem-estar do homem durante á guerra de efeito psicológico imprevisível na formação e sustentáculo do moral da tropa. A pressão de cima para baixo numa guerra é enorme. Toda a tropa da frente recebe o impacto de duas forças contrárias: a do inimigo que procura barrá-la por todos os meios materiais e a do Comando que a arremete contra o inimigo, usando de todos os meios materiais e psicológicos. O homem do front tem assim o seu consciente terrivelmente comprimido pelo instinto de conservação e pelo cumprimento do dever, do que podem advir recalques e complexos incalculáveis, capazes de provocar profundos desequilíbrios físicos e mentais. Seria de mister, por conseguinte, a bem da saúde do homem que voltará à vida civilizada e da própria sociedade, que esses recalques fossem de momento em momento, sublimados por um repouso longe do front, onde o homem pudesse tomar contacto com a vida civilizada, de cujos hábitos e ambientes, a servidão do combate o afastara. Este é um ponto conhecido. Preciso é, pois, que seja levado em consideração como uma das teses mais importantes no planejamento da vitória sobre o inimigo. A pressão exercida pelo Comando Brasileiro foi bem acentuada. Pareceu-me, todavia, que esta rigidez decorreu da grande responsabilidade dos nossos comandantes que, apenas com uma divisão, representavam o Brasil na II Guerra Mundial. Os brasileiros não podiam falhar, custasse o que custasse. Naturalmente, se se deixasse uma tropa à vontade, quase não haveria avanços... Mas, nós éramos apenas uma divisão. Se fracassássemos, seria o descrédito para a Forma Expedicionária Brasileira. Daí a pressão ter sido tremenda e por vezes exaltada. Isto criou uma mentalidade de indiferença e até de desestima pelo Alto Comando. Surgiu um fatalismo displicente e irônico na Frente de Combate, que poderia ser traduzido nestas expressões: "Já vai tarde", "O azar é seu", etc. Sim, quem morresse ali, já ia tarde, envolto no saco branco dos mortos... A FEB foi uma das divisões mais "sugadas" e uma das que mais produziram na âmbito do V Exército Americano. Isto já passou. É preciso, entretanto, aprender para o futuro. O soldado brasileiro, apesar dos pesares, não teve uma assistência psicológica e mesmo material como a dos norte-americanos. (Basta observar que até oficiais feridos, quando tiveram alta do hospital, estavam sem farda brasileira, sem dinheiro, etc. Houve quem tivesse que sair com farda americana e quem se viu sujeito à contribuição de colegas e soldados numa "vaquinha") Os homens saiam da frente numa proporção que talvez atinja a metade da tropa em combate. Destarte, a metade ou quase a metade não soube o que era um descanso num hotel, em cidade da retaguarda onde se distraísse e sublimasse as emoções recalcadas pelas duas pressões opostas. Ora, enquanto o combatente do front está empenhado em salvar a pele e sustentar o terreno conquistado, o militar da retaguarda é tentado a uma vida doméstica, principalmente quando o inimigo não conta com superioridade aérea como aconteceu na Itália. Mesmo com a superioridade aérea do inimigo, é preciso notar que os ataques à retaguarda visam, em última análise, a frente de combate. A área desta é incomparavelmente inferior à daquela; esta é quem vai suportar o peso dos impactos inimigos, agravado pela irregularidade dos suprimentos pela perturbação ou desorganização da retaguarda. Na Itália, depois de vários dias de acampamento, passei a noite numa vila às escuras e tive um desejo súbito de bater à porta de uma das casas. Parecia um absurdo. Não fui porque o italiano não iria compreender o meu gesto. Há dias, porém, que eu não via uma simples cadeira, um objeto familiar, um prato de louça ou um copo de vidro. Tive vontade de estar numa sala de visitas, sentir as quatro paredes de uma casa e todo um ambiente doméstico, enfim um recanto familiar. É realmente duro para um homem civilizado, passar dias e meses dentro do mato, comendo em marmitas, sentando-se em bancos de madeira, sem encosto ou no chão, comendo com as mãos sujas ou as lavando muito mal no capacete de aço, longe de uma infinidade de coisas a que nos acostumamos desde crianças... É quando sentimos quanto valem objetos de que nos utilizávamos sem lhes dar maior importância.

José X. Góis de Andrade
Espírito da FEB e Espírito do Caxias
"Depoimento de Oficiais de Reserva sobre a FEB"

Um Herói nunca morre!

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