FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA


IPORAN NUNES DE OLIVEIRA

O Conquistador de Montese

 


Tenente Iporan Nunes de Oliveira.
Foto escaneada do livro: "Montese, Marco Glorioso de uma Trajetória"
Cel Adhemar Rivermar de Almeida

Nasceu em Cuiabá, MT, em 20/12/1917, filho de Joaquim Pinto de Oliveira e Theonila Nunes de Oliveira. Casou-se com Altayr de Lima Bastos de Oliveira, tendo quatro filhos. Cursou a Escola Militar do Realengo, tendo sido declarado Aspirante a Oficial da Arma de Infantaria em 08/01/1944. Possui o Curso da Escola de Aperfeiçoamento de Oficinas. Todas suas promoções, como Oficial Superior, foram por merecimento. A sua Fé de Oficio, como Oficial, não registra nenhuma punição. Declarado oficial, escolheu para servir, como voluntário, no 11º RI, Regimento Tiradentes, que era unidade designada para constituir a Força Expedicionária Brasileira. Embarcou para a Itália em 23/04/1944 (2° escalão da FEB). No teatro de operações da 2ª Grande Guerra, comandou 11 patrulhas de combate e participou de 3 ataques, a seguir especificados, conseguindo em todos, conquistar seus objetivos: 1° Ataque: Monte Castelo, em 12/12/1944, quando ocupou Falfare, objetivo do Pelotão; 2° Ataque: Precária, em 05/03/1945, que ocupou as 07:10h. As 18 horas atacou a cota 567 a SE de Castelnuovo; 3° Ataque: Montese, em 14/04/1945. A respeito destes ataques o Gen. Delmiro Pereira de Andrade, no seu livro"11° RI, na 2ª Guerra Mundial", escreveu:

Referente ao 1° Ataque: "A 2ª Cia. sob o comando do Capitão Carlos de Meira Mattos, portou-se admiravelmente no ataque, tendo o pelotão do Ten. Ary à esquerda e do Ten. Iporan à direita, em 1º escalão, apoiados pelo pelotão de Petrechos de Zaragoza. Esse escalão progrediu muito bem articulado pelo Cap. Meira Mattos". (página 84 ); "A 2ª Cia. ocupara a região de Falfare no final do ataque". (página 78)

Referente ao 2° Ataque: "As 06:30 horas o I/11º RI iniciou a progressão com a 2ª Cia. sob o comando do Capitão Leonel Maurício Leão de Queiroz, partindo de Boscacio, ocupando e limpando Precaria às 07:10 horas".

Obs. O Pelotão que efetuou essa ação não foi especificado, mas foi o pelotão do Ten. Iporan. Ainda escreveu o Gen. Delmiro:

"As 18:00 horas a 3ª Cia. atacou a cota 567, SE de Castelnuovo, já noite, terreno difícil e minado, foi entretanto, cumprida a missão, tendo comandado pelotões os Tenentes João Nunes Ribeiro e Iporan Nunes de Oliveira, este na 2ª Cia, à disposição da 3ª Cia." (página 107).

Iporan Nunes de Oliveira serviu como oficial: no 11° RI, em São João Del Rei - MG, de 23 de Fev 1944 à 04 de Dez 1945; no 16° BC, em Cuiabá - MT, de 17 de Dez 1945 à 14 de Mar 1947; no 3° RI, em São Gonçalo - RJ, de 29 de Mar 1947 à 20 de Dez 1950; no 16° BC, em Cuiabá - MT, de 31 de Dez 1950 à 23 de Out 1952); na EAO - Distrito Federal, de 22 de Fev 1952 à 23 de Fev 1953; no 5° RI, em Lorena - SP, de 02 de Mar 1953 à 16 de Fev 1960; no Estado Maior do Exército - Comissão de Promoção de Oficiais - de 21 de Mar 1960 à 06 de Nov 1964, quando passou para a Reserva. Logo após ter deixado o serviço ativo no Exército, trabalhou cerca de cinco anos na Empresa Shopping Center do Brasil, onde desempenhou os cargos de Gerente de Vendas e de Administrador de Shopping Centers. Trabalhou os últimos treze anos como técnico de segurança na Rede Ferroviária Federal, ocupando inicialmente a Chefia de Secção Técnica de Policiamento e posteriormente, passou a desempenhar a função de Chefe de Secção Técnica de Informações e Contra-Informações, tendo se aposentado em março de 1983, quando exercia a função de Técnico de Planejamento e Coordenação da Superintendência do Rio de Janeiro, na cidade de Juiz de Fora, MG. É detentor das seguintes medalhas: de Campanha, de Guerra; Tempo de Serviço (20 anos); Cruz de Combate de 1ª Classe *; Cruz de Combate de 2ª Classe *; Estrela de Prata * (condecorado pelo Gen. Charles H. Gerhalt, chefe da Missão Militar Mista - Brasil/Estados Unidos, em 15/07/1946, que foi a Cuiabá, de avião, com uma numerosa comitiva, especialmente para proceder a condecoração, que foi efetuada no 16° BC); Membro da mais Excelente Ordem do Império Britânico (condecorado pelo Marechal de Campo, Visconde Alexander Tunis, no palácio das Laranjeiras, em 15/06/1948. O diploma desta medalha foi assinado pelo Rei Jorge VI); Ordem do Mérito Militar, Grau de Oficial; Mascarenhas de Moraes. Agraciado com as medalhas seguidas de *, pela destacada atuação em combate. Foi autor das seguintes publicações: Livro - Genealogia do Brigadeiro Jeronymo Joaquim Nunes e dos Arrudas e Sá de Mato Grosso, 1992; Artigos - Conquista de Montese vista por um Comandante de Pelotão de Ataque (Revista do Exercito - 1985); Projeto Montese (Revista Defesa Nacional - 1988); "E ele não voltou..." (Revista do Clube Militar).

Dados enviados por Diana Oliveira Maciel


O Batalhão do Ten. Iporan, dias antes da Conquista de Montese
Arquivo Diana Oliveira Maciel

 

PERGUNTAS E RESPOSTAS ACERCA DO PROJETO "HISTÓRIA ORAL DO EXÉRCITO NA 2ª GUERRA MUNDIAL".
O entrevistado foi o Cel. IPORAN NUNES DE OLIVEIRA
Rio de Janeiro, 29 de maio de 2000

1. Como o Sr. se integrou a Força Expedicionária Brasileira e em que função?

R - Fui declarado Aspirante a Oficial pela Escola Militar do Realengo no dia 8 de janeiro de 1944. Na hora de escolher a Unidade para servir optei pelo 11º Regimento de Infantaria - Regimento Tiradentes - porque tinha conhecimento que se tratava de uma Unidade Expedicionária. Por esta razão, afirmo, com convicção, que integrei a FEB, como voluntário. Nessa Unidade passei a Comandar o 3° Pelotão, da 2ª Cia do 1º Batalhão. Permaneci à testa desse Pelotão durante toda a Guerra.

2. O Sr. chegou a participar, no Brasil, de algum exercício preparatório visando à Campanha que se avizinhava?

R - Sim, participei de mais de um exercício preparatório, sendo que o último foi com tiro real de artilharia. Nesse exercício, possivelmente por um erro de cálculo o meu Pelotão foi enquadrado pelos tiros. Caíram dois, que explodiram à retaguarda do meu Pelotão. Não houve vítimas, mas posso afirmar, com toda certeza, que foi meu batismo de fogo.

3. Qual a sua opinião sobre esse treinamento em relação ao emprego em campanha?

R - Esse treinamento foi de grande valia, bastante útil, mas acredito, que não foi na quantidade desejável; creio que foi muito aquém das reais necessidades em relação ao emprego em campanha.

4. Quais os principais fatores que, a seu ver, concorreram para o êxito do 3° Pelotão da 2ª Cia do 11° RI na conquista de Montese?

R - O principal fator que concorreu para o êxito do meu Pelotão para a conquista de Montese no dia 14 de abril de 1945 foi, fora de dúvidas, uma patrulha de combate, comandada por mim na antevéspera do ataque. Ocupava desde 10 de março de 1945, a posição defensiva da região de Biccochi, Cota 930, quando às 5 horas do dia 12 de abril, recebi ordem do meu Comandante de Companhia, Cap. Sidney Teixeira Álvares, por via telefônica para organizar uma patrulha de reconhecimento que, sob o comando de um sargento, teria por missão reconhecer a elevação de Montaurigola e, caso não encontrasse resistência, chegar até Montese. Estando ciente de que atacaria Montese em breve e de que o itinerário previsto para a patrulha coincidia, em linha geral, com o eixo de ataque programado para meus comandados, solicitei, por esse motivo, ao Cmt. de Cia. autorização para sair com uma pequena patrulha de reconhecimento, coberta pela patrulha principal, com o fim de melhor estudar o terreno que iria palmilhar. O Cap. Sidney encaminhou meu pedido ao Cmt. de Batalhão, Major Manoel Rodrigues Carvalho Lisboa, que decidiu que fosse só uma patrulha sob meu comando. Em face da decisão adotada, a patrulha, fortemente armada, com 21 homens, sendo 3 especialistas em minas, partiu às 9 horas de Biccochi alcançando Montaurigola, sem alterações. Após atingir a metade dessa elevação, que tinha a forma alongada, deparou com campo de mina, do tipo "shuchmine" (quebra-canela), que funciona com a pressão de 4 quilos. Passou, então, a atuar a equipe de minas, a qual abriu uma brecha no campo de cerca de 40 metros de comprimento por 1 metro de largura, retirando 82 minas. A patrulha, após cerca de 2 horas de espera, transpôs o campo minado, prosseguindo na sua missão. Ao aproximar-se da parte oeste da elevação, Cota 759, deparou com um P.A. (Posto Avançado) do inimigo, instalado numa casa grande, com dois pavimentos e muitas janelas, a qual tinha ao seu lado duas outras bem menores. Procuramos abordá-las com toda cautela. O esclarecedor ponta, Soldado José Leite Furtado, ao transpor uma cerca de arame farpado, foi atingido mortalmente por uma rajada de metralhadora. A patrulha respondeu imediatamente aos fogos, fazendo calar as resistências inimigas, tendo, possivelmente, abatido um soldado alemão, que se aproximou de uma das janelas. Num estudo da situação, conclui que um ataque frontal seria desgastante, por isso resolvi assaltar as casas pelo flanco direito do inimigo. Os reconhecimentos levados a efeito nesse flanco, concluiu que o terreno não era favorável, pois encontrava-se minado. Quando ultimava os reconhecimentos, noutro flanco, recebi ordem de retrair, porque a Artilharia Divisionária iria efetuar bombardeio na região e a patrulha já havia ultrapassado de muito o tempo programado. A patrulha, antes de por em execução a ordem recebida, recolheu o corpo do Soldado Furtado, que se encontrava morto muito próximo das casas. O tempo gasto pela patrulha foi de 5 horas, ou seja, das 9 às 14 horas.Resultados obtidos pela Patrulha: 1° Reconhecimento minucioso do terreno; 2° Localização e levantamento parcial de um campo minado, situado no terreno que estava previsto para ser, e realmente foi, uma das principais bases de partida do Batalhão para o ataque a Montese; 3° Localização de um importante posto avançado do inimigo. Em face do exposto, afirmo, com toda convicção, que o desempenho dessa patrulha foi preponderante para a vitória alcançada em Montese.

5. Como transcorreu o transporte da tropa para o TO (condições de vida a bordo, ameaças de submarinos inimigos, tempo de duração da travessia, condições de saúde, exercícios de abandono do navio, entretenimento)?

R - Transcorreu de modo geral muito bem. Houve preocupações quanto às ameaças de submarinos. Numa das primeiras manhãs a tropa ficou assustada quando iniciaram os exercícios de treinamento das guarnições, para combater a aviação e submarinos inimigos. O tempo de duração da viagem do 2° Escalão da FEB foi de 20 dias. Embarcamos no dia 22.9.944 e chegamos a Livorno em 11-10-944. A condição de saúde da tropa foi relativamente boa, durante a viagem. Havia quase diariamente, treinamento de abandono do navio; inicialmente houve grandes confusões, mas no final aprendemos e fazíamos com perfeição. Entretenimento: - Houve vários "shows" nos quais participavam como artistas, brasileiros e americanos membros da tripulação. Além dos "shows" haviam variados jogos de salão. Naquela ocasião, aprendi a jogar poker, o que faço até hoje, com relativa perfeição.

6. Como foi a continuação da preparação na Itália, antes de ser enviado ao "Front" (à frente de combate) e a adaptabilidade ao novo material de campanha, armamento e à alimentação?

R - De um modo geral a preparação, antes de ser enviado ao "Front", foi modesta. O ponto alto dessa preparação foi a ministração de alguns cursos para oficiais e graduados. Eu, por exemplo, tirei o curso de manuseio e emprego de minas terrestres, que me foi extremamente útil, durante toda a campanha. Recordo-me que, no ataque à Montese no dia 14 de abril de 1944, deparei com armadilhas colocadas na estrada, confeccionadas com cinco fios de arame fino, atravessando a estrada, tendo em cada extremidade uma mina antipessoal. Para fugir rapidamente da zona de grande risco neutralizei pessoalmente as minas, liberando a estrada. Houve rápida adaptação ao novo material de campanha e ao armamento em uso no Exército americano. Não me recordo muito bem quanto à adaptação à alimentação, mas acredito que não houve grandes problemas.

7. Conte-nos sobre o seu batismo de fogo.

R - O meu batismo de fogo foi dramático e extenuante. Entrei na LPR (Linha Principal de Resistência) na noite de 30 de novembro para 10 de dezembro de 1944. A substituição, sem interferência do inimigo, demorou quase toda a noite, e só terminou às cinco horas da manhã. Foi realizada rigorosamente dentro das normas regulamentares. Cerca das 22h do dia 10 de dezembro, os alemães atacaram a minha Cia. - 2ª Companhia de Fuzileiros, sob o Comando do Cap. Sylvio Schleder Sobrinho e a 1ª Cia. de Fuzileiros, comandada pelo Cap. Carlos Frederico Cotrim Pereira. Não foi ataque maciço, mas fortes patrulhas de combate. As Cias. resistiram bem ao ataque, apesar do forte nervosismo do Cap. Cotrim. Pouco mais tarde, cerca de 1 hora da manhã, nova investida dos alemães na frente da Cia. Cotrim, que mantém a posição não obstante a sua extrema excitação. No desenrolar dessas duas pelejas e na subseqüente, os nossos obuses e morteiros desencadearam poderosíssimas barragens de fogos em frente das referidas sub-unidades, barragens estas que eram reforçadas pelos tiros de uns tanques americanos, que nos apoiavam. Algumas horas depois, cerca das 3h30min da manhã do dia 2, nova investida dos alemães em frente a 1ª Cia. As 4h o Cap. Cotrim, extremamente agitado, após conversar com seus tenentes comandantes de Pelotões, abandona suas posições e vai parar no PC do 1º Batalhão, comandado pelo Major Jacy Guimarães. O Comandante do Batalhão, possivelmente surpreendido, não emprega a 3ª Cia. de Fuzileiros, que se encontrava em reserva e dá ordem a 2ª Cia. de Fuzileiros para retrair. Pouco depois das 4h da manhã, quando a quietude voltou a reinar na frente de combate, recebo ordem, via telefônica, para retrair com o Pelotão. Surpreendido, ponderei ao Cap. Schleder informando-lhe que não tínhamos baixas, que o Pelotão estava com o moral elevado, e que estava em condições de manter a posição. Então, solicitei-lhe que procurasse confirmar a ordem. O Capitão desligou o telefone para pouco depois voltar a falar: "Tem poucos minutos para retrair, porque nossa artilharia vai encurtar o tiro". Retraímos mais ou menos em ordem, tendo ficado com uma pequena fração do Pelotão para cobrir a retirada. Não havia sido escolhida uma 2ª linha de resistência. Cerca das 7h da manhã o Major Jacy reuniu na retaguarda o Batalhão e começou uma exposição, procurando levantar o moral do Batalhão, objetivando recuperar as posições. Mal iniciou sua oratória os alemães bombardearam com tiro de morteiro os componentes do Batalhão. A tropa dispersa e alguns abrigam-se numa casa próxima. Após passar o bombardeio encontrei o meu Comandante de Cia., Cap. Schleder e disse-lhe: "Capitão, não vou atacar porque isso é uma insensatez, uma loucura". O Capitão olhou-me com uma expressão de grande cansaço, com os olhos avermelhados por não dormir nas duas últimas noites, mas nada me disse. Repeti a mesma frase e ele não se exprimiu, por gestos ou palavras seus sentimentos. Ficou impassível, só me encarando. Os poucos conhecimentos militares do novel 2° tenente de  infantaria me levaram a concluir que era uma loucura tentar recuperar à força uma posição, empregando a mesma tropa, que há pouco havia sido desalojada dos seus abrigos; ademais levando-se em conta tratar-se de soldados bisonhos, em batismo de fogo e bastante extenuados. Após deixar o Capitão, rumei em direção à localidade de Sila, onde pensava poder repousar e, principalmente, comer algo. Encontrava-me em jejum desde as 12 horas do dia anterior, porque o jantar do dia precedente e o café daquela manhã não chegaram aos seus destinos, por interferência do inimigo. Depois de deslocar-me umas dezenas de metros encontrei o 1º Ten. Sidney Teixeira Álvares, Sub-Comandante da minha Cia. Logo depois ficamos sabendo que o 2° Ten. Ari Rauem, Comandante do 2° Pelotão da minha Sub-unidade não havia retraído. Corria, no local, a notícia que o Ten. Ari estava cercado pelos alemães e que havia declarado aos seus comandados: "que poderiam recuar aqueles que não estivessem preparados para o sacrifício". Eu, que momentos antes havia tomado aquela atitude de insubordinação que poderia me levar a ser tachado - com razão - de covarde, resolvi, por livre iniciativa e de comum acordo com o Ten. Sidney, organizar uma "ação de comando" para tentar salvar o bravo oficial. Em poucos minutos recrutamos vinte e um voluntários. Com farta munição e com grande estoque de granada de mão e de fuzil, aproximadamente às 9 horas, partimos em socorro do Ten. Ari. Após cerca de uma hora de marcha, encontramos o grupamento do Ten. Ari. Lá soubemos que o seu Pelotão, após receber ordem de retrair, recuou cerca de quatrocentos metros, não sendo hostilizado pelo inimigo. Ao clarear o dia, o valoroso Ten. Ari comandando uma patrulha, retornou às suas antigas posições, que estavam intactas, pois não foram ocupadas pelos alemães. A patrulha do Ten. Ari recolheu uma infinidade de armamento e material de campanha do Batalhão, que foram abandonadas por ocasião do recuo desordenado. Verifica-se que no meu batismo de fogo tomei três atitudes quase antagônicas. A primeira, bastante positiva, ao insistir com o Comandante de Cia. para não retrair; a segunda, tomando uma atitude de insubordinação, que me poderia levar a ser tachado de covarde; a terceira, também bastante positiva, resolvi, por livre iniciativa e de comum acordo com o Ten. Sidney, organizar uma patrulha de combate para tentar salvar um oficial da Sub-unidade, que tudo indicava estava sendo hostilizado pelo inimigo. Estes meus desempenhos contraditórios, no meu batismo de fogo, não constaram das minhas alterações. Soube, posteriormente, que o Cap. Cotrim, Comandante da 1ª Cia; o Cap. Schleder, Comandante da 2ª Cia e o Cap. Augusto Guimarães Tinoco, Comandante da Cia. de Comando do 1º Batalhão, não aceitaram a ordem do Major Jacy para retomarem às suas posições. Os três Capitães citados foram presos, perderam os Comandos das suas Cias e responderam a um Conselho de Guerra, sendo o Cap. Cotrim condenado a 1 ano e oito meses de prisão. 

8. Como sentiu a influência do clima, notadamente do rigoroso inverno europeu, no desenrolar das operações e na saúde da tropa?

R - O rigoroso inverno pouco influiu no estado de saúde do meu Pelotão. O soldado brasileiro, com grande capacidade de adaptação, substituía a meia e a bota por palhas de trigo, que eram colocadas dentro da galocha, protegendo os pés, que era o ponto mais sensível ao frio. O inverno foi utilizado pela cúpula militar da FEB para treinamento da tropa. Quase todas as noites cada pelotão da LPR (Linha Principal de Resistência) enviava, em média, uma patrulha às linhas inimigas. Eu, pessoalmente, comandei cerca de cinco patrulhas durante o inverno. No ponto de vista de combatividade, vejo dois exércitos distintos, um antes e outro depois do inverno. Acredito que meu pelotão não teria condições de conquistar Montese, se não tivesse adquirido os treinamentos durante o inverno.

9. Qual a sua opinião a respeito do desempenho em campanha dos nossos profissionais - Oficiais e Graduados - considerando que passaram a conviver com a guerra, sem a oportunidade de realizar o treinamento desejável?

R - Julgo que os nossos profissionais - Oficiais e Graduados - quase de um modo geral, tiveram bom desempenho em campanha, apesar de não terem realizado um treinamento desejável. A preparação psicológica é de grande importância. Tivemos uma experiência super desagradável na minha Companhia, que foi a seguinte: - Três ou quatro dias antes do combate a Montese o 1º Ten. Nelson Lopes, Comandante do 1º Pelotão de Fuzileiros foi ferido, atingido por estilhaços de uma granada de artilharia. Mandaram para substituí-lo, dois dias antes do ataque um 2° Tenente, oriundo do CPOR e que se encontrava no depósito de pessoal. Quando o colocaram no Comando do Pelotão, simplesmente declarou que não tinha condições psicológicas para comandar. O Pelotão entrou em combate comandado pelo Sargento Auxiliar, que o fez com deficiências por falta de preparo profissional.

10. Externe sua opinião sobre o desempenho do soldado brasileiro em combate (disciplina, iniciativa, criatividade, resistência à fadiga, coragem, etc.).

R - Reputo o soldado brasileiro, nos pontos de vista enfocados, como bons e mesmo ótimos, quando devidamente instruídos e bem enquadrados.

11. Como foi o relacionamento com a população local?

R - De um modo geral muito bom. Durante a guerra, muitas vezes, convivíamos na mesma casa ou em casas vizinhas com os italianos e eles procuravam, dentro de suas poucas possibilidades, cooperar conosco. Em 1995, tive a honra e satisfação de representar a FEB nas comemorações dos cinqüentenários da conquista de Montese. A representação brasileira foi recebida excepcionalmente bem, tanto por parte das autoridades locais, como por parte da população em geral. Naquela ocasião inauguramos dois magníficos e artísticos monumentos, sendo um no Monte Castelo e outro em Montese, ambos nos homenageando como libertadores.

12. Como sentiu o apoio de saúde e o apoio religioso à tropa combatente?
R - Não tive oportunidade de conviver com estes dois órgãos da FEB, mas tenho conhecimento que funcionaram muito bem. No meu Pelotão, com um grande número de mineiros Católicos Romanos, costumavam, os que não estavam em posição, rezar em conjunto, quase sempre ao cair da noite. Eu procurava, dentro do possível, incentivar esta salutar prática religiosa.

13. Qual a sua opinião sobre o soldado inimigo?

R -  Está fora de dúvida que o soldado alemão é um magnífico combatente. Demonstrou isto na Itália e noutras frentes de combates em que atuou.

14. Gostaria de destacar mais algum aspecto impressionante ou fato marcante durante a campanha dos APENINOS?

R - Sim, gostaria. No dia 14 de abril de 1945 teve início no solo italiano a tão decantada ofensiva da primavera desencadeada pelo IV Corpo do Exército Aliado, que na ocasião tinha um efetivo de cinco Divisões, sendo 3 de Infantaria e 2 Blindadas, totalizando, aproximadamente sessenta mil combatentes. Das Divisões de Infantaria quero enfocar a brasileira e a 10ª Divisão de Montanha dos Estados Unidos, por se tratar da melhor tropa Aliada, existente nos campos de batalha da Itália. O IV Corpo tinha por missão desalojar os alemães que estavam fortemente posicionados nos APENINOS, protegendo o vale do Rio Pó. Iniciado o ataque, os alemães reagiram violentamente, podemos dizer ferozmente, apoiados na sua adestrada infantaria e na sua poderosa artilharia. Cumpre-me ressaltar que nos violentos e mortíferos combates do referido dia 14, das 5 Divisões atacantes, só a brasileira conseguiu conquistar seu objetivo: - A cidade de Montese. Reservou-me o destino, a honra e privilégio de comandar o Pelotão que foi o primeiro a romper o dispositivo inimigo e penetrar em Montese, numa hora, num instante em que sofríamos pesadas perdas diante das bem instaladas resistências inimigas. O fato de a Divisão Brasileira ser a única a conquistar seu objetivo no primeiro dia da ofensiva da primavera, levou o Comandante do IV Corpo do Exército Aliado, general Willis Crittenberger a declarar, no dia 15, o seguinte: "Na jornada de ontem, só os brasileiros mereceram as minhas irrestritas congratulações; com o brilho de seu feito e seu espírito ofensivo, a Divisão Brasileira está em condições de ensinar às outras como se conquista uma cidade". No decorrer da ofensiva da primavera de 14 a 18, a FEB enfrentou os mais árduos e sangrentos combates, tendo sofrido, nestes cinco dias, 428 baixas, entre mortos, feridos e desaparecidos e fez 553 prisioneiros, estando incluídos, entre estes, cinco oficiais alemães.

15. O Sr. poderia nos relatar algum fato singular vivido pela sua Sub-unidade em COLECHIO e FORNOVO?

R - Nada a relatar. A minha Sub-unidade não participou dos combates de Colechio e Fornovo.

16. Qual a sua impressão do contato com as tropas aliadas em ação na Itália?

R - Tive pouco contato com as tropas aliadas na Itália. Os poucos que tive foram cordiais.

17. Qual a sua opinião a respeito do apoio logístico recebido?

R - O apoio logístico recebido posso dizer, com toda persuasão, que foi magnífico.

18. Quais os pontos que o Sr. ainda gostaria de destacar a respeito da atuação de sua Sub-unidade (ou do seu trabalho no Estado-Maior) na Itália?

R - Não tenho conhecimento que a minha Sub-unidade tenha participado de algum trabalho do Estado-Maior na Itália.

19. Que mais o impressionou na campanha da FEB?

R - Dois pontos me impressionaram na campanha da FEB. O primeiro foi o apoio logístico dos americanos, que foi grandioso; o segundo foi a grande capacidade do soldado brasileiro em adaptar-se às agruras da guerra.

20. O Sr. deseja fazer referência especial a algum integrante de sua Unidade ou de sua Sub-unidade?

R - Não desejo, porque já fiz.

21. Precisou o Sr. assistir e confortar seus subordinados em horas difíceis?

R - Não tive oportunidade nem necessidade de assistir e confortar meus subordinados em horas difíceis.

22. Como foi utilizada a propaganda durante a II GM na Itália, visando reduzir o moral do oponente?

R - Para ser sincero não me recordo como foi utilizada a propaganda alemã durante a II GM na Itália, mas posso afirmar, com toda convicção, que a referida propaganda não reduziu o moral do meu pelotão.

23. Como eram explorados psicologicamente os êxitos obtidos?

R -Desconheço que foram explorados psicologicamente os êxitos obtidos.

24. Que mais o Sr. gostaria de abordar a respeito da campanha?

R - Nada de especial a mais a abordar a respeito da campanha.

25. Como sentiu e comemorou a vitória dos aliados em terras italianas?
R - Tive conhecimento da vitória dos aliados em terras italianas, quando efetuava um deslocamento a pé. O pelotão recebeu a notícia com explosões de alegria e com hurras. Alguns soldados derramaram algumas lágrimas de emoção e satisfação.

26. Como foram os preparativos para o regresso ao Brasil?

R - A guerra terminou em 8 de maio e só retornamos em setembro. Nestes quatro meses de espera fiz grandes tochas, conhecendo muito bem quase toda a Itália. Tínhamos facilidades para excursionarmos: transporte (jipe) conseguíamos com facilidade; gasolina de graça, enchendo o tanque da viatura e o camburão de reserva; hotéis, controlados pelos americanos, com preços baixíssimos. Além disso, levávamos cigarros e chocolates para agradar os amigos e, sobretudo, as amigas italianas. A única preocupação que tínhamos era não nos ausentarmos por muitos dias, para não perder o navio de retorno ao Brasil. 

27. Como foi recebida a FEB após o seu regresso ao Brasil, em termos de homenagens pelas glórias obtidas, divulgação de seus feitos e dos conhecimentos adquiridos em campanha, principalmente no seio do Exército?

R - A FEB foi recebida calorosamente pelo povo do Rio de Janeiro. Considerando a minha destacada atuação na guerra eu sou muito homenageado pela sociedade em geral. Dezenas e dezenas de artigos de jornais, destacaram meus feitos. Tenho na minha biblioteca cerca de vinte livros nos quais sou citado. No seio do Exército, sobretudo nas Unidades em que servi, recebi muitas homenagens. Fiz alguns depoimentos e palestras, mormente com referência à conquista de Montese.

28. Na sua opinião, quais as conseqüências para o Exército da participação do mesmo no conflito?

R - Praticamente nula. Logo após sua chegada, os oficiais e componentes da FEB foram dispersados pelas Unidades militares do Brasil. Os graduados que foram convocados para a guerra, em sua maioria, foram licenciados. Havia no Exército uma espécie de tabu, com referência a assuntos da FEB. Praticamente, só recentemente, as Forças Armadas passaram a se interessar pela existência da FEB. Posso citar dois exemplos que ilustram bem esta minha afirmativa. O primeiro, hoje, 55 anos após o término da guerra, estamos reunidos, agora, para enfocar o "PROJETO HISTÓRIA ORAL DO EXÉRCITO NA 2ª GUERRA MUNDIAL".  O segundo exemplo: - Recentemente fui procurado por um Major de Infantaria, instrutor da Academia Militar das Agulhas Negras, para prestar um depoimento concernente à minha atuação na conquista de Montese, tendo em vista, que a AMAN resolveu ministrar aos cadetes, instruções sobre as atuações da FEB na Itália.

29. Quais as conseqüências na sua vida pessoal?

R - Bastante positiva. Tive a oportunidade de me destacar como combatente na Itália, o que ocasionou em tornar-me um oficial conhecido e respeitado no seio do nosso Exército, o que é motivo de honra e orgulho para mim.

30. Que mensagem final o Sr. gostaria de registrar nesse seu importante depoimento sobre a história de nossa FEB?

R - A FEB, a nossa querida FEB, tão esquecida por quase duas gerações de brasileiros, escreveu, nos campos de batalha da Itália, uma das mais belas e imorredouras páginas da nossa história militar, demonstrando que o patriotismo sempre habitará no coração dos brasileiros.

Dados enviados por Diana Oliveira Maciel


Iporan Nunes de Oliveira - 1948
Arquivo Diana Oliveira Maciel

 

AGRADECIMENTO

Agradeço, mais uma vez, a Diana Oliveira Maciel a gentileza pelo material que me enviou, não apenas sobre seu pai Iporan Nunes de Oliveira, mas também pelas outras fotos e textos sobre a FEB na Segunda Guerra Mundial, que tenho usado abundantemente na confecção dessas páginas.

Maria Auxiliadora Mota Gadelha Vieira

 

Um Herói nunca morre!

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As Origens
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