HISTÓRIA E GENEALOGIA
"Ninguém é bastante rico para comprar o seu passado"

 


Guerrilha do Araguaia
Texto da Revista Veja

A guerrilha do Araguaia é um episódio militarmente pífio mas que adquiriu uma aura mítica na história recente do Brasil. A esquerda radical costuma citá-la como exemplo de heroísmo, em que militantes lutaram até o último homem, tendo o Exército sumido com os corpos de todos os que morreram em combate. Os militares, por seu turno, se orgulham de ter evitado a proliferação de grupos terroristas como os que durante tanto tempo infernizaram a vida de outras nações sul-americanas. Os livros publicados sobre o assunto em geral ficam no tom panfletário, em que os episódios são contados ao sabor da ideologia do autor. Não existe um relato oficial da supressão da guerrilha no Araguaia. Sucessivos governos vêm renovando o sigilo sobre os arquivos do período.
Operação Araguaia – Arquivos Secretos da Guerrilha (Geração Editorial; 636 páginas; 59 reais), escrito pelos jornalistas Eumano Silva e Taís Morais, é a primeira obra sobre o assunto calcada primordialmente em documentos. O livro é valioso. Ele se baseia em 1.167 páginas de relatórios militares coligidos por Taís, filha de um oficial do Exército, que se valeu de relações familiares para ter acesso aos papéis secretos, com o compromisso de preservar a identidade dos que os forneceram. Os autores complementaram o trabalho entrevistando vários dos envolvidos. Alguns poucos documentos incluídos no livro já haviam sido publicados no jornal Correio Braziliense, para o qual Eumano trabalha, mas a maioria é rigorosamente inédita e está sendo exibida em primeira mão nesta reportagem de VEJA. Em duas semanas, a íntegra dos relatórios e documentos feitos pelos militares brasileiros que combateram os guerrilheiros estará disponível na internet no site da editora:
www.geracaobooks.com.br .
O livro questiona mitos, confirma suspeitas, mas, sobretudo, mostra que a luta foi mais encarniçada do que até hoje se supunha. Na virada dos anos 60 para os 70, parte da esquerda brasileira pegou em armas contra a ditadura militar. Mas só o Partido Comunista do Brasil, o PCdoB, conseguiu estabelecer, de forma consistente, aquilo com que todos os grupos armados sonhavam: um movimento guerrilheiro no meio da selva. Desde seu nascimento, em 1962, quando o Brasil ainda era uma democracia, o PCdoB já planejava fazer uma revolução partindo do campo, com o intuito de instalar uma ditadura comunista no Brasil. Sobre os planos do PCdoB há farta documentação publicada anteriormente. De inédito, Operação Araguaia traz relatórios militares redigidos com base em textos oficiais do partido. Neles, o PCdoB fala das razões de ter escolhido a região do Araguaia para a operação, "adversa ao inimigo, criando imensas dificuldades à sua atividade militar", e com um terreno "que possui condições ideais para a utilização da tática de guerrilhas". Deixa clara a intenção de criar uma "zona liberada" e a organização de um "exército regular". Cita como modelos os movimentos guerrilheiros do Vietnã, da Malásia e de Angola. Parte dos guerrilheiros do partido foi treinada na China. Em 1972 o PCdoB já havia assentado cerca de cinqüenta homens na região conhecida como Bico do Papagaio, na fronteira tríplice entre os estados do Maranhão, Pará e Tocantins. A movimentação dos guerrilheiros comunistas foi monitorada desde o início, mas o Exército, no princípio, não distinguia os militantes do PCdoB – que estavam lá desde 1966 e eram treinados em operações na floresta – dos integrantes esparsos de outras facções urbanas que haviam apenas se escondido na região sem um plano definido. A real intenção, o grau de preparo e o poder de fogo da guerrilha do PCdoB só ficaram mais claros para o Exército com um lento trabalho de espionagem e a colaboração de alguns guerrilheiros desertores.
Um documento inédito incluído no livro reforça uma das teses a respeito do assunto: a de que o Exército veio a saber da presença e da liderança do PCdoB na selva brasileira pela boca do guerrilheiro Pedro Albuquerque Neto. Casado com Tereza Cristina, também militante do partido, ele resolveu desertar quando a mulher ficou grávida – e o partido sugeriu a ela que fizesse um aborto. Os dois fugiram do acampamento em junho de 1971, levando parte do dinheiro da organização. Foram para Fortaleza. Pedro ficou lá, enquanto Tereza seguiu para a casa de parentes no Recife. O militante acabou preso em fevereiro de 1972. Torturado, revelou a existência de um movimento guerrilheiro organizado pelo PCdoB. Um resumo de seu depoimento foi enviado aos militares responsáveis pela Operação Cigana. Outro documento inédito faz referência à Operação Peixe, a primeira desencadeada contra a guerrilha. Achava-se que o Exército tinha iniciado suas diligências no Araguaia em meados de abril. A obra mostra que na verdade já havia soldados na região desde o fim de março. Esse é mais um indício de que o depoimento de Pedro desencadeou a operação. No livro A Grande Mentira, de 2001, no qual o general do Exército Agnaldo Del Nero Augusto reconta a história do ponto de vista dos militares, aparece outro nome como o responsável por fornecer, posteriormente, informações detalhadas sobre a guerrilha: o de Geraldo, codinome do atual presidente do Partido dos Trabalhadores (PT), José Genoíno. Escreveu o militar: "A prisão mais importante, ocorrida em 18 de abril (de 1972), foi a de Geraldo, que revelou a estrutura do PCdoB na área, fornecendo, também, a localização geral dos três destacamentos em que o partido estava organizado, bem como a constituição do seu próprio, que era o destacamento B". Operação Araguaia reproduz em livro pela primeira vez a íntegra dos depoimentos de Genoíno, nos quais o atual presidente do PT – que havia sido barbaramente torturado – realmente dá nomes de colegas, além de fornecer informações sobre a estrutura dos destacamentos, seus comandos e as armas que possuíam. "O que eu fiz não prejudicou ninguém. Meus companheiros tinham ordens para abandonar os locais onde estavam caso eu fosse preso, e isso efetivamente aconteceu", disse Genoíno a VEJA. O episódio é polêmico por envolver Genoíno, um dos cardeais do PT e um de seus líderes mais sensatos e de inequívoca vocação democrática. O livro Operação Araguaia entra em contradição no que se refere ao papel de Genoíno. No capítulo em que a história é contada, está escrito que Genoíno deu apenas codinomes. Nos depoimentos publicados nos anexos, no entanto, lêem-se vários nomes reais com os respectivos sobrenomes, entre eles os de João Amazonas e Maurício Grabois, principais dirigentes do PCdoB, que chefiaram as operações num primeiro momento. "Todos sabiam os nomes de Amazonas e Grabois, e os nossos também eram conhecidos na região, uma vez que muitos guerrilheiros haviam comprado propriedades usando a carteira de identidade verdadeira", esclarece Genoíno. A verdade é que não existe nenhum documento que comprove que algum integrante da guerrilha tenha sido preso em decorrência de informações obtidas pelos militares dos depoimentos de Genoíno. O Exército fez três campanhas no Araguaia. Nas duas primeiras, os melhores resultados foram obtidos na área de inteligência. Apenas na terceira ofensiva, iniciada no fim de 1973 com o uso intensivo de pára-quedistas e outras tropas de elite, conseguiu exterminar o inimigo. Foi uma operação de guerra que visava a matar os insurgentes. Fazer prisioneiros não era prioridade. Os corpos de 59 militantes do PCdoB estão desaparecidos até hoje. Um dos documentos mais impressionantes contidos no livro é o relatório da Operação Marajoara, realizada na terceira campanha, que traz duas revelações. A primeira é o relato de integrantes do PCdoB que se entregaram e, mesmo tendo se rendido, não mais apareceram vivos ou mortos. O relato da Operação Marajoara deixa claro que houve execuções ou mortes acidentais de guerrilheiros submetidos a interrogatório. Sobre isso não há muita novidade. Diversos depoimentos reproduzidos em outras obras dão conta dessa brutal faceta da guerra no Araguaia. O livro Operação Araguaia, no entanto, fornece uma prova documental. Outro trecho interessante do relatório, que é de junho de 1974, é o que faz o balanço oficial do estado dos militantes da guerrilha naquele momento. Os depósitos de alimentos e medicamentos haviam sido destruídos, grande parte das armas tinha sido confiscada, vários dos militantes estavam doentes e parte deles começava a desertar. Ou seja, a guerrilha estava exangue. Mais adiante, no mesmo documento, os militares do Exército envolvidos na operação expressam sua disposição de persistir até a "eliminação total das forças guerrilheiras". Eles adiantam que "uma interrupção da Operação Marajoara, antes da destruição total do inimigo, poderá possibilitar seu ressurgimento, ainda com maior vigor e experiência". Do ponto de vista estritamente estratégico, não se pode discordar da análise dos militares. As guerrilhas comunistas em outros pontos da América Latina ressurgiram quando parecia que haviam sido totalmente desbaratadas. Não se pode esperar, também, que enfrentando guerrilheiros do Terceiro Mundo o Exército brasileiro pudesse agir como uma instituição militar do Primeiro Mundo. Mas tais circunstâncias incontornáveis não justificam a decisão de matar todos os inimigos e não fazer prisioneiros, como parece ter sido a determinação na terceira e decisiva fase do combate à insurgência comunista no Araguaia. O inglês John Keegan, um dos maiores historiadores militares da atualidade, diz em seu relato espetacular dos choques armados A History of Warfare (Uma História da Guerra) que nesses casos são comuns as hostilidades, mas "são também sempre uma afronta à honra militar".Não existem provas de que houve uma decisão oficial do Exército de eliminar fisicamente todos os guerrilheiros. Sabe-se, de forma indireta, que houve desacordo interno sobre a questão. Vários militares que se pronunciaram recentemente sobre o assunto condenaram a solução radical e, de acordo com a autora Taís Morais, muitos dos que foram ouvidos por ela também repudiaram o desfecho. "Era uma decisão polêmica na corporação, e até hoje não se sabe exatamente de onde partiu a ordem", diz Taís. O relatório da Operação Marajoara incluído no livro leva o carimbo do Ministério do Exército. No livro A Ditadura Derrotada, o jornalista Elio Gaspari, ex-diretor adjunto de VEJA, reproduz uma frase do general Ernesto Geisel, em conversa sobre subversão com o general Dale Coutinho, em que ele diz: "Esse troço de matar é uma barbaridade, mas eu acho que tem que ser". Um trecho de conversa entre generais é evidência insuficiente de que havia ordens superiores para eliminar os guerrilheiros, mesmo os que se rendessem. Evidência maior pode ser o fato de, até onde se sabe, nenhum militar ter sido punido por seus excessos no combate à guerrilha. As famílias dos militantes do PCdoB que morreram no Araguaia foram indenizadas pelo Estado brasileiro. Um documento inédito revelado pelo novo livro é um relatório produzido pelo Ministério do Exército, datado de 1985, com uma lista de baixas do Exército durante a guerrilha. O levantamento contabiliza sete mortos e oito feridos. Os autores acreditam que houve mais baixas. Nem todas as famílias de militares foram indenizadas, pois a algumas se omitiu o fato de que seus parentes estavam em combate contra a guerrilha. Entre as cinco ouvidas pelos autores do livro, apenas duas haviam recebido indenização – uma terceira recorreu à Justiça civil e duas simplesmente não ganharam nada. A primeira morte de militar, a do cabo Odílio da Cruz Rosa, é descrita em detalhes no livro, reconstituída por meio de entrevista com o tenente Nélio da Mata Rezende, que presenciou a cena. Odílio foi abatido com um tiro de espingarda na virilha, disparado provavelmente por Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão, um dos líderes da guerrilha. Os dois militares estavam no meio da floresta, a léguas do posto de saúde mais próximo, de forma que Odílio sangrou até morrer e seu corpo só foi resgatado dias mais tarde. O próprio Osvaldão seria morto por um tiro de espingarda, dois anos depois, disparado por Arlindo Piauí, um mateiro que servia de guia para os militares. Também sangrou até morrer. Seu corpo foi exibido pelo Exército em vários povoados da região para servir de exemplo. Os dois episódios servem para ilustrar a violência que reinou no Bico do Papagaio entre 1972 e 1974. Além de se embasar em farta documentação, Operação Araguaia tem o mérito do equilíbrio, prendendo-se aos fatos e evitando o tom panfletário. O defeito do livro é a ausência de notas de rodapé e de uma melhor contextualização dos documentos. Em busca de uma narrativa fluente, os autores preferiram dar ênfase à descrição das manobras militares e ao perfil dos personagens. O Brasil que emerge de Operação Araguaia é um país radicalizado cujos habitantes se matavam uns aos outros como se fossem talibãs. Esse país, felizmente, pertence ao passado.

MILITANTE TORTURADO DENUNCIA O PCdoB

O guerrilheiro Pedro Albuquerque Neto desertou do Araguaia quando sua mulher, Tereza Cristina, ficou grávida e o PCdoB recomendou que ela fizesse um aborto. Os dois fugiram com parte do dinheiro da agremiação. Pedro foi preso em Fortaleza e revelou a existência do movimento organizado. O documento acima, da chamada Operação Cigana, mostra que o combate começou logo após o seu depoimento.

MILITARES MORTOS EM COMBATE

Até pouco tempo atrás não se sabia quantos militares haviam morrido na luta com a guerrilha. Um levantamento feito em 1985 contabiliza sete mortos e oito feridos. Os autores de Operação Araguaia contataram cinco famílias de militares que perderam parentes na operação. Dessas, apenas duas haviam recebido algum tipo de indenização do governo


José Genoino no Araguaia
Foto publicada pela Revista Veja

A GUERRILHA E JOSÉ GENOÍNO

O atual presidente do PT já recebeu acusações, à direita e à esquerda, de ter entregue companheiros do PCdoB. Operação Araguaia traz cópias de seus depoimentos à ditadura. Barbaramente torturado, Genoíno realmente deu nomes de militantes e revelou detalhes das operações. Ele alega que o que revelou não prejudicou ninguém, pois os guerrilheiros tinham ordem de se esconder caso um deles fosse preso. O fato é que não existe prova de que o Exército tenha prendido alguém baseado nas declarações do atual presidente petista

Texto publicado na "Revista Veja" de 13 de abril de 2005


Pedro de Albuquerque Neto, Tereza e a filha Izabela, no lançamento do livro
de Joatan Freitas "68 - A Geração que queira mudar o Mundo - Relatos"  - 2012

 

Guerrilha do Araguaia
Resposta à Revista Veja

 

Ottawa, Canadá, 23 de abril de 2005 

À Revista VEJA,

Acerca da reportagem de 13 de abril deste ano, sobre a Guerrilha do Araguaia, publicada nessa Revista, envolvendo diretamente meu nome, solicito a publicação, no mesmo espaço, dos seguintes esclarecimentos:
1. Tenho uma atitude serena e tranqüila diante da História. Vejo com desassombro todas as iniciativas no sentido de desvendá-la. Quando se me apresentam questões que visam à elucidação desse assunto, sempre estou disponível, deixando-me pesquisar, sem constrangimentos para a pesquisa ou o pesquisador. Meus propósitos - do mesmo modo que os propósitos de outros milhares de combatentes pela liberdade - nascem de um desejo sincero de contribuir para o pleno esclarecimento de tudo que diz respeito a esse episódio heróico de nossa juventude. Entretanto, é esta também minha expectativa quantos aos que guardam em seus baús os arquivos secretos. Com esse espírito, manifesto meu assombro e indignação quanto à tendenciosa reedição da PERSISTENTE, ARTICULADA E ESTRATÉGICA AÇÃO NO SENTIDO DE EFETUAR O LINCHAMENTO DE ALGUNS E A GLORIFICAÇÃO DE OUTROS. Aproveito para esclarecer que essa linha de ação foi totalmente estruturada ainda no início da Guerrilha do Araguaia.
2. Sobre as informações veiculadas na revista VEJA, declaro que prestei, em Fortaleza, ao Sr. Eumano Silva e à Sra. Taís Morais, autores do livro "Operação Araguaia", informações particularmente relacionadas com duas peças de depoimento oriundas do sistema de informações da ditadura, de um militar que a revista revela ser o pai da autora. Apresentaram-se a mim como jornalistas e, no caso do Sr. Eumano, como ex-militante e amigo do PCdoB, o que me fez ficar mais à vontade e recebê-los sem desconfiança, pois nunca deixei de manter com o PCdoB, seus dirigentes e militantes, as melhores relações. Indiquei as contradições dos documentos, nos quais haviam declarações prestadas sob tortura e informações a mim falsamente atribuídas. Disse-lhes que era visível um fato: o serviço de informações se esmerou em condensar numa só peça declarações de diferentes sessões de tortura, ocorridas em dias e locais diferentes, em Fortaleza e em Brasília, evidenciando uma armação meticulosamente engendrada - mas que surge apenas como "uma das teses sobre o assunto", como admite a revista.
3. Informei-lhes que, seguramente, não partiram de mim, informações sobre a existência da guerrilha e que minhas declarações ocorreram no curso da coleta de informações de há muito já conhecidas da inteligência militar. Michéas Gomes de Almeida, o Zezinho do Araguaia, o único guerrilheiro que participou de todas as fases dos combates, está à disposição para informar que as forças oficiais realizaram, em 1970 e 1971, manobras precisamente na região do Bico do Papagaio, chegando a despejar no solo, entre outros artefatos, bombas napalm, num exercício efetuado em Marabá; que a ditadura sabia seguramente da nossa presença na região e que eu fui tão somente um pretexto, usado para justificar e legitimar a violência ostensiva que se consumava com a invasão e ocupação militar da região. A própria matéria publicada na revista Veja afirma que "A movimentação dos guerrilheiros comunistas foi monitorada desde o início", que a atividade do Exército consistiu em distinguir os militantes do PCdoB - que estavam lá desde 1966 e eram treinados em operações na floresta - dos integrantes de outras facções urbanas escondidas na região sem um plano definido, implicando isso num lento trabalho de espionagem acerca da real intenção, o grau de preparo e o poder de fogo da guerrilha do PCdoB. À página 59 do livro Operação Araguaia os autores afirmam: "Desde meados do ano anterior (1971), a comunidade de informações falava sobre o deslocamento de subversivos para o Bico do Papagaio". À página 189, o funcionário do INCRA, Moacir de Almeida Gomes, revela que "ouvia falar sobre pessoas estranhas nas proximidades de Palestina e Brejo Grande desde o final de 1971", que, "com a construção da Transamazônica, mudaram-se para pontos mais distantes na mata".
4 ) Por último, e somente por último, a revista fala na "colaboração de alguns guerrilheiros desertores". Quem seriam esses guerrilheiros que sequer teriam entrado em combate? Por que a revista não informa? Por que Lúcia Regina de Sousa Martins, que possuía uma alta patente militar em sua família e sumiu de um hospital em Anápolis, sem o conhecimento de Elza Monnerat em dezembro de 1971, chegando na casa de seus pais no dia 19, é absolvida com tanta generosidade (e não faço restrições a esse tratamento em relação a ela que, tanto quanto eu, se entregou ao mesmo sonho), enquanto sou novamente martirizado? Citada nas páginas 45 a 47 e em outros momentos do livro, ela pode ser tão vítima quanto eu, mas por que são usados dois pesos e duas medidas?
5) Recusei-me a assinar várias peças de declarações forjadas. Forjadas e mentirosas, do mesmo modo que qualquer assinatura que seja apresentada como de minha autoria, mesmo nos momentos de profunda alucinação pelos quais passei, em decorrência do ambiente de barbárie e de cruéis torturas, continuadas, ao longo de quatro meses de convivência com a besta-fera. Nenhum dos senhores e senhoras, que fazem essa revista ou escreveram esse livro, é capaz de imaginar ou seria capaz de suportar o que os jovens prisioneiros políticos suportamos. O que eu desejo é apenas que se respeite minha condição de brasileiro que não capitulou e persistiu ao longo dessas mais de três décadas na luta por um Brasil próspero, justo e feliz.
6) Se a revista Veja tem o poder de absolver diante da História meu amigo e ex-camarada de PCdoB, José Genoíno Neto (e, para mim, ele merece essa compreensão, até porque ele é vítima, tanto quanto eu), sob a alegativa de que suas informações não levaram à prisão ou execução de ninguém, pois a orientação era mudar de área em caso de prisões ou desaparecimentos, por que insistiu em afirmar o contrário a meu respeito? Fui preso apenas em março de 1972 quando cometi a ingenuidade de pensar que poderia voltar a minha vida normal, retomando o curso de Direito, como se nada tivesse acontecido. Nesse período de uma gestação muita coisa ocorreu na região da Guerrilha. E afirmo seguramente que ninguém ficaria nem um dia na área onde moramos até junho de 1971, pois, nesse preciso aspecto, é verdade o que diz Genoíno. Sei que sou apenas um simples professor universitário e estou muito aquém das honras que a grande imprensa deve ao presidente de um partido que exercita o poder no Brasil. Mas a Veja há de admitir que em matéria de ética e isonomia de trato não mereço esse linchamento.
7) As informações repassadas pelos sinistros elementos do serviço secreto de informações da ditadura e divulgadas nos meios de comunicação são informações parciais e unilaterais, não merecem confiança. Ocultam, por exemplo, a evidente participação estrangeira na repressão e os rotundos fracassos das forças oficiais. Como diz a revista, "Os corpos de 59 militantes do PCdoB estão desaparecidos até hoje". Isso está em consonância com a tese igualmente mencionada pela revista de que "Não se pode esperar, também, que enfrentando guerrilheiros do Terceiro Mundo o Exército brasileiro pudesse agir como uma instituição militar do Primeiro Mundo". Desse modo, essas informações se limitam a manipular dados, sempre introduzidos pela via da força e da covardia, nos depoimentos arrancados de jovens generosos, lutadores das causas da liberdade e do humanismo, destroçados física e psicologicamente por torturas impiedosas que visam a desintegração moral do torturado. Quem dá irrestrita credibilidade a essa pantomima, como disse há dois anos a Eumano Silva meu amigo Luiz Carlos Antero (jornalista, sociólogo, escritor e assessor parlamentar do PCdoB, membro de duas expedições de pesquisa da Câmara dos Deputados ao Araguaia e autor de vários textos sobre essa Guerrilha), legitima o torturador, participa da sua ação de torturar, em plena harmonia e parceria com o algoz, e renova o calvário do torturado.
8) Ademais, comete um crime histórico, a partir de preconceitos atávicos, quem ignora as opiniões e análises do principal protagonista, do sujeito histórico e institucional mais relevante da Guerrilha do Araguaia (tratando como "pífio" um episódio de luta que durou três anos e expressou a maior mobilização de tropas desde a Guerra de Canudos, como admite o livro): o Partido Comunista do Brasil. A versão desse partido - que, em três publicações, retificou as informações a meu respeito - não combina em nada com a versão dos serviços de informação da ditadura, estranhamente assumida pelos autores do livro e por esta Revista. Esses, entretanto, silenciam acerca de informações cruciais: quanto aos torturadores, aos locais de tortura, ao destino dos mortos, friamente mortos por criminosos de guerra, aos informantes infiltrados, ao serviço de espionagem sobre o terreno, a quem efetivamente denunciou e detalhou a preparação das ações guerrilheiras.
9) Tudo isso me leva a questionar e a suspeitar do verdadeiro objetivo do repasse dessas informações e a duvidar dos propósitos dos pesquisadores e o dessa Revista: se é o de contribuir para elucidar um episódio histórico ou de coonestar a meta dos relatórios militares - que mantém a velha tradição das elites brasileiras, escrevendo a história de acordo com a ótica do vencedor e semeando confusão mediante o planejado linchamento moral dos que deram o melhor de suas vidas e, muitos, até a própria vida, para construir a liberdade de que, hoje, todos nos beneficiamos. A própria revista ressalta que "Evidência maior pode ser o fato de, até onde se sabe, nenhum militar ter sido punido por seus excessos no combate à guerrilha".
10) Não há, portanto, dúvida quanto aos objetivos do repasse dessas informações parciais: pretendem disputar o espaço da memória histórica e, via o enfraquecimento ético, reduzir ou neutralizar a força moral das vítimas dessa atroz brutalidade na construção dessa memória. Cabe-nos continuar as buscas, exigindo a verdadeira abertura dos arquivos.
11) Por fim, quero informar que o conteúdo dessas minhas declarações contam com o mais irrestrito respaldo de Tereza Cristina de Albuquerque, também citada na reportagem e que, à época dos acontecimentos, era minha esposa.
Querendo fazer parecer
Atenciosamente,

Pedro de Albuquerque Neto


Pedro, Izabela e Tereza - 2012

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Adresses et courriels de Pedro de Albuquerque Neto
Bureau :
Université d'Ottawa
Faculté d'études supérieures
Departement de criminologie
CRC en Traditions juridiques et rationalité pénale
Laboratoire de recherche
30, rue Stewart, pièce 306
Ottawa, ON -Canada KIN 6N5 
Téléphone: (613) 562.5800, poste 2351
Résidence :
180, rue Murray, apt. 9
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Téléphone: (613) 562.9420
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O aborto que Pedro e Tereza não deixaram acontecer:
sua filha primogênita Izabela, médica e mãe de dois filhos, no seu aniversário de quarenta anos.

Obs. As fotos desta página foram gentilmente cedidas por Izabela Cavalcanti Albuquerque Rocha.

 

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