Minha Mãe, Yvonne Gadelha Vieira

Nascida Yvonne Borges Gadelha em Fortaleza, aos 22 de outubro de 1920, viveu sua infância no casarão da Rua General Sampaio que pertencera ao Dr. Meton de Alencar, seu bisavô paterno. Este médico destacou-se como cirurgião do Exército no Corpo de Saúde da Guerra do Paraguai, tendo sido pioneiro na transfusão de sangue no Brasil.
Seu pai, Meton de Alencar Gadelha, era proprietário da Tipografia Gadelha, o mais bem aparelhado estabelecimento tipográfico do Ceará. Adquirido em 1933 pelo estado, tornou-se a Imprensa Oficial do Ceará. Em 1930, Meton Gadelha construiu seu elegante bangalô no aristocrático bairro de Jacarecanga, instalando-se ali com sua família. Em 1931 ele fundou com onze amigos o Ideal Clube - que se tornaria o mais tradicional clube de Fortaleza -, uma sociedade que logo se reduziria a seis proprietários a partir de 1936. Meton Gadelha compôs esse restrito grupo até 1953, quando ocorreu uma abertura societária para 250 novos acionistas, tendo recebido na ocasião a distinguida Ação nº 1, por ele então presenteada ao seu genro, esposo de Yvonne.
Maria Guiomar Borges Gadelha, sua mãe, era filha do cearense Joaquim de Oliveira Borges, radicado em Pernambuco, proprietário de engenhos de açúcar. Nascida em Recife, Maria Guiomar aos quatro anos de idade, após o falecimento de seu pai, mudou-se para Fortaleza com sua mãe, crescendo no seio da tradicional família Borges.

Acompanhando a vida social e familiar de seus pais, Yvonne reforçou os traços de sua personalidade comunicativa e gregária. Em 1933, aprimorando sua educação, Yvonne e a irmã Yolanda - futura escritora e esposa do Gen. Tácito Theophilo - ingressaram como alunas internas no Collège Sacré Coeur de Jésus, no Rio de Janeiro. Em uma das suas viagens à então capital do país, pela Companhia de Navegação Costeira, proprietária dos navios ITA, Yvonne conheceu o estudante da Escola Naval Mário Camara Vieira, filho do banqueiro e industrial cearense Luiz Jorge de Pontes Vieira. Casaram-se em 20 de fevereiro de 1941, tornando-se pais de Luiz Sérgio, Vanius Meton, Antônio Eugênio, Mário Jorge, Augusto César, Ana Maria e Paulo Ernani, com vasta descendência.

Mário Camara Vieira foi banqueiro, industrial e agropecuarista, tendo participado de entidades representativas das classes comerciais, industriais e bancárias. Vice-presidente do Banco União S/A, dirigiu a Fábrica de Fiação e Tecelagem Santa Maria Ltda. e a Empresa de Terrenos Ltda., pioneira no loteamento dos terrenos de Fortaleza, que originou grande parte dos atuais bairros da cidade. Administrou a fazenda Barrigas em Quixeramobim, distinguida pelo aprimorado plantel de gado da raça Nelore, além de sítios de café na Serra de Guaramiranga.

Em 1952, Yvonne organizou na Fábrica Santa Maria, a visita da Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima por ocasião de sua primeira vinda ao Ceará. Em um espaçoso galpão fez edificar um grande altar, contornado por seus filhos e sobrinhos menores, paramentados como anjos, nele encimados. Após a cerimônia religiosa, uma revoada de pombos sensibilizou a multidão de fiéis, enquanto os anjinhos distribuíam flores tocadas na imagem da Santa. Inovações originais como essa brotavam amiúde e espontaneamente da sensibilidade de Yvonne.

Destacado na sociedade, o casal Yvonne e Mario frequentava os clubes elegantes de Fortaleza. Diretor do Ideal Clube e vice-presidente por quatro anos do Náutico Atlético Cearense, Mario Vieira pertenceu ao Conselho Deliberativo deste último por 36 anos ininterruptos, sendo agraciado como Conselheiro Permanente, o que levou o colunista social Lúcio Brasileiro a identificá-lo como uma das eternas “Colunas do Náutico”. Sócio fundador do primeiro Lions Clube do Ceará, Mario Vieira, em 1955, assumiu sua presidência, criando o “Banco do Livro”, destinado à distribuição de livros didáticos às crianças carentes. A colaboração de Yvonne foi relevante nessas atividades benemerentes, tendo inclusive anfitrionado um espetáculo beneficente no Theatro José de Alencar com a grande atriz Bibi Ferreira. 

A  afetividade de Yvonne foi um traço marcante em sua personalidade. Sua comunicação espontaneamente empática cativava as pessoas. De ânimo alegre e espirituoso, estava sempre disposta para o bem que a vida lhe oferecia, suportando as incontáveis atribulações com bravura. Raríssimas pessoas a viram chorar. Colocava apelidos carinhosos em sobrinhos e pessoas queridas.
Sua sensibilidade aguçada – e porisso difícil de ser controlada em seus verdes anos – foi ao longo de sua existência adequando-se a uma inteligência prática e à sabedoria da vida. Incomodava-se com a insensibilidade e incompreensão das pessoas.
Dona de uma belíssima caligrafia escrevia com clareza suas ideias e sentimentos. Pintou expressivos quadros a óleo, decoradora sensível, cultivou o bordado e tornou-se exímia boleira e doceira, sendo sua especialidade a saborosa sobremesa “ambrosia”. Ensaiava peças teatrais protagonizadas por seus filhos e sobrinhos nas festas familiares.

Arguta e bem informada, participava ativamente das discussões sobre política e negócios da família. Lamentava ter nascido em um tempo diferente de hoje, sem as múltiplas oportunidades profissionais de suas netas, capazes de levar à conquista de uma emancipação econômica e social. Demonstrava sempre coragem, tenacidade e objetividade em suas decisões. Nunca solicitava ajuda, mas estava sempre disponível para confortar as pessoas. Dizia não temer a morte, confirmando suas convicções espirituais a todos que acompanharam seus últimos momentos conscientes, lúcidos, serenos e criteriosos. Faleceu confortada com a presença de filhos, netos e bisnetos em dois de janeiro de 2014.

Vanius Meton Gadelha Vieira

 

Página formatada em 07 de janeiro de 2014

 

Veja:

Cântico de Agradecimento e Homenagem

Ode à Tia Yvonne

 

 

 

 

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