Acácia querida!

Era menino quando plantei uma acácia. Papai trouxe as sementes não sei donde e mamãe preparou-as para o plantio. O local foi de minha escolha: no topo da colina onde costumava brincar. Porque lá a brisa cuidava de embalar minhas pipas, o olhar perdia-se num horizonte doirado, as gramíneas, mesmo pisadas pelas minhas correrias, eram viçosas, o céu parecia estar perto e os arrebóis eram mais púrpuros. De casa, da janela da cozinha, acompanhei-a a crescer.

Encorpou-se junto com a minha adolescência. Crescemos juntos. Aprendi muito debaixo da sua sombra, deslumbrando o vale auriazulado e ouvindo as aves solfejar. Os estudos assimilava-os com eficaz facilidade, talvez, pela quietude e beleza do lugar. Meus desabafos e lágrimas, ela os absorvia em cada galho e folha, ou quem sabe, já até os tenha exalado em alguma fotossíntese, e minhas súplicas estejam vagando por aí. Não sei. Sei que a frondosa acácia está arraigada em mim.

Ao partir para a cidade grande, não tive coragem de ir até ela. Da janela, olhei-a, admirei-a. Ela estava mais verde que de costume. Sua presença enchia a colina de paz. O vento brando tocava suas folhas e meu coração disparava angustiado pela separação.

O tempo passou... De vez em quando trocava correspondência com familiares. Estava no exterior quando do passamento de mamãe. Fora um choque lastimável. Quando pude visitar papai, foi pelo Natal. Chequei em casa já noite. A mesa da ceia estava posta. A tristeza era marcante em cada rosto. A falta de mamãe era inconsolável. Porém, a vida é assim mesmo: uns partem e outros ficam. Dirigi-me ansioso para a janela da cozinha. Ao abrí-la, meu olhar correu apresado para o topo da colina. Fiquei pasmo, hirto. No lugar dela, uma cruz luminosa resplandecia.
- O que é aquilo? perguntei ao meu pai.
-
Senta-se aqui, vou explicar-lhe!
- Alguns meses depois da sua partida, entre o outono e o inverno, ela começou a soltar algumas folhas - as folhas amarelavam e caíam. Imaginei ser um fenômeno natural, não liguei. De repente, ela ficou nua, completamente esfolhosa. Esperei a primavera e ela não folhou, então chamei um especialista. Ele fez os exames devidos e não encontrou justificativa para a sua morte súbita. As raízes estavam fortes e o solo com bom teor de umidade. Para não ficar aquele esqueleto de árvore na colina, resolvi fazer do seu lenho um Santo Cruzeiro. Iluminei-o, para que, durante a noite ele fosse visto de muito longe.

Não quis crer. Era uma árvore radiante, cheia de casulos e ninhos - definhou-se estranhamente. No dia seguinte, o sol não tinha repontado no horizonte quando fui à colina. Desta vez, não subi como dantes, cantando e saltitando. Chequei calado ao pé da cruz e toquei-a. Sorvi o perfume dela que ainda adensava o ar. A saudade veio à luz. Tenho-a viva na memória. Pois foi sob suas folhas, algumas acompanhando meus primeiros bosquejos, que me inspirei em ser artista plástico. Vou retratá-la com amor e estesia, para depois expor a obra nas conceituadas galerias de arte das grandes capitais. Não haverá dinheiro no mundo para comprar o quadro: "Acácia querida".

Edival da Silva Castro
Crônica enviada gentilmente pelo autor

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