O Aquário

Era um sonho... Um paraíso encantado à sombra de folhagens e o lusco-fusco das escamas vermelho-douradas dos peixes de diferentes tamanhos. As estátuas dos anõezinhos numa ilha de verduras davam o toque de Conto de Fadas.

O Aquário por muitos anos fez parte de minha fantasia... Os olhos das asas abertas do pavão espiavam as minhas lembranças. O mesmo espaço habitavam a onça malhada, os macaquinhos e o indolente jacaré. Balançando em minha saudade, no vai-e-vem dos brinquedos acenavam-me, de um tempo livre de ameaças e dores, perdido no passado.

Um dia, eu voltei. O peso dos anos, a minha história de vida, não conseguiram apagar o desejo de rever o paraíso perdido...

Três filhos e um sobrinho me acompanhavam. Cheguei ao portão e pedi que me deixassem entrar: vinha de tão longe, desejava mostrar aos meus filhos um local importante de meus primeiros anos.

Embargada, adentrei os portões do meu antigo "Jardim da Infância". O porteiro amigo só me permitiu fazê-lo, contra as ordens recebidas, porque ele também antecipava a sua saudade.

"A onça morreu...O resto dos bichos o prefeito vai mandar soltar no alto da serra, porque a prefeitura não tem como mantê-los..."

Lamentei a situação descrita, mais preocupada com minhas crianças que corriam pelos mesmos espaços onde eu brincara...

Minha filha, sem saber, sentou-se na minha cadeira de balanço predileta e, através dela, eu me enxerguei menina, despreocupada e feliz.
A historinha da Galinha Ruiva - a primeira que ouvi, contada naquele espaço - ressoou em meus ouvidos. Lembrei-me de uma queda daquela gangorra verde, numa manhã chuvosa.

Pensei ter divisado ao longe o "seu" Marinho chegando com os pedaços de carne para a alimentação da onça que tanto me fascinava... Os pássaros ainda cantavam, os macaquinhos faziam caretas e coçavam suas cabecinhas. Foram imitados pelos meus filhos, da mesma forma que eu os imitava, décadas atrás. Mas não encontrei o porco espinho...

"Um zoológico numa cidadezinha tão pequena... Que maravilha de prefeitos esta cidade teve até agora! Porque não podem continuar a manter isso? Não entendo!", comentou meu filho mais velho, esboço de um brasileiro politizado, buscando valores nos quais acreditar, aos onze anos de idade.

Quis retrucar que havia sido uma entidade maior - a FÁBRICA - que bancara este mundo encantado. Pensei em lhes contar das festas de Natal, do parque de diversões, da Roda Gigante e do Chapéu Mexicano girando doidamente, da farta iluminação de nossa pracinha...

Mas isso não mais existia a não ser nas recordações dos que vivenciaram estas belezas sem valorizá-las e julgando-as eternas. E falar para que? Netos de um industrial, eles jamais entenderiam a importância de uma simples fábrica em nossas existências... Nunca compreenderiam o que significou para Piquete e sua gente, por décadas, a Fábrica Presidente Vargas...

"E o Aquário?" perguntei ansiosa. "Ele ainda existe? Podemos ir até lá?" acrescentei temerosa.
"Claro", o amigo respondeu. "Só não tem mais os patinhos e os gansos. Mas também vai desaparecer. Venha vê-lo antes que acabe..."

Não pude conter as lágrimas: a mesma sombra fresca, as mesmas folhas e até o mesmo anãozinho! Meus filhos passeavam maravilhados por aquele espaço para eles também, naquele momento, encantado!

Eu não queria sair. Não podia deixar o recanto de meus sonhos, abandonar a paz das sombras generosas, cuja lembrança me seguira toda a vida.

........................................................................................................................

Os anos passaram mais uma vez. Soube que os balanços, os animais, o Aquário haviam desaparecido. Não fui conferir esta informação nunca. Não queria ver nem saber mais. Para mim ele ainda estava lá: relicário de paz e pureza! 

Então, um dia, recebi algumas fotos da Arlete : do "nosso" Aquário, ou melhor, das suas ruínas.

Quebrou-se algo em mim ao ver destruído o símbolo de meus sonhos infantis.
E eu chorei...

Maria Auxiliadora Mota Gadelha Vieira
Fortaleza, 16 ago 2004

 

 

 

Envie esta página para:

Digite o seu e-mail

Coloque seu nome

E-mail de quem a receberá

 

voltar