BAMBUAIS

Matas alinhadas de bambuais sempre foram visualizadas na paisagem piquetense. São, especialmente, marcas divisórias entre propriedades desde “o tempo do rei”, quando terras eram atribuídas aos súditos como forma de benesses. Súditos que as recebiam em troca de favores e sob determinadas condições.

Assim, o alinhamento dos bambuais como cercas vivas cumpria a sua função: dividia, marcava o espaço e protegia. Pois, sendo cerca viva, maleável sob a ação dos ventos, os bambuais podem, também, às margens dos rios, protegê-las do fragor das enchentes e dos depósitos de lama.

Além de dar sombra fresca nos dias de sol muito quente, o bambual, farfalhando suas hastes alongadas concede-nos melodias agradáveis ao ouvido. Comunicativas de espiritualidades. Nos ventos mais fortes, o fragor das hastes dramatiza-se como forças agigantadas em campos de batalha.

O cultivo dos bambuais foi uma tradição na vida do município nos tempos de andar a pé, à sombra benfazeja e no convite ao descanso. De repente, à margem dos rios, e ao lado dos barrancos, ou ainda nas encostas, os bambuais começam a desaparecer.

Bambuais têm sido queimados. Em nome de quê? A sua utilidade em ser paredão natural, portanto, protetivo, desprezada por seus destruidores, marca, negativamente, as ações humanas no meio ambiente. Enfraquecem- se os terrenos.

Consequência: deslizam blocos de terras e pedras. Entulham os leitos dos vales. Vem a chuva forte estival. As enchentes provocadas pelas quedas das trombas d’água nas vertentes das serras tornam-se mais violentas e perigosas. Quem destruiu os bambuais não deveria estar satisfatoriamente informado de seu papel relevante.

Talvez nem interessado em salvaguardar esse bem natural, hoje já em processo de degradação e dizimação. Sensíveis à natureza, os orientais, particularmente os japoneses, valorizam muito os bambus, tornados objetos de culto e arte. Na delicadeza do traço nos desenhos e pinturas, os bambus são representados como figuras fortes e entes naturais divinatórios.

A mensagem deles é que se dobram, vergam, mas não se quebram, vocacionados à fidelidade e à fortaleza. Invocados poeticamente, são, em sua flexível presença, sinais da resistência humana conjugada à beleza.

Salvemos os nossos bambuais. Permitamos que eles nos ajudem com suas hastes longas e se posicionem densamente para evitar o transbordamento dos rios.

Dóli de Castro Ferreira
Publicado no Jornal "O Estafeta"

 

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