O Barbeiro
Piquete e suas histórias infindas

No coração da velha Praça da Bandeira, entre uma padaria e um bar, havia um salão de barbeiro. Modesto, com duas cadeiras de barbeiro que se defrontavam com aparadores espelhados. Na parede, um quadro: Eu vendi a dinheiro - Eu vendi fiado, com os respectivos desenhos: um homem rico e saudável; e outro pobre e esfarrapado.

Escrito nos espelhos os preços: cabelo Cr$ 2,00 - barba Cr$ 1,00. Em volta do salão, cadeiras comuns onde os fregueses se sentavam esperando a vez e, esparramadas sobre elas revistas antigas, lidas e relidas. Num canto, um porta-chapéus; no outro, uma lixeira e também um vaso, coitado, só com terra e tocos de cigarro.

O barbeiro era conhecido por seu Zé. Homem meão de estatura, com faixa etária além dos cinqüenta. Sistemático e mal-humorado. Trazia os óculos caídos na ponta do nariz e, de vez em quando, na fronte. A feitura do corte era por conta dele. Se pedíssemos: Quero assim, assado, lá vinha ele: - O barbeiro aqui sou eu! Eu qui sei, eu qui sei! Só conhecia um tipo de corte: o tal de americano alto.

Com uma máquina manual zero-zero, ele segurava a cabeça do freguês, curvava-a pra frente - da nuca até o topo do coco, a cortadeira cega ia roçando e quase arrancando o couro cabeludo. Se houvesse reclamação que estava doendo, ele dizia: - Que nada, essa máquina é novinha! Ao terminar o corte, passava o dedão pai-de-todos num pote de brilhantina, arrancava um naco e esfregava nas mãos, depois massageava o pouco de cabelo que restava. Penteava-o, fazia um topete e dizia: - Pronto, meu filho, olha pro espelho! Ficou novinho em folha, pode até casá!

Olhando por cima dos óculos e espanando a cadeira de barbeiro com o próprio avental que acabara de retirar do pescoço do freguês, dirigia-se ao pessoal da espera: - Vamo, vamo! Quem é o próximo? Quem é o próximo?

Num sábado, cheguei à barbearia por volta das 10h. Tinha uns cinco na minha frente. Na cadeira do barbeiro, um trangola todo esticado e dormitando fazia a barba. Sentei-me na cadeira de espera, puxei uma revista, “O Cruzeiro” sem as capas, e comecei a manuseá-la procurando o “Amigo da Onça”.

Nisso, ouviu-se um ruído de alguém chutando lata vazia: vinha da Rua Comendador Custódio. Seu Zé, nervoso, deu uma deslizada de navalha no rosto do dito-cujo indo da costeleta até a altura do queixo. Voltou-se para um rolo de papel higiênico que estava sobre o aparador, limpou a navalha, saiu com ela alumiando e foi até a calçada.

O ruído da lata rolando no asfalto estava cada vez mais forte, e perto. Todos nós ficamos calados, apreensivos. O trangola, com um lado do rosto com espuma e o outro não, curioso, inclinou o tórax pra frente e olhou pra rua.

Mais um chute se ouviu e a lata veio rolar nos pés do seu Zé. Gesticulando, falou: - Muito bonito, hei menino! O garoto vendo a navalha fazer ziguezague, deteve-se atônito. Seu Zé passou a navalha pra mão esquerda, enfiou a mão direita no bolso da calça azul-marinho, arrancou um maço de notas, escolheu uma lá do meio e deu ao menino: - Toma aqui seu moleque, nunca mais chute lata em frente da barbearia, tá bom? O menino, de posse da grana, saiu pulando de contente.

Seu Zé pegou a lata de azeite e jogou-a no lixo; arrumou os óculos no nariz, bateu o pincel de barba numa vasilha com sabonete, fez espuma e espumejou o rosto do feiarrão outra vez. Uma mulher, que acompanhava o filho, quebrou o silêncio: - É seu Zé, as crianças de hoje não têm jeito mesmo!

Daquele dia em diante, o barbeiro comprador de latas, nunca mais teve sossego.

Edival da Silva Castro
Jornal "Piquete Cidade Paisagem" - Junho de 2009

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