O nó da cana caiana

Coisa de criança. Bons tempos aqueles da calça curta, do breque e do fincão. Assobiando, ia e vinha para a escola, de bornal a tiracolo; às vezes, o material era transportado no bagageiro de uma "Hércules", quando meu irmão se encontrava ausente. Tinha dia que no meio do caminho o bornal servia de uma das traves de um gol, num racha relâmpago de meia hora, ou aproveitava-o para enchê-lo de goiaba, manga e araçá. Num piscar de olhos encontramo-nos na dobra do tempo, de pijama, cabelos brancos e  pés de galinha.

Então paramos, refletimos e volvemos ao passado. Com olhar fixo no vazio e riso de canto de boca, somos despertos pelo barulho da cidade grande. Acordamos, porém alguns acontecimentos dos tempos longínquos que permanecem gravados; algum dia eles voltam, como se tivessem traspassando agora, como esse:

Sempre quando saía à rua, passava defronte a uma casa grande, amarela, com uma sacada do lado direito - convizinha a dos meus pais. No cantinho da sacada, costumeiramente ficava uma meninota espigadinha, cabelos castanhos claros, sorriso desprendido e olhar meigo. Geralmente, ao sair para a escola, ela estava lá, no seu lugar favorito, e de vez em quando me abordava:
- Olá! hoje está frio! Olá! que manhã linda! Olá! amanhã é feriado!

E assim, entre um olá e um sorriso, foi nascendo aquela coisa gostosa de primeira namorada. Os pensamentos tornaram-se habitados e os cochichos com os amigos mais freqüentes. A vaidade apossou-se de mim: na porção da brilhantina, no borrifar do perfume, no abandono da calça curta, do suspensório, da meia três-quartos, na escolha dos sapatos e até na raspagem da penugem do rosto. Alguns amiguinhos, às vezes, dirigiam-se a mim, com certa ironia:
- Você anda mitidinho, hein!?

Ela, na sacada, dava-me tchauzinho, abria seu sorriso doce, e tinha vez que gesticulava com as mãos, querendo minha presença. Estávamos pertinho, ela de um lado da rua, eu do outro, tão pertinho, que reparava o brilho dos olhos dela quando ela olhava para os meus olhos.

Moravam meus pais numa casa simples. Quartos modestos, sala comum, cozinha gostosa, com fogão a lenha, uma varanda aconchegante onde ficava a rede. No quintal, uma enorme e frondosa mangueira aliviava o verão, alguns pés de milho, leiras de alface, couve, cheiro-verde e tomateiro estaqueado; ao fundo, algumas touceiras de cana caiana.

Numa linda tarde, dessas em que o sol majestoso cumpre seu dever de aquecedor, papai aguava a rua para apagar a poeira. Eu e mais dois amigos, sentados na calçada, deliciávamos a doçura e macieza de uma cana caiana. Ela na sacada, agora estávamos mais íntimos, já que tínhamos trocado algumas juras, o que me facilitou oferecer-lhe um gomo da cana. Ela aceitou, sem pestanejar.

Cortês como um cavalheiro, descasquei dois gomos, retirei a parte mais dura entre eles que é o nó, cortei-o em oito pedaços e mandei-os a ela. Talvez, se tivesse mandado uma banana de dinamite, salvaria o nosso namoro. Do jeito que o portador chegou, saiu correndo, como um foguete, para não ser atingido pela saraivada de nós de cana.

Gargalhadas foram de rolar pela calçada. Papai quis nos molhar se não parássemos com aquela galhofada. Daquele dia em diante nunca mais a vi. O cantinho da sacada, da enorme casa amarela ficou vazio, triste sem o modo dela.

Às vezes, alguém me pega sorrindo de través ou com o olhar estagnado no infinito. Não é nada não, talvez eu esteja pensando em algum fato do passado, entre tantos que trago na memória. Na minha inocência de criança, pensava que o nó da cana caiana fosse macio e doce como o gomo. Arrependido fiquei, pelo gesto involuntário que pratiquei. Ela era tão bonita...

Edival da Silva Castro
Crônica enviada gentilmente pelo autor

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