Carregadeiras de almoço
Para Celeste Aida Antonia da Rosa

Às dez horas elas passavam pelas residências recolhendo marmitas. Eram as carregadeiras de almoço, que deveriam estar às onze horas em ponto junto ao Portão da Limeira, à entrada da Fábrica Presidente Vargas, onde as esperavam operários aguçados pela fome.

Caminhavam apressadas, pois o tempo não espera; nas cabeças, sobre rodilhos de pano, enormes cestas de taquara. Havia as que carregavam pequenas cestas e embornais com garrafas de café. Nada de garrafas térmicas e sim de vidro, muitas arrolhadas com sabugos de milho.

Uma ou outra valia-se de carrinho de madeira, com varais, o que tornava o trabalho menos estafante. Muitas pessoas a elas se referiam simplesmente como marmiteiras ou carregadeiras. Algumas descalças, os calcanhares rachados, as unhas gretadas, as plantas dos pés grossos como couro de bicho, insensíveis às pedrinhas pontiagudas.

Meninos carregadores também tivemos, mas como abriam marmitas na busca de "misturas", um pastel aqui, um bolinho acolá, caíram no descrédito e acabaram sendo preteridos.

Frio coroado de garoa e cerração, sol inclemente ou chuva forte, nada as retinha em casa. Era preciso ir à luta, e com coragem. Em compensação, no fim do mês a alegria de algumas moedas para o cofre da sobrevivência. Quando passavam, um cheiro gostoso de tempero nos assanhava o apetite e provocava água na boca.

As marmitas continham segredos que nos alvoroçavam a imaginação. Nós, crianças, sonhávamos com elas abertas - haveria petiscos para todos os gostos -, uma grande toalha no chão e todos a se fartarem gulosamente como pequenos pantagruéis.

Entregues as marmitas, elas retomavam, lentamente, gastando conversas e rindo despreocupadas. Gostosa a sombra copada das mangueiras e da figueira centenária da vila militar, para a alegria do cigarro e uma parada na Estação da Estrela, para uns goles de água fresca.

Chamava a atenção o jardim junto à estação: o gramado bem verdinho, uma estrela de flores, pinheirinhos convertidos em aves e bichos, e um chafariz em contínua chuva de cintilações. Dava gosto passear os olhos por aquele oásis colorido.

Imagino a aventura diária dessas mulheres assíduas e pontuais no compasso  das estações, as surpresas da paisagem. Guardavam dentro de si a poesia dos caminhos e do azul cambiante da Mantiqueira. Talvez por isso é que fossem de almas leves, alegres e gentis.

Num desfile de 15 de junho, data da nossa emancipação política, tive a surpresa de ver meninas de saias longas, panos pobres e cores discretas, cestas às cabeças - recriação dessas mulheres humildes e dedicadas. Contemplando-as, a memória ressuscitou Nhá Zefa, Dona Maria Damas, Dona Dorva (mãe do Zé Grilo), a Chica Pata, Dona Belmira do Durvalino, a preta Felícia, disputadas pelas donas de casa, respeitáveis e conceituadas pelo cuidado com as marmitas.

Nhá Zefa, conheci-a de perto. Era irmã de Dona Miquelina, famosa pela mezinhas e benzeduras. Lembro sua voz, seus gestos, seu andar. Levava almoço para meu pai. Minha mãe, para agradá-la, oferecia-lhe com freqüência um peixe frito, um croquete, um pastel de carne. Ela sorria em agradecimento, punha a cesta sobre a cabeça e lá ia cheia de dignidade para a sua maratona.

Com a criação do refeitório da Fábrica Presidente Vargas as carregadeiras foram rareando, até que desapareceram do nosso cenário. Estão incrustadas na nossa história, como os engraxates da Praça da Bandeira e os charreteiros que faziam ponto numa das ruas da Vila Duque de Caxias.

Muitos jovens e crianças talvez não saibam que elas existiram. Importante falar-lhes a respeito delas e ensinar-lhes que não só os grandes feitos, mas também o trabalho de pessoas humildes e anônimas tecem as malhas das crônicas sociais.

Chico Máximo
Texto publicado no Jornal "O Estafeta" - Coluna do Chico Máximo
Página formatada em 06 set 2004

 

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