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Carta a
Piquete
Tu
estavas no jornal. Pequena fotografia em preto e branco e uma triste
notícia. Teu retrato estampava a solidão e o abandono conscientes e
implacáveis a que te condenaram por tanto tempo.
O
abandono em que te encontras, sem esperança e sem consolo, dói
demais. Fere-me os olhos a tua imagem; sangra-me o coração o motivo
da notícia. Estação desativada já eras fazia muito tempo. Agora, no
entanto, completamente abandonada estás.
Abandonada de recursos para ficares em pé, sinto-te
murchar feito uma planta que não recebe os cuidados necessários para
seguir em frente. Além do abandono fisico, estás solitária de teus
filhos, que na batalha pela sobrevivência e realização pessoal,
trocaram-te pelo cheiro de óleo e barulho de máquinas.
Foi
preciso. Hoje, ainda és mãe de muitos filhos, mas não os tem a todos
apesar do carinho enorme que sentem por ti. Nós vivemos no longe e
na saudade, olhando-te a distância, mas querendo-te forte e materna
para nos acolher.
Só que
agora, mais uma vez, estás aflita, frágil, despreparada para
proteger e consolar tua própria gente que aí ficou, na esperança de
conseguir bons frutos e futuro certo. Anos após anos, a doença do
abandono te corrói, te consome, sabemos disso, mas tu continuas
exposta ao que te mutila.
Choras e
padeces por teus filhos tão sacrificados e ficas a perguntar até
quando? Por que tanto? Sem respostas, sem consolo, sem saída,
ficaste mesmo entre a estrada que leva embora tuas crias e a
montanha que te cerca e te emoldura, criando uma paisagem de
sonhos.
Mas a
paisagem somente não consegue trazer-te alento e soluções. Terra
mãe, quero chuva de bênçãos sobre teu solo, sobre teus campos, sobre
teus filhos. Quero ver-te desabrochar novamente para a vida e assim
fazer jorrar seiva nova por tuas veias.
Teus
filhos se revitalizarão com ela. Somente assim serás outra vez a
"Cidade Paisagem", paisagem cidade viva. Deus te presenteou com a
natureza gloriosa que te cerca e te emoldura!
Que os
homens que te governam façam justiça a essa maravilha, injetando em
teu seio o progresso e o impulso de que necessitas para seguires
adiante, com fortaleza e esperança.
Eunice
Ferreira Texto publicado no Jornal "O Estafeta" Fotos de Lety
- Montagem de Maux Página formatada em 28 out 2004
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