Carta da Filha Pródiga

Olá, minha cidade. Apesar das circunstâncias tristes gostei tanto de revê-la. Você continua tão bela como me lembro e meu pai sempre dizia. É um pequeno e raro diamante incrustado num maravilhoso anel verde da Serra da Mantiqueira. Não sou capaz de dizer qual é mais belo.

Quero te agradecer minha Piquete por, depois de tanto tempo, receber e abraçar o meu pai em teu coração. Quero agradecer também o carinho e o respeito de teus filhos com ele. Apesar de ter vivido em ti tão pouco tempo,  é de onde tiro as melhores lembranças.

Lembranças de criança... Lembro-me das pizzas que meu pai me fazia, quando me levava aos domingos de manhã, ao General Carneiro, na época em que ele foi presidente do clube, ao som de "Yesterday" dos Beatles (durante toda a minha vida, todas as vezes que ouvi esta música senti o cheiro da pizza de mussarela...). 

Ele gostava também de ouvir o "Fino da Bossa" com Ellis e Jair Rodrigues. Que ano foi esse? Lembro-me do Jardim da Infância e daqueles bichos incríveis. Que lembrança maravilhosa! A onça, o jacaré, o urubu-rei e o cheiro ruim que tinha a sua jaula... Daquele aquário tão misterioso, com sombras e sons tão fantásticos para uma menininha de quatro ou cinco anos. Que sensações raras para uma criança!

Gostava tanto de ir com "tia Eza" (Terezinha Masiero) à "Escola do Seu Leopoldo", quando eram férias. Lembro-me do cheiro dos móveis, da Bandeira, do piano que eu "tocava". Me lembro dos sapos coaxando "foi-não-foi". Lembro-me das decorações de Natal na Praça Duque de Caxias...  As gigantescas árvores de Natal, a cara de um Papai Noel gigante, os enormes e maravilhosos presépios. Sempre tive orgulho de meu pai porisso. Eu achava que foi ele que fez tudo sozinho.

Tantas lembranças... Todas doces. Na minha adolescência ainda vim algumas vezes para o carnaval, fiz novos amigos, mas depois, nem sei porque, nunca mais voltei... Volto agora, Piquete, para te devolver o meu pai. Como ele queria. Dizia que queria passar toda a eternidade olhando suas montanhas. Ele sempre disse que do cemitério de Piquete se enxergava a paisagem mais bonita do mundo.

Ai está ele, Piquete. O Yeyé, o Zé, o Palmyro, o meu pai... Dói tanto a despedida! Mais do que doeria a perda de todos os membros do meu corpo, mas fica comigo um grande orgulho: o de Deus ter me abençoado com um pai tão maravilhosamente especial. Eu não teria escolhido melhor...

Querida cidade, eis teu filho que voltou para casa. Quem sabe um dia eu volte também e mereça um pouquinho do amor e do abraço que esta cidade lhe deu agora que voltou.
Obrigada, Cidade Paisagem. Obrigada minha Piquete.
Descanse em paz, pai.
 
Rossana de Fátima Mazza Masiero
Texto transcrito do Jornal "O Estafeta" - agosto de 2001

 

Página formatada em 26 jul 2004

 

 

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