HOMENAGEM PÓSTUMA

Para mim, ela era somente uma bela árvore nativa, que enfeitava a cabeceira da ponte: uma aroeira. E eu estava feliz por isso. Era vida surgindo às margens de um rio que está morrendo a cada dia. Era a força da tão falada mata ciliar manifestando-se por entre pedras e cimento, ao lado de uma saída de esgoto.

Ela era tão linda e chamava tanta atenção, que as pessoas que por ali passavam e paravam para olhá-la  nem percebiam a feiúra do lugar onde ela nascia. Para os estudiosos, ela era a “Schinus molle” (nome científico) e,  para o povo, aroeira-mole, aroeira-salsa ou bálsamo, da família das anacardiáceas, originária do Brasil e que chega a medir até oito metros.

Para alguns, ela era a árvore que estava atrapalhando, incomodando.
Até que um dia...

Sempre há um dia em que a maldade e a ignorância vencem a bondade e a sabedoria (isso acontece até nos contos de fada), alguém dotado de poder e sem bom-senso (o que é muito comum nos dias de hoje) mandou destruir a árvore em nome da limpeza das margens do rio.

O esgoto a céu aberto permaneceu, o entulho enroscado no pilar da outra ponte também; mas a árvore foi destruída e seus galhos abandonados no leito do rio, para que a próxima enchente os leve para outro lugar. Foi muito triste ver aquela velhinha de quase 90 anos, que, diariamente, vinha de sua casa até a cabeceira da ponte só para ver a árvore, constatar que ela não mais existia.

Aquela senhora não possui diplomas nem medalhas, mas possui uma alma sensível ao que é belo e puro. Ela sabe respeitar a natureza. A sua presença ali, todos os dias, era uma lição àqueles que estivessem abertos a apreender. Foi dolorido também ver as lágrimas brotarem dos olhos da professora, que, no dia anterior, estivera ali fotografando, sem saber que guardava para a posteridade a última imagem.

O que diria o grande e saudoso mestre José Geraldo Evangelista, autor de uma obra literária cheia de lirismo e poesia, à qual deu o nome de “Sertões das Aroeiras”, louvando, assim, esta que é uma árvore nativa da Mata Atlântica e que,  devido às  atitudes de alguns, está desaparecendo de nossa terra?

Aroeira, eu lhe agradeço por ter, gratuitamente, enfeitado os meus dias, perfumado a minha rua, colorido as minhas retinas tão fatigadas. Levá-la-ei sempre na lembrança e na cópia da foto da professora.
Quanto a eles, desculpe-os: "eles não sabem o que fazem!" 

 Celeste Aida Rosa
Texto gentilmente enviado pela autora.

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