De Charretes e Charreteiros

Nossas charretes, tão simpáticas e pitorescas, após décadas de vaivém, desapareceram das nossas ruas. Chegaram os táxis e lentamente as puseram em debandada.

Elas faziam ponto na área hoje ocupada pela Câmara Municipal, onde havia um bebedouro para cavalos, e na Praça do Jambeiro. Mais tarde, e definitivamente, na Rua Coronel Almir, na Vila Duque de Caxias, juntinho à Praça da Bandeira, pertinho da agência da Pássaro Marrom.

O passageiro, era só saltar do ônibus e pular para dentro da charrete. Além do bate-papo descontraído com o charreteiro havia a paisagem a se desdobrar como cartas de baralho.

Elas ficavam enfileiradas, como soldados disciplinados, à espera de uma marcha pela cidade. O bom gosto e a criatividade deram-lhes cores variadas. Havia uma, superenfeitada, com fitas, franjas e flâmulas - parecia a bandeira do Divino. Algumas até ostentavam frases surrupiadas de caminhões.

Para conforto (ou menos desconforto), eram munidas de almofadões que suavizavam pequenos solavancos nas ruas esburacadas. Os cavalos - ágeis e resistentes para longas caminhadas, crinas bem aparadas, ferraduras sempre novas para o desafio das descidas íngremes ou enlameadas. Cavalos bem adestrados, sem rebeldia: sagrada a vida dos passageiros. Nada de relhadas ou xingamentos.

Aliás, o bom charreteiro respeita seus animais, os dois em amável convivência na faina do dia-a-dia. Feriam-se as ruas com longos estalos ou batia-se levemente no varal da charrete com o cabo do chicote crivado de tampinhas de garrafa. Alertados, os eqüinos seguiam em marcha cadenciada. Gostoso o ploc-ploc dos cascos e o cheiro adocicado do estrume a estrelar de verde nossas ruas.

Voz popular que certa vez um dos nossos prefeitos, cioso da limpeza pública, proibiu sujeira de cavalo nas ruas e praças. Mas ninguém segura a natureza. Alguns charreteiros criativos, em atitude de ironia e humor, colocavam sacos de nylon nas caudas dos cavalos, para a coleta dos detritos. E lá iam os animais a exibir as "fraldas", como bebês, para risos e piadas dos piquetenses.

Era elegante andar de charrete. Saboroso passeio pela cidade. Não havia circular. Um, que existiu, apelidado de Cata-Jeca, logo desapareceu do cenário.

Como poucos tinham carros e pouquíssimos eram os táxis, até para os bailes ia-se de charrete: era preciso poupar os sapatos e a roupa da poeira ou da lama das ruas sem calçamento.

Delas também se valiam pessoas idosas avessas às longas caminhadas, mulheres grávidas, professores que lecionavam na zona rural, padrinhos de batismo, a criança toda engalanada, como uma flor, no colo da madrinha... O padre da paróquia ou o médico em visita aos necessitados da cura da alma e do corpo.

Nos fins de semana as crianças eram as donas das charretes: indicavam os itinerários, riam-se um tanto envergonhadas das sonoras flatulências dos animais e, sob a vigilância dos charreteiros, seguravam as rédeas, cheias de vaidade. Era uma aventura deliciosa: talvez mais emocionante que a bicicleta ou o carrinho de rolimã.

Às vezes quebrava-se a harmonia da vida rotineira: um cavalo que dobrava as pernas dianteiras e caia de joelhos, uma criança, como um corisco em perseguição a uma bola, e o encontro com o perigo. O susto do charreteiro. Aglomeração de curiosos. Nada, porém, de graves conseqüências! E a vida voltava ao normal: o barulho das ferraduras nas pedras, o resfolegar dos cavalos suarentos.

Acidentes nas estradas esburacadas do Itabaquara e do Marins chegaram a acontecer: cavalos espantados com ruidosos carros-de-boi, infrenes, derrubando charreteiros e passageiros, charretes avariadas, varais quebrados, rodas para cima.

Foi-se a poesia das charretes, mas a memória registrou alguns charreteiros famosos: João Quilombo, Zé Quilombo e Quilombinho, Francisco Margarido, João Emídio, Chico Mateus, Lico Mota, Vicente Cabeludo, Zé Lipórti, Zé Vás, Jica, Carlos Chumbinho, Antonio Ramiro, Nélson Charreteiro, Zé Cosqueiro, Cardosão, João Barbosa, Seu Saturnino; e os dois últimos a depor as armas, corajosos na competição com os táxis - Luiz Vitório e Carlino Gonçalves.

Vida difícil e sofrida a de um charreteiro: acordar de madrugada, buscar o animal no pasto, alimentá-lo, atrelá-lo à charrete e partir para a maratona de cada dia, sem hora marcada para as refeições e o encontro com os familiares. Vida sofrida, mas gostosa e alegre; a convivência com muita gente, as piadas, os comentários sobre a cidade e a tessitura de novas amizades.

Hoje as charretes se fazem presentes nos desfiles do Dia do Município e nas festas do Tropeiro e do Peão Boiadeiro, e nos remetem saudosamente a um passado de simplicidade e descontração. Que bom se elas voltassem a circular em nossas ruas, pelo menos nos fins de semana, para alegria da garotada e dos adultos que ainda vêem o mundo com olhos de criança.

Chico Máximo
Texto publicado no Jornal "O Estafeta" - Coluna do Chico Máximo
Página formatada em 16 set 2004
Background executado a partir de uma foto de Lety

 

 

MINHA SAUDADE

Saudosa a lembrança de nossas charretes... Além do transporte dos moradores, propiciavam uma fonte de renda e arrecadação de recursos para campanhas filantrópicas.

Quando da chegada do inverno, os grupos escolares empenhavam-se na "Campanha do Agasalho" destinada às crianças e famílias carentes. As associações religiosas aderiam a esta campanha, repetindo o modelo em dezembro, em prol do "Natal dos Pobres". A organização de  bingos, quermesses, festinhas e rifas, além da venda de trabalhos manuais executados por adultos e crianças, permitia a arrecadação de recursos destinados a esses eventos.

Recordo-me das horas passadas, sentada com sacos de estopa ao colo - sacos que haviam sido condutores de batatas, doados pela Cantina da FPV. Com o auxílio de um grampo, prendia, nesses sacos, tiras de retalhos coloridos - recebidos das costureiras da cidade -, arrematados com dois nós bem apertados.

Mamãe, sempre à testa desses movimentos, supervisionava os trabalhos e apreciava minha ligeireza na confecção dos mesmos. A música acompanhava a elaboração desses tapetinhos. Ligada na Rádio "Liberdade" de Guaratinguetá ouvia canções de Moacir Franco, Nelson Gonçalves, Anísio Silva, Ângela Maria, Miltinho, Peri Ribeiro e de tantos outros cantores famosos da época. A lembrança desse fundo musical, juntamente com a paz e a tranqüilidade de tão doces momentos, compõe belíssimos painéis conservados no escaninho da memória.

Os charreteiros, grandes compradores dos tapetinhos de retalhos coloridos, cobriam com eles os assentos de suas charretes. Naquela época, eu já apreciava as formas geométricas e, embora orientada a colocar as cores bem distribuídas, insistia em construir retângulos, losangos e quadrados de uma só tonalidade.

O que mais me encantava era poder tecer, em um fundo escuro, imagens coloridas. Meus tapetinhos diferiam dos demais e estas formas diferenciadas caracterizavam a minha "griffe". Essa assinatura anônima me enchia de prazer quando, sentada em uma charrete, percebia que aquele tapetinho era trabalho meu.

Muitos "carões" eu levei por esta mania, mas teimava em deixar o meu toque pessoal nos tapetinhos das charretes de Piquete...

 

 

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