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Contingente - Contingências
Na procissão do enterro cabia-lhes a guarda
ao Senhor Morto, compungidos ao som das marchas
fúnebres, sob o lilás do pálio tremulante. No dia 29 de
setembro, sobre seus ombros, São Miguel, o anjo
padroeiro, entre flores oscilantes, percorria e
abençoava a cidade.
Se o fogo lavrava nas encostas, varavam a
noite fazendo aceiros e matando com galhos verdes as
chamas ameaçadoras. Voltavam cansados, cheios de sede, a
pele tostada, os cabelos chamuscados. Se os ribeirões
transbordavam invadindo casas e deixando nas ruas
manchas de podridão, acorriam com destreza: salvavam
idosos e crianças, e até móveis, da fúria das
águas.
Se o verão era intenso e as chuvas se
ausentavam teimosas, distribuíam água em carros-pipa:
era uma festa, um vai e vem de baldes e latas, as talhas
e os potes cheios, a alegria do banho e das roupas nos
varais.
Às vezes valiam-se desses mesmos
carros-pipa para, com fortes jatos, acalmar os ânimos
exaltados das torcidas que se engalfinhavam nos famosos
encontros futebolísticos entre o Estrela de Piquete e o
Hepacaré de Lorena.
Quando as explosões na Fábrica Presidente
Vargas nos cobriam de luto, socorriam as vítimas,
doavam-lhes sangue e compartilhavam das nossas
dores.
Eram soldados do contingente militar,
vindos do vale do Paraíba e de vários pontos do estado.
Traziam na bagagem o cheiro da casa paterna e nas
retinas, a paisagem dos caminhos trilhados na infância e
na adolescência.
Ao lado de rapazes piquetenses eram
treinados espartanamente para a missão de guardiões.
Quantas vezes, a caminho do ginásio, deparávamos com
pelotões verdes, muitos rostos ainda imberbes, sob a
rígida disciplina que os preparava para a militância.
Alguns, da zona rural, tímidos e inseguros, eram alvo de
risos e chacotas, pelo marchar desengonçado, a
morosidade dos passos e a lentidão na aprendizagem.
Sentiam-se prisioneiros, afeitos que eram à liberdade
dos campos. Recebiam apelidos, sofriam mas acabavam se
acostumando. O pensamento,
porém, vinculado ao verde da
lavoura.
À chegada desses jovens soldados nossas
moças se alvoroçavam. Havia-os para todos os gostos:
loiros, morenos, negros e mulatos, expansivos e
introspectivos, realistas e sonhadores. Tinha então
início um jogo de sedução. As garotas insurgiam-se
contra os preconceitos de família, driblavam as
exigências paternas e os encontros davam-se às
escondidas, longe de censuras e olhares inquisidores.
Muitos namoros germinaram e floriram aos pés do
altar.
Bonito vê-los nos desfiles, o som marcial
da banda, os aplausos do povo. Botas reluzentes, fuzis
aos ombros, davam um show de elegância sob os olhares
românticos das alunas do Departamento Educacional
impecavelmente uniformizadas, blusas brancas e saias
azul marinho pregueadas.
Ao cair da tarde, meninos brincavam de
soldados, casquetes de papel, cabos de vassoura aos
ombros, o som desarmonioso de latas e brados
autoritários de ordem unida.
Muita gente não sabe que o contingente
militar foi criado ao se inaugurar, em 1909, a Fábrica
de Pólvora sem Fumaça e extinto na década de setenta,
para tristeza das meninas
namoradeiras.
Fatos tristes e pitorescos marcaram a
permanência entre nós de tantos jovens. Acontecimento
doloroso a morte do soldado José Custódio, que pertencia
ao Corpo de Bombeiros, vítima num acidente do carro-pipa
quando entregava água à população, no dia 27 de janeiro
de 1942. Homenageado pelos poderes públicos, uma rua da
cidade ostenta o seu nome, a mesma que foi palco da
tragédia.
A tradição oral comenta um fato pitoresco.
Fala de um soldado freqüentador assíduo da casa da
namorada, paparicado com atenções e gentilezas. Ao dar
baixa, retornou à família, com promessas de breve
regresso para a festa do noivado. O tempo passando e a
moça, como Penélope, paciente e expectante, tecendo as
malhas do enxoval, à espera do seu
Ulisses.
Cansada de esperar, resolveu abrir a pesada
mala que o ex-soldado deixara aos seus cuidados.
Arrombou-a: continha apenas tijolos. Nada sei sobre a
reação da moça: se ficou louca, se ingressou no
convento, suicidou ou ficou solteirona amargando-se de
ódio, mágoa e solidão.
Nada sei também sobre o rapaz oportunista e
espertalhão, aplicador do conto do vigário. Imagino-o na
sua terra natal, namorando e rindo-se maliciosamente da
pobre jovem piquetense.
Fosse noutros tempos, de valentia e honra
lavada com sangue, talvez o nosso personagem picaresco
não tivesse um final
feliz.
Chico Máximo Texto publicado no
Jornal "O Estafeta" Coluna do Chico Máximo Página
formatada em 07 set
2004 |