|
Dedão
indefensável Hoje a correria é desenfreada. Precisa dar sorte ir à Capital e não pegar aquele aguaceiro que entope tudo. Porque lá tudo é entupido: de gente, veículos, trombadinhas e espertalhões. O caso que vamos contar, inédito, passou-se com um advogado provinciano, na sua primeira causa: Felizão por ter pego seu primeiro serviço, o causídico juntou a papelada necessária e foi para a capital. Seu cliente muito rico, dono de terras e fazendas, passou-lhe procuração para todos os fins. De maleta 007, sorridente, tomou o ônibus logo cedinho e partiu para o seu trabalho. Viajou pensando num carro novo. Chegou antes do almoço na rodoviária paulistana, subiu no metrô que o deixou onde queria: defronte a um prédio de vinte andares. No saguão, ao lado dos elevadores, placas indicavam as salas de expediente. Havia salas para tudo: Tabeliães, Clínicas Especializadas, Consórcios, Seguradoras, Consultorias, Centros Contábeis, Ourives, etc... Os elevadores, um servia os andares ímpares e o outro, os pares. E lá foi o nosso Doutor - sala 640, décimo oitavo andar, a fim de lavrar as escrituras de terras recém-adquiridas pelo seu querido constituinte. Todo engravatado, suando, elevador com lotação completa, o perfume dos corpos recendia nas alturas. De vez em quando, passava o lenço na testa e no rosto para enxugar o suor da jornada. Cavaco do ofício. Com a documentação lavrada, chancelada, e depois de ter agradado o notário, deixou o cartório e caminhou de volta ao elevador. Apertou o botão descer e ficou assobiando - silvo prazenteiro. Não demorou, ouviu-se o tilintar do elevador parando. Só coube ele. O pobre do ascensorista estava espremido no seu cantinho. No andar debaixo, desceu um monte de gente e subiu outro monte. Nesse sobe e desce nosso defensor acabou indo para o fundo do elevador, já que iria até ao térreo. O calor e aperto o
irritavam, começaram a dar-lhe enjôo, a gravata parecia enforcá-lo,
afrouxou o nó, procurou trocar de posição descansando o corpo em outra
perna. Ao fazê-lo, pisou no pé de um cidadão. Imediatamente pediu-lhe
desculpas: O homem chegou ao
térreo com os olhos cheios d’água e ainda espremendo o grito. A porta do
elevador mal abriu-se, ele tirou a mão da boca e completou o berro -
na Praça João Mendes, todo mundo ouviu: Aí que ele averiguou-se da verdade. Pisou no pé que tinha a unha do dedão completamente encravada. Seu coração partiu. Esse pisão deixou-o acabrunhado, não quis nem parar para almoçar. Já que estava ameaçando chuva, foi direto para a rodoviária. No ônibus não
conseguiu dormitar. Ficou condoído com o sofrimento daquele pobre homem e
pensou: |
Envie esta página para:
Digite o seu e-mail