Dedão indefensável
 
São Paulo colossal, laboriosa, atrativa! De miscigenação ilimitada e idiomas diversos. Quinze milhões de seres transitando num vai e vem espetacular, apressados, apinhados. Aquela São Paulo prazerosa do tempo da garoa, dos saudosos bondes,  perdeu-se no pular do tempo. Aquela garoa gostosa cedeu lugar a uma fumaça cinzenta que enevoa os prédios e esconde o azul do horizonte.

Hoje a correria  é desenfreada. Precisa dar sorte ir à Capital e não pegar aquele aguaceiro que entope tudo. Porque lá tudo é entupido: de gente, veículos, trombadinhas e espertalhões. O caso que vamos contar, inédito, passou-se com um advogado  provinciano, na sua primeira causa:

Felizão por ter pego seu primeiro serviço, o causídico juntou a papelada necessária e foi para a capital. Seu cliente muito rico, dono de terras e fazendas, passou-lhe  procuração para todos os fins. De maleta 007, sorridente, tomou o ônibus logo  cedinho e partiu para o seu trabalho. Viajou pensando num carro novo. Chegou antes do almoço na rodoviária paulistana, subiu no metrô que o deixou onde queria: defronte a um prédio de vinte andares. No saguão, ao lado dos elevadores, placas indicavam as salas de expediente. Havia salas para tudo: Tabeliães, Clínicas Especializadas, Consórcios, Seguradoras, Consultorias, Centros Contábeis, Ourives, etc...

Os  elevadores, um servia os andares ímpares e o outro, os pares. E lá foi o nosso Doutor - sala 640, décimo oitavo andar, a fim de lavrar as escrituras de terras recém-adquiridas pelo seu querido constituinte. Todo engravatado, suando, elevador com lotação completa, o perfume dos corpos recendia nas alturas.

De vez em quando, passava o lenço na testa e no rosto para enxugar o suor da jornada. Cavaco do ofício. Com a documentação lavrada, chancelada, e depois de ter agradado o notário, deixou o cartório e caminhou de volta ao elevador.

Apertou o botão descer e ficou assobiando -  silvo prazenteiro. Não demorou, ouviu-se o tilintar do elevador parando. Só coube ele. O pobre do ascensorista estava espremido no seu cantinho. No andar debaixo, desceu um monte de gente e subiu outro monte. Nesse sobe e desce nosso defensor acabou indo para o fundo do elevador, já que iria até ao térreo.

O calor e aperto o irritavam, começaram a dar-lhe enjôo, a gravata parecia enforcá-lo, afrouxou o nó, procurou trocar de posição descansando o corpo em outra perna. Ao fazê-lo, pisou no pé de um cidadão. Imediatamente pediu-lhe desculpas:
- Ah, Senhor! foi sem querer!
A vítima  tampou a boca com a mão direita, a única livre, com as bochechas inchadas, num gesto de muita dor, espremeu o grito:
- UUUUUUUUUUUUU...
Graças! o elevador descia sem  parar. Não tinha como se mexer, a pasta o impedia. O Doutor pedia desculpas e o Senhor sem poder falar, balançava  a cabeça que sim - o Doutor pedia desculpas e o Senhor sem poder falar, balançava a cabeça que sim...

O homem chegou ao térreo com os olhos cheios d’água e ainda espremendo o grito. A porta do elevador mal abriu-se, ele tirou a mão da boca e completou o berro - na Praça João Mendes, todo mundo ouviu:
- U ai ai ai ai ai ai ai...
Segurou a perna, levantou o pé esquerdo como se fosse tocar o teto e mostrou aquele dedão grandalhão, roxo, enfaixado da metade da unha para trás.
- Oh, meu Senhor! foi sem querer, foi sem querer!  

Aí que ele averiguou-se da verdade. Pisou no pé que tinha a unha do dedão completamente encravada. Seu coração partiu. Esse pisão deixou-o acabrunhado, não quis nem parar para almoçar. Já que estava ameaçando chuva, foi direto para a  rodoviária.

No ônibus não conseguiu dormitar. Ficou condoído com o sofrimento daquele pobre homem e pensou:
- Puxa vida! São Paulo tem quinze milhões de habitantes, essa quantia vezes dez dedos são cento e cinqüenta milhões de dedos, e fui pisar justamente num dedo com unha encravada? O cara é muito pé-frio! Isso que chamo de dedão indefensável.

Edival da Silva Castro
Crônica enviada gentilmente pelo autor

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