Janela de fasquias

Numa rua arborizada, risonha e plácida, calçada com pedras sextavadas, em uma vila qualquer, morou você. Sua casa nada de especial, construção simples, pintada de cores normais e com duas janelas voltadas para rua.

Ao lado, uma varanda coberta com telhas paulistinhas, que se fazia garagem. As janelas eram de fasquias, com canteiros e flores que davam vida às cortinas de renda forradas de algodão, que impediam a entrada do sol ou fosse devassado o interior da casa.

A janela da esquerda era a sua preferida, um verdadeiro jardim suspenso onde o sol banhava as flores com maior resplandecência. Foi ali, de passagem, que conheci você; debruçada à janela, acompanhava-me com olhares ávidos, eu virava a cabeça para vê-la, até perder-me na dobra da esquina.

Doce rua e discreta janela que me levaram até você. Imagens que ficaram guardadas em minhas retinas, dos dias em que o amor falou mais alto do que o nosso silêncio compenetrado. Olhamos e nossos corações sorriram. A janela e você faziam contraste com as flores coloridas e a cortina.

Sua aparência esguia e loura, misturava-se com a beleza do momento. Não poderia distinguir ou comparar a sutileza daquela imagem; flores, a janela, a cortina e você assemelhavam-se, eu enlouquecia.

Quando passava naquela rua, meus olhos de súbito olhavam para a janela. Nem sempre você estava. A influência da sua presença era tanta no meu subconsciente, que a via debruçada, sorrindo-me, então meu coração alegrava-se somente com a ilusão da sua imagem sedutora.

Naquela janela foi dado nosso primeiro e apaixonado beijo, registro curioso, tive que me ater e agarrar-me a ela para chegar até aos seus lábios, o esforço valeu, foi um beijo fervoroso, quando se entrelaçaram nossas bocas e as línguas se perderam.

Algumas vezes a enganava, conversando com você namorava os beija-flores. Hoje a janela de fasquias está vazia; as flores perderam o encanto, as árvores estão apétalas e sofrem com o inverno; você partiu. A rua de pedras sextavadas ficou triste sem a formosura da sua imagem. Meu coração flutua, rebenta e lastima a sua ausência. Quando por lá passo, às vezes, a cortina está solta e agitando-se sobre o canteiro, dando-me a sensação de um adeus.

Edival da Silva Castro
Crônica enviada gentilmente pelo autor

 

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