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O LADRÃO DE CARROS
Um velho amigo,
aforista por excelência, sempre dizia: "Quanto mais
se aperta, mais se desperta"! Se é criação sua,
desconhecemos, mas concordamos com os dois ditos: o
amigo e o axioma. No arrocho a mente fica mais vigorosa,
mais criativa. O herói desta história não era um
"puxador" na erudita gíria
policial.
Poderíamos
colocá-lo, lá dentro do adágio, como um vivaldino ou,
mais realisticamente, taxá-lo de um saradão de primeira
linha. E ainda, se quiserem, um magnificente
caradura! Ele trabalhava na Fábrica, que como sabem,
é um imenso complexo industrial de onde, como resultado
final, sai uma série enorme de produtos. Nela, além das
oficinas geradoras dos artefatos específicos para nosso
exército e outros lançados ao comércio, existem as de
manutenção, embalagem, etc. O nosso amigo trabalhava na
carpintaria...
Contamos este
fato e omitimos o nome do aqui focalizado por duas
razões: a primeira, por ser demais óbvia dentro do
contexto e a segunda por que nunca soubemos,
conhecendo-o, apenas, pelo apelido. Todavia, se trazemos
à luz este caso é porque ele há muito já se aposentou e
o Diretor participante dos acontecimentos aqui descritos
já faleceu. Assim, não dá bode pro lado de
ninguém...
Quando os
funcionários retiravam-se após o término do expediente,
no portão da Limeira processava-se revista geral em
alguns operários sorteados dentre aqueles muitos que por
ali saíam. A justificativa era que sempre havia alguém
querendo aumentar sua renda familiar fazendo
concorrência com ela, Fábrica, na venda de seus próprios
produtos sem que os responsáveis pelo serviço comercial
soubessem da baixa das
mercadorias.
Como era alto o
número de artigos oferecidos ao mercado, a lista de
"gatos" era também muito diversificada. Mas, voltando ao
nosso homem, dirigindo-se um dia ao Coronel Diretor da
Fábrica, apelou para a teoria dos contrastes: ser pobre
de dinheiro e rico de filhos. Mais parecendo cena de um
capítulo de novela, solicitou, lamurioso, uma permissão
para diariamente descer da fábrica com seu carrinho de
madeira carregado de lascas e sobras da carpintaria.
Economizaria lenha, pois não podia dar-se ao luxo de
possuir um fogão a gás.
O Diretor, nada
vendo naquilo que fugisse às regras do jogo, anuiu, e a
permissão foi concedida. É importante deixar patente que
todos os dias o carrinho era revistado quando passava
pelo portão de saída, mas sempre se encontrou somente o
permitido: gravetos e fragmentos de
madeira.
De segunda à
sexta-feira à tarde, lá vinha o homem com seu
indefectível carrinho. E lhes afirmamos: isso durou
tanto que ele passou a ser conhecido por todos como "o
homem do carrinho".
Muito
justificadamente agora perguntarão: "Por que o título
desta crônica"? Responderemos, oras: - Ele
nunca fora para o trabalho levando qualquer tipo de
carrinho. Como seu serviço era na carpintaria, já do
conhecimento geral, todos os dias, à hora do almoço, ele
construía um, que, à tarde, descia sem qualquer
embaraço.
Muito tempo teve
sua renda aumentada com a venda de carrinhos de madeira,
produto, aliás, não catalogado no serviço comercial da
Fábrica.
Autor: José Palmyro
Masiero "Piquete de meus Amores" Página formatada
em 23 ago
2004
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