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Malnascidos Abandonado
desde filhote, vivo por aí, sob bancos, marquises, varandas
abertas ou em algum lugar em que me possa enfiar. Meu alimento defendo-o nos lixos que remexo. Às vezes, pego-me sentado defronte a uma máquina de assar frango. Aquela guloseima toda girando zonzeia minha cabeça e aguça o paladar. O osso que me jogam, roo com prazer, lambo os caninos e saio agradecido. De rabo entre as pernas, cabisbaixo, farejando, perambulo pelas ruas da cidade. Quando cruzo com algum da minha estirpe, trocamos cheiros. Para alguns, sou forte e valente; por isso, rosno, mostro os dentes e até brigo. Tem cadela que passa acompanhada de um bando de cachorros, não dou a mínima, lá a barafunda é violenta. Uma vez, quando quis participar saí mordido. Meu prazer está nos postes, pneus de carro, moitas de capim, montes de areia e calçadas, locais preferíveis para depositar meus excrementos. A vida de vira-lata é jogada às traças: sem dono, nome, esquecida e espezinhada. A sobrevivência está em alguns sacos de lixo ou nas portas dos açougues; mesmo assim, as migalhas encontradas e recolhidas não justificam o desamparo. A última sacudida de rabo que dei, lembro-me ainda: uma poodle toda faceira passava esnobe na janela de um lindo carrão. Tinha a cor da neve. Laços de fita nas orelhas e tórax vestido, tudo rubro, que a deixavam irresistível. Lati para ela, lati desesperado. Tinha que lhe chamar atenção. Corri, aos latidos corri como doido atrás do carro, mas ele se perdeu dentre os demais. Ela tampouco olhou-me, pois não sou o Vagabundo. Choramingando, enfiei o rabo no vão das pernas e saí atabalhoado. Por onde eu passava, as pessoas enxotavam-me: chispa vadio! Sai sai daqui! Algumas batiam os pés pra me ver longe. A vida de cachorro só é boa pra cachorro de madame. Tem noite que, com a cabeça enfiada entre as patas dianteiras, debaixo das estrelas e banhado pelo luar, procuro aquietar-me do infortúnio. Tem noite que o pesadelo é assustador, sonho com pessoas maltratando-me. Amedrontado, passo a correr a esmo na madrugada adentro. Outro dia, fui parar na sombra de um pedinte. Sem eira nem beira, maltrapilho e sujo, acolheu-me com carinho. Demonstrou o seu afeto num gesto simples, atirando-me um
pedaço de pão e dizendo: Edival da
Silva Castro |
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