
Antigo Ginásio da
FPV, atual sede da IMBEL
Foto da Lety
|
Memórias de um
bom aluno - I, II e II Certa vez, na sala de aula de Trabalhos Manuais, dava aula o professor Mendes. Os alunos gostavam dessa matéria: formar figuras com barro era divertido. Na bancada que ficava no fundo da sala, o professor Dória moldava no barro um busto do Cel. Monte. Os alunos ficavam curiosos para acompanhar o andamento do trabalho. Como era coberto por um pano úmido, não tinham como ver a obra de arte. Naquele dia, o professor Dória chegou à sala. O professor Mendes ficou eufórico e nos apresentou o artista. Quando o professor Dória descobriu o busto, a surpresa... O rosto estava sem o nariz e um dos olhos repuxado. A consternação foi geral. Seu Dória, desapontado, não teve palavras, a não ser dizer que fora brincadeira de mau gosto. Durante a semana o tititi correu pelos quadrantes do ginásio. Não houve responsável. O professor
Dinho Maduro, de Inglês, costumava dar as provas em três partes: parte A,
ditado; parte B, emprego dos verbos to be e to have; parte C, tradução.
Cursávamos a segunda série. Uma turminha do barulho sentava-se no fundo da
sala. Veio a prova. O ditado foi mole. O emprego dos verbos também. Quando
chegou na tradução, havia uma palavra desconhecida do pessoal, uma tal de
umbrella. Uma colega me chamou: – Edival, Edival! O que é umbrella?
Cabisbaixo, respondi em voz alta: – Não sei. Acho que nem os ingleses
sabem o que é isso! Até hoje não sei por que a gargalhada foi
generalizada. O professor Maduro, que estava à frente da sala, ouviu tudo
e replicou: – Eu sei o que é umbrella! Umbrella é zero! É zero! Assim
falou tomando nossas provas. O professor Maduro sempre teve bom coração. O
zero não saiu. Essa passagem do umbrella tornou-se
“unforgettable”. Desenho Dona Giselle
era a professora. De traços delicados, de fina sabedoria. Na matéria tinha
preferência pelas faixas decorativas, com as quais poderia avaliar a
criatividade e o primor de cada um dos alunos. Era costume o professor
adentrar a sala de aula, cumprimentar os alunos, puxar a cadeira, sentar e
fazer a chamada. Numa manhã, após o recreio, a professora Giselle agiu
assim: fez a chamada e foi para a lousa passar a matéria. Quando dava os
primeiros traços da faixa decorativa, uma das alunas da frente chamou-lhe
a atenção: – Professora! Professora! Virando-se perguntou: – O que foi,
menina? – No guarda-pó da senhora tem um chiclete grudado! A professora
passou a mão, tirou o chiclete, enrubesceu, atirou o giz com raiva no chão
e saiu da sala danada da vida. De longe ouvia-se o toque-toque do seu
andar estugado rumo à diretoria. De volta à sala, veio acompanhada do
Subdiretor, professor Norberto Galli, e do Inspetor de Alunos, professor
Wilson Villar. O professor Norberto era durão para tratar com os alunos,
mas compreensível em determinadas situações, e foi logo dizendo: – Não
quero nem saber quem colocou o chiclete na cadeira da professora. Se até o
término das aulas, o bonitinho ou bonitinha que fez isso não se apresentar
na Diretoria, vou suspender a classe inteirinha! Ficamos atônitos,
estáticos a olharmos entre nós. Depois da admoestação não teve mais aula,
a professora saiu juntamente com eles. Ao deixarem a sala, houve um xi
unânime, um xi de medo. Os olhares, então, se voltaram para um único
aluno. Quem colocou o chiclete na cadeira ninguém ficou sabendo, porém o
Laércio bironha não freqüentou a escola nos três dias
consecutivos. O professor
Augusto Ribeiro, além de ser o Diretor do Ginásio, era também professor de
Música. Suas aulas eram voltadas para o solfejo. Dó ré mi dó ré mi ré dó
mi ré... Assim por diante. Era uma matéria diferente, gostosa. As
colcheias, semínimas, semibreves, as próprias claves do sol, fá e dó eram
novidades que entoavam em nossos corações. Numa profícua manhã, o
professor Augusto trouxe o professor Lauro e seu dileto violão. Era sempre
notável a apresentação do professor Lauro. Um verdadeiro concertista, que
tocava a sensibilidade de todos. Após várias músicas conhecidas, dedilhou
a sua preferida – a Marcha do Marinheiro. No meio da melodia, afrouxava as
cordas do violão e fazia-o imitar um Geografia O professor José Leite, ou Zé Leite, como era conhecido no meio estudantil, ministrava aulas de Geografia do Brasil e Geral. Ótimo professor, recorria em suas aulas a todos os expedientes didáticos. Seu critério era chegar à sala de aula, colocar o mapa num prego fixado acima da lousa e desenvolver a matéria. Com uma varinha, como se fosse de condão, ia margeando as regiões do mundo. Como ele mesmo dizia: “Através dos mapas, posso estar em todos os lugares do globo terrestre no mesmo dia, na mesma hora”. Os mapas eram os mais diversos: de orografia, hidrografia, geologia, recursos naturais, economia e de população. Com todo seu donaire, o professor Zé Leite costumava contar algumas passagens pitorescas da sua vida profissional. Volta e meia dizia que, quando ia a São Paulo, costumeiramente se encontrava com o professor Aroldo de Azevedo. Na última vez em que lá esteve, encontrou-o na Praça da Sé e discorreram sobre diversos assuntos, entre eles geografia. Outras vezes, estiveram juntos na 15 de Novembro, no Largo do Arouche, no Viaduto do Chá... Então lhe perguntei: – Professor? Esse tal de Aroldo de Azevedo não trabalha? Sempre que o senhor vai a São Paulo o encontra zanzando pelas ruas! Ninguém se conteve. Uma gargalhada uníssona tomou conta da sala. O professor Zé Leite, com seu jeitão característico, batendo a varinha na mão, calmamente respondeu: – Sabe, Edival, existem coincidências na vida que são difíceis de explicar. Porém, esses encontros com o professor Aroldo de Azevedo são explicáveis: sempre quando vou a São Paulo costumo atualizar-me comprando livros de geografia. Como o geógrafo Aroldo é muito lido, ele está em todas as bancas e livrarias, locais dos nossos encontros, do nosso plá-plá-plá. Através dos livros, óbvio! – “Tá bom”, professor! Dez a zero pro senhor!” Francês Bonjour mês élèves, tout bien? Assim a professora Nely adentrava a sala de aula. Simpática, amável, de cultura polida, entusiasta da romântica língua francesa, suas aulas eram voltadas para maratonas, debates, gincanas entre as séries... A Marselhesa era cantada antes da primeira aula ao menos uma vez por semana, com os alunos perfilados. Bonjour mon ami – Três bien – Quelle heure est-il? Merci! – Qui êtes vous? Ao chegar, sair da escola, ou mesmo no pátio, ouvia-se sempre dos alunos essas locuções. O interesse pela matéria estampava-se na fisionomia de cada um. A técnica de ensino empregada pela professora Nely, mais a sua simpatia, influenciavam no aprendizado. A presença dela em sala de aula era marcante. Ficávamos entristecidos com o seu “au revoir mes enfants”. Unânimes, respondíamos com o coração: – Nous sommes aimés, femme professeur!!! Edival da Silva Castro |
As fotos em preto e branco dessa página foram retiradas do site extinto http://piquete.multiply.com
Envie esta página para:
Digite o seu e-mail