MISTÉRIO DE UMA QUINTA-FEIRA SANTA


Logo após o temporal, as primeiras pessoas que transitaram pela rua da estação tiveram uma surpresa das mais estranhas. Nas poças barrentas criadas pela água despencada, nadavam satisfeitas traíras e sagüirus...

Foi um Deus nos acuda! Num átimo surgiu gente de todos os lados e a pescaria domiciliar acabou com a alegria dos bichinhos. Passados os primeiros momentos de diversão, surgiu a fatal pergunta de alguém mais razoável:
-
De onde vieram estes peixes?
Ai a lógica imperou :
- Veio com a chuva!

Aceso o estopim, a história cresceu, a onda espalhou-se por toda a cidade e transpôs suas divisas. Até um jornal de Lorena publicou o caso da chuva de peixes em Piquete.
- Meu avô contou que certa vez lá em Minas, na terra dele, também choveu peixe e que caiu dourado de mais de vinte quilos!
- Chover peixe quinta-feira santa é mau agouro!
- Isso pra mim é aviso do fim do mundo!

As teorias multiplicavam-se. Como sói acontecer, depois do refestelo na panela dos peixes, a coisa foi caindo no esquecimento. O mistério, todavia, ficara no ar...

As pescarias no rio Paraíba vêm de longo passado. Foram aumentadas gradualmente na razão do crescimento populacional nas duas cidades vizinhas: Piquete e Lorena. Claro que estamos cuidando das pescarias aqui em nossas proximidades.

Nas quintas-feiras santas, piraquaras ou não, "todo mundo" dos dois  municípios baixava e abaixava-se à beira do lendário rio com a esperança de levar a mistura para a sexta-feira santificada, dia proibido de comer carne sanguínea.

Foi assim que naquela quinta sagrada, num dos primeiros anos da década de 40, estava o Paraíba: gente de vara à mão, acervadas, em ambos os lados, canoas subindo e descendo o rio, redes sendo lançadas...

Três operários da Fábrica, pertencentes ao antigo 6º Grupo, residentes em Lorena, foram bem cedo e munidos de canoa e redes. Quase desnivelaram o rio de tanto peixe tirado do mesmo.

Por volta das duas horas da tarde encostaram a embarcação à margem, pois estava ameaçando uma tormenta para nenhum posto meteorológico colocar dúvida. No gramado da orla espalharam aquele mundaréu de peixes aprisionados pelas redes e começaram a repartir entre si os maiores e mais deliciosos, de acordo com o gosto de cada um.

Mas havia peixe demais! Decidiram por distribuir o excesso entre os mais infortunados. Surgiu então um colega do trio, também do 6º Grupo, mas morador em Piquete, que aparentemente havia ido ao rio apenas para uma higiene mental ou então porque todo mundo ia.

Isso crê-se porque estava sem vara e unicamente com um saco que levava ao ombro, vazio. Ele, em compensação, estava meio cheio de caninha. Chegou, sentou-se, papo vai, papo vem, uma dose aqui outra ali e o caneco quase entornou.

Como o aguaceiro ameaçador dava mostras de querer desalojar-se das nuvens pesadonas, grávidas de líquido, e fazer estada aqui por baixo a qualquer momento, os colegas lorenenses encheram o saco de estopa do companheiro pingado de peixes e levaram-no até a antiga ponte do Paraíba, local de parada do "piqueteiro" que estava quase na hora de passar.

Acomodaram-no numa das classes da "Maria Fumaça" e deram a obra como missão cumprida. Resfolegante, esta encostou na estação Rodrigues Alves, hoje totalmente desativada, debaixo de uma chuvarada de respeito.

Dormitante, levantou-se nosso conterrâneo e, apanhando o saco de peixes pela boca (do saco), levou-o às costas; passos incertos saiu no aguaceiro. Ao lado da estação havia uma cerca de arame farpado com alguns fios arrebentados e outros enroscados entre si, por onde todos passavam para economizar três passos até à porteira aberta.

Foi aí que ele passou. Uma ponta de arame pegou na aniagem e foi aquele rombo! Animados pela água da chuva os peixinhos deram de fujões e um a um foram caindo fora da prisão. Poderíamos, para encerrar o caso, admitir sua decepção ao chegar em casa e deparar com a ausência dos nadadores.

Mas tal não aconteceu, pois, após o 6º Grupo os três pescadores lorenenses comentavam com o dito piquetense sobre ela e perguntaram se haviam gostado na casa dele, dos peixes que lhes haviam dado. E não é que o do saco vazio negou, taxativamente, qualquer participação no caso!

Diante do inusitado da situação, concluíram eles pela explicação acima da chuva singular. Cumprindo a promessa de omitir os nomes dos personagens desta peça, ainda hoje um nega, peremptoriamente, ter recebido a peixada que os outros três juram, de pés juntos, que deram.

Examinemos a situação: se o homem do saco vazio, que depois ficou de saco cheio, nega sua presença e do saco na história e a dedução sobre o fato extraordinário a que chegaram os outros três, inválida, a invulgar chuva de peixes que caiu sobre Piquete naquela quinta-feira santa continua sendo um enigma. Fica aqui, então, registrado um acontecimento ótimo para os estudiosos dos fenômenos "piscosológicos".

Autor:  José Palmyro Masiero
"Piquete de meus Amores"
Página formatada em 23 ago 2004

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