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Nas
Trilhas do Folclore
Agosto é
o mês do folclore. Isto mexe com minhas lembranças e me leva ao
encontro dos amigos de infância. Muitos tinham apelidos bem
pitorescos: Dito Picapau, Comida de Onça, Pé Vermelho, Jaú, Zé
Turco, Jorge Lingüiça... Ainda ouço as vozes de
antigamente:
"Zé
Prequeté, tira bicho do pé pra tomar com
café!"
Era assim
que os meninos se dirigiam ao meu irmão José Armando. No início ele
ficava abespinhado, mas depois foi se acostumando e achava graça.
Quando me viam, gritavam em uníssono:
"Chico
Chiquinho montou no burrinho, o burrinho peidou, o
Chiquinho cheirou."
No inicio
eu também me irritava, mas depois fui me acostumando. Eles não
faziam por maldade - eram manifestações espontâneas de alegria e
vitalidade.
Após os
versos maliciosos e irreverentes vinham as brincadeiras de rua: a
bolinha de gude, o pinhão coroado de grãos-de-milho, o pião de
brejaúva, as pipas coloridas no deslizar da brisa.
Na Praça
Marechal Mallet havia as peladas com bola de meias, todos
descalços, chutes à revelia, um emaranhado de pernas, topadas e
caneladas. Gritos e reclamações, xingos e palavrões.
No final,
tudo bem - o suor, a sede e a água refrescante, a paz e a amizade.
Alguns preferiam andar de pernas de pau, ziguezagueantes, pretensos
equilibristas de um sonho que se mancharia de poeira.
Outros
caminhavam sobre duas latinhas cilíndricas perfuradas de cordéis -
semelhavam seres estranhos com pés exóticos e híbridos. Tudo
acontecia num cenário de sossego e silêncio, este alfinetado, vez ou
outra, pelo apito do trenzinho dos operários, o canto das seriemas
no verdolengo dos campos, as cantigas dos carros-de-boi na estrada
do Itabaquara...
Buzinas
de carros não havia. Lembro-me apenas do carro do Tio Acau, esposo
de Dona Djanira Leite Dionísio. Era o único carro existente em
Piquete. Era o Tio Acau quem nos levava a Aparecida para batizados,
casamentos ou pagamento de promessas.
A noite,
enquanto as meninas, sob o olhar vigilante das mães, brincavam de
roda, maré, peteca ou chicotinho queimado, os meninos entregavam-se
a atividades violentas como pular sela, botija ou cabo de guerra.
Era também costume reunirem-se à volta de uma fogueirinha, para
contar histórias de terror, que provocavam calafrios: preferência
por lobisomens que apareciam nas sextas-feiras de lua cheia,
alimentavam-se de titica de galinha, profanavam túmulos e
espreitavam casas em busca de crianças não batizadas. Para
desencantá-los, só a foiçadas ou machadadas.
Todos
tinham medo, mas deliciavam-se com essas narrativas. Havia também os
contos pitorescos recheados das travessuras do Pedro Malasartes.
Embora repetidos, tinham o sabor da novidade.
Famosa a
história em que o danado do Pedro resolvera defecar na estrada e
cobrira tudo com seu chapéu de palha. A um menino que passava disse
que sob o chapéu estava um belo passarinho colorido. Confiou-o à
guarda do garoto, pois precisava ir até a cidade afim de comprar uma
gaiola. As horas passaram e nada do Pedro Malasartes voltar. Cansado
de esperar, o menino resolveu pegar a ave. Levantou rapidamente o
chapéu e - zás-trás - encheu a mão com o falso
passarinho.
Todos
imitavam o pobre menino, com gargalhadas, e aplaudiam a proeza
do lendário herói das malandragens. Noite avançada, meninas e
meninos se recolhiam, e as brincadeiras continuavam nas ruas do
sono. Era um tempo de muita paz e simplicidade.
Chico
Máximo Texto publicado no Jornal "O Estafeta" - Coluna do Chico
Máximo Página formatada em 17 set
2004 |