NHÁ DITA

Nhá Dita morava numa casinha-de-pau-a-pique, na antiga estrada do Itabaquara. Por ela passava gente humilde, muitos vindos da zona rural: tropeiros, pedidores de esmola, andarilhos, vendedores de frangos e frutas.

Havia um senhor que até cana caiana vendia, e na sua linguagem estropiada dizia "cana calhana", o que era motivo de risos e piadas. Quase todos que passavam paravam na casa da preta velha para um copo d'água ou um dedinho de prosa.

Nhá Dita vivia numa pobreza, limpa e silenciosa, a casinha cercada de plantas e flores simples - dálias, beijos, capitães-de-sala, samambaias, espadas-de-são-jorge -, sempre viçosas, além de ervas medicinais as mais variadas, que faziam do seu quintal uma farmácia viva.

Havia uma cerca de bambu entrelaçada de um chuchuzeiro e um pé de batata-doce, sempre floridos. Junto à casa, um córrego de águas limpas e além, os campos do meu avô Horácio Pereira Leite.

Lembro-me do marulho das águas, dos mugidos das vacas e do canto escandaloso de uma seriema lá no alto do morro. Diziam que quando a seriema cantava é porque tinha visto cobra coleando nas encostas.

A preta velha e sua filha Maria Antônia eram lavadeiras conceituadas. Pela manhã e à tarde debruçavam-se sobre o córrego e punham-se a lavar as roupas. Eram muitas as trouxas, gordas, repolhudas, que elas sabiam equilibrar sobre as cabeças.

Eram tão caprichosas, que amassavam folhas verdes de marianeira e as esfregavam nas peças brancas, no coradouro, para que ficassem bem alvas. Quem passasse pelas redondezas poderia contemplar os varais cheios de roupas que mãe e filha iriam passar com ferro-a-brasa, cuidadosamente, para evitar chamuscados de faíscas.

Imagino hoje quantas trouxas deveriam lavar e passar em troca de algumas moedas. Providentes, o quintal sempre lhes oferecia alguma coisa para a mesa.

Nhá Dita andava sempre descalça, as saias longas, à vista os calcanhares grossos e rachados. Por vezes, interrompia a lavagem das roupas e, sentada nas pedras, os pés espalmados, preparava o pito e lentamente degustava as baforadas, como se não tivesse pressa de acabar. Depois guardava pito e rolinho de fumo num dos bolsos da saia e continuava a trabalhar.

Ela nunca ia à igreja, mas em compensação não comia carne na Quaresma, jejuava na Sexta-feira da Paixão, tinha um oratório apinhado de santos e sua filha cuidava, com zelo, dos altares da matriz. Diziam que ela havia feito uma promessa - a de iluminar, dos dois lados, com velas, o Morro do Cruzeiro.

E eu, criança, imaginava o Morro todo iluminado, as chamas trêmulas, piscantes, a noite enfeitada de ouro e prata, toda a população presa àquele espetáculo feérico. Torcia para que a promessa se cumprisse e ardia de curiosidade por saber o porquê daquele voto que ninguém sabia explicar.

Era tudo tão misterioso e sagrado, que ninguém ousava indagar à preta velha. Comentavam que seriam necessárias centenas de velas e se perguntavam onde ela iria conseguir dinheiro para tanto gasto; e se a promessa não fosse cumprida, como iria se arranjar diante de Deus e de toda a corte celeste?

Relembravam velhas promessas - a de uma mulher que, para conseguir a cura do filho picado por cobra, jurara subir de joelhos a ladeira da basílica de Aparecida; a de um homem que, para salvar o filho apunhalado, se comprometera a nunca mais sair de casa.

Achavam tresloucada a idéia da pobre Benedita, que continuava tranqüila ao lado do córrego, com suas saias longas, seu pito e seu quintal povoado de plantas e galinhas.

O tempo foi passando, as crianças crescendo, os velhos morrendo e as coisas sendo esquecidas... Certo dia, longe de casa, recebi uma carta de minha mãe com a notícia da morte da querida Benedita. Falava-me da doença, os pés inchados, os olhos remelentos, toda ela um amontoado de dores e lágrimas. Aposentara o pito e deixara de mascar fumo.

Sempre silenciosa e resignada na pobreza. Morrera em Lorena, longe de sua casinha-de-pau-a-pique, longe do seu córrego e do seu quintal. Senti não ter estado ao funeral.

Imaginei um enterro pobre, flores humildes, sem coroas e disfarces. Imaginei-a, também, ingressando na Eternidade, percorrendo um caminho todo iluminado de velas, sorridente e feliz, ao longe uma Cruz, tudo igualzinho ao que sonhara aqui na terra.

Chico Máximo
Texto publicado no Jornal "O Estafeta" - Coluna do Chico Máximo
Página formatada em 06 set 2004

Background executado a  partir de uma tela de Tarsila do Amaral

 

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