Parte velha da cidade - Ao alto a velha Matriz de São Miguel e logo atrás o Campo Santo
Foto escaneada do livro "Minha Terra... Minha Gente... Minha Vida..." -  João Vieira Soares
Moldura de  Maux

Olhar Piquete

Olhar Piquete do alto do morro do cemitério é importante, porque dá a dimensão da cidade e permite reconstituir a sua história.

Assim, o campo santo, lugar de memória, cumpre plenamente suas funções. A visão completa mostra todas as direções coordenadas pelo fundo do vale principal, eixo da bacia hidrográfica que se desenha pelos vales dos rios e riachos tributários.

Ao fundo, os picos e os vértices agudos dos pontos mais elevados exibem as vertentes dissecadas, isto é, modificadas pela erosão, percorridas pelos vales de aberturas estreitas, configurando os fácies elaborados, morfoclimatizadas pelas erosões tormentosas das chuvas de verão.

Nos sopés, o rolar das pedras conta uma história física dramática, no embate das fortes catadupas que abrem as voçorocas e demandam cuidados. Os morros, cada vez mais povoados, relatam nos vários andares das construções os níveis do aumento populacional e dos rendimentos disponíveis.

Apresentam-se harmonizados pela disposição e arquiteturas: muitas janelas e avarandados. Além de algumas árvores e arbustos floridos no compasso das estações.

Dá para entender o nome aposto à cidade no passado - "cidade presépio"-, hoje preferido por "cidade paisagem". Quem usou a expressão "presépio" estava referenciado nos tradicionais arranjos da cena natalina do estilo napolitano difundidos entre nós desde tempos muito passados.

O modelo europeu italiano dessa representação marcou mais a memória, mesmo nas idealizações mais simplificadas daqueles presépios domésticos que animavam as casas das antigas famílias piquetenses.

Visitar os presépios era uma obrigação social e um rito de homenagem aos donos da casa. Geralmente, um doce, um café, ou simples copo com água constituíam uma retribuição louvada. O Deus-lhe-pague ao final da degustação geralmente não faltava. Um licorzinho também costumava circular como cordialidade bem recebida e, pelo apurado do gosto, o elogio, mas também o pedido da receita.

As relações eram muito mais naturalizadas e, de tão simples e honestas, deixavam em tudo uma aura de paz. Talvez seja isto a felicidade.

Olhando o recorte serrano coberto de brumas num meio de tarde garoenta, é bom lembrar-se disso no alto do morro da quietude. Mas, também, tendo por algumas lápides, fotografias associadas de pessoas a me olhar, congeladas no tempo da eternidade, como que dizendo: Tenho minha história, sou prova testemunhal dessa atuação vislumbrada.

Procure reconhecer em cada desvão, em cada esquina, beco, rua, morros, o que tem sido feito, com tempos cronologicamente demarcados, mas em escala contínua, porque nada se interrompe.

Há marcos e marcas. Indeléveis ou visíveis. Aparentes ou declarados. Que podemos reconstruir. Lá na acomodação dos vales mais amplos da derivação do ribeirão Benfica, uma origem procura denunciar-se como marca, marco de posse, ou sugestão inquietante.

Nos claro-escuros dos ângulos de luz circundados pelas brumas, a luta contínua de um povo que se gestava em buscas, trabalhos, perfídias, graças esperadas e hierarquias.

Fico feliz em ter realizado o curso de Geografia, que me permitiu ler nas construções geomorfológicas o sentido da realização da cidade em que localizo o meu berço e minhas maiores aspirações.

Que o destino lhe seja cumprido pelos votos de seus fundadores que, um dia, ao ver sua Vila Vieira do Piquete ser guindada ao posto de município e depois de Cidade do Piquete, passaram a chamar-se uns aos outros, cheios de entusiasmo, de cidadãos, ou seja, protagonistas conscientes do pleno uso da  expressão cidadania.

Nas atas da Câmara Municipal lê-se que eles lutaram por isso, por abnegação, por propósito e firme vontade. Doavam seus serviços e estavam plenos de seus direitos em igualdade a seus deveres.

Dóli de Castro Ferreira
Publicado no Jornal "O Estafeta" de julho de 2004
Página formatada em 03 ago 2004

 

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