O Tocador de Gaita

Era uma vez... Poderia começar assim a história de um homem que, há quarenta anos, todos os sábados, percorria as ruas da cidade, batendo palmas de casa em casa, a pedir esmolas.

Cego, fazia-se acompanhar de um menino-guia. Óculos escuros,verde-garrafa. Um chapéu de feltro caqui com manchas de suor. Paletó marinho, bem surrado, camisa branca puída pelo tempo, calça de brim rota nos joelhos.

Os pés, protegidos por Alpargatas Roda; sola de corda, bem comum na época. Ao ombro um embornal. Equilibrava-se com um cajado de guatambu.

Além do menino-guia, um cão vira-latas sarnento. Nada mais comum a um homem que vivia das benesses do povo. Conseguia me cativar pela meiguice e porque trocava a esmola recebida com o som mágico de sua gaita.

Aos sábados passava pela minha rua, para mim dia de festa; para ele, talvez, de sofrimento, dia em que anunciava sua miséria e arrastava com os pés cansados, a escuridão de sua vida.

Eu o esperava sentada na calçada. Se chegavam pela manhãzinha, oferecia-lhes um canecão de café com leite, farinha de milho e torradas, quase uma sopa; se mais tarde, minha mãe preparava-lhes um robusto prato feito.

Após se alimentar tomavam uma água fresquinha na caneca de alumínio. Observava-lhe o semblante satisfeito. Era um ritual. Tudo terminado o "Deus lhe pague" que sua gaita produzia. Divina Criatura!

Ana Maria de Gouvêa
Publicado no Jornal "O Estafeta"
Página formatada em 08 set 2004

 

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