Pé  Esquerdo!

O despertador assusta-me. Ao travá-lo, derrubo o radinho que fica sobre o criado-mudo. Acendo a luz, a lâmpada queima. No banheiro a válvula hydra dispara. Ao barbear-me, corto a verruga.

A camisa está sem o botão do colarinho. Vou para a cozinha preparar o café. O fogo está lento e acabo trocando o botijão. O leite derrama, o café sai água de batata, o pão tosta no torrador.

Hoje não é meu dia !!! É sim!... Tenho que ser positivo! Vou para o trabalho. O trânsito está um caos. A avenida principal tem uma faixa de rolamento em reparo. Chego atrasado. Assino o livro de ponto fora do horário. Perco um terço do dia.

Sou bancário de um banco estatal. Minha seção: abertura de contas correntes. Ligo o computador, o sistema está fora do ar. A matriz geradora do programa tem problema energético. Hoje, definitivamente, não é meu dia!

Acontece que não é sexta-feira, nem dia treze. O que será que está acontecendo? Sou otimista, meu astral é jóia! Sempre o foi! O período da manhã termina assim. Saio para o almoço. Puxa, que legal! Tudo correu bem, a não ser o gole de coca cola que caiu na camisa.

Fechando o paletó ninguém irá notar a mancha. Volto ao trabalho. O sistema funciona. Confundo João Varella com João Zarella. Ao dar um delete no Zarella, o faço no programa. Deu a hora, vou embora. Ao pegar o carro no estacionamento, o pneu dianteiro do lado esquerdo está arriado. O estepe vazio.

Chamo o borracheiro e ele leva duas horas para aparecer e duas horas para consertar os furos. Fui pagá-lo, o talão de chegues estava vazio. Tive que emprestar dinheiro de um cara de quem não gosto. Tudo isso deve ser pura coincidência, só pode ser!

O pé de coelho que trago no bolso sempre me deu sorte. Até mesmo as três sementes de romã que se encontram na carteira nunca falharam. Sempre quando saio de casa, faço-o com o pé direito acompanhado do sinal da cruz.

De vez em quando coloco um ramo de arruda em volta da orelha esquerda para evitar mau olhado. Não tenho medo de noites de lua cheia e tampouco de passar sob escadas. Gato preto é tamborim. Sou nascido em trinta e um de outubro.

Cheguei em casa e fui preparar-me para o vespertino futebol “society”. Chuteiras, meias, calção, sunga: tudo legal. A camisa titular estava no coradouro. Como estávamos no horário de verão, às dezoito horas, o sol ainda amoriscava-se da terra.

Bola vai, bola vem. Meu time perdia por um a zero quando o centroavante sofreu pênalti. Fui cobrá-lo, sou canhoto. O goleiro de dois metros gesticulava-se na minha frente, com os braços abertos. Preparei a bola com carinho, na marca fatídica: corri para o chute... Perdemos o jogo de dois a zero. Que dia, hein!

Então lembrei-me que pela manhã, ao levantar-me, o fiz com o pé esquerdo. Amanhã, não posso esquecer; quando o despertador me aborrecer, não vou derrubar o radinho - me levantarei com o pé direito. E minha namorada? Cadê? Não me ligou o dia todo? Ah! lembrei-me que o celular está fora de área por falta de “cash”. Sou um durango pé esquerdo!!!

Edival da Silva Castro
Crônica enviada gentilmente pelo autor

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