Piquete a
Sudoeste
Se estes versos merecem valor;
não são do poeta
a obra perfeita,
mas flores e frutos da terra do amor
legados
por Deus para a nossa colheita!
(de um "Canto à Cidade
Paisagem")
Chega às montanhas piquetenses um dos Peregrinos
da "Ordem dos Andarilhos do Bem" ("Il Bene Andanti"). Fascinado, o
viandante de outros mares e continentes descortina o Vale do
Paraíba.
Encanta-se diante de um horizonte como nunca vira
igual. Embevecido, vislumbra a vasta planície que se desdobra da
Mantiqueira à Serra do Mar. E, ao fundo, além, as modestas colinas e
vargens por onde serpenteia o rio milenar, denominando a região
paraibana.
A
partir da serra, a visão não alcança distintamente o velho rio,
cujas águas lentas seguem como se indiferentes à história do Vale e
às lendas ao longo de suas margens.
Nos
trechos próximos às cidades antigas, perduram as memórias de
heróicas expedições paulistas. Eram os bandeirantes em demanda da
Mantiqueira, à busca do ouro, além dos Marins, na direção das Minas
Gerais; noutras curvas e recantos do Paraíba, na oralidade mística
dos pescadores, ainda se ouvem os contos caipiras; são enredos
folclóricos, em que sobrevivem os temores atávicos ao saci pererê,
boitatá, corpo seco ou à caipora, Iara e mula-sem-cabeça; enquanto
isso, num remanso das águas, à margem de colinas pedregosas,
formam-se leves redemoinhos no local de onde veio a
Padroeira...
Ainda a partir do Pico dos Marins, o viageiro demora o
olhar sobre esparsas capoeiras e bosques diminutos a distância.
Tristemente, não vê mais que os últimos vestígios: de antigas matas,
nas fraldas e subidas ao longo da serra.
Mais distante, a sudoeste de Piquete, destacam-se
pequenas grotas e vales estreitos. Tudo a perder de vista, depois do
Morro do Cruzeiro e além do Rio do Ronco. Então, "bem prá lá da
Vargem Grande", prevalecem terrenos quase desnudos de árvores ou
arvoredos, onde outrora predominavam matas, índios e ribeiros
barulhentos; depois, muito depois, veio o ciclo dos cafezais e das
grandes fazendas até que tudo se exauriu
melancolicamente.
E o
Estrangeiro Peregrino, finalmente, desce a Mantiqueira e percorre a
Cidade Paisagem. Comovido, sente-se intruso de um presépio da
natureza. Cenário magnífico que marca este recôndito entre montanhas
e colinas como as da Natividade: tudo como um dia já percebeu e
registrou em livro memorável o historiador - antigo Mestre e amigo
José Geraldo Evangelista (Prof. Zito); assim, tanto o Cronista
Emérito dos "Eventos Lorenenses do Século XIX", como o "Peregrino do
Bem" - já com destino a outras paragens - certamente terão sido mais
felizes que o aprendiz de poeta, cujos versos nem sempre dizem
quanto desejaria...
Nelo
Pelegrine
Texto publicado no Jornal "O Estafeta" - outubro de
1998
Página formatada em 10 set
2004