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Pretas
Velhas
Ainda ouço as pretas velhas da infância e adolescência.
Nhá Dita, lavadeira, casinha de pau-a-pique, longas baforadas no
pito de barro, e a promessa de iluminar com velas o Morro do
Cruzeiro.
A
Rosinha, magra, falante, mãe-de-leite de dezenas de recém-nascidos.
Tia Venância, que todos os anos, por ocasião do Natal, vinha
hospedar-se em casa para assistir à missa do
galo.
Dona Rosa Paulino e sua filha Manezé, donas de um hotel
simples e popular, famoso pela brancura dos lençóis e os pratos
variados. Dona Tolentina, perita no manejo dos tachos de cobre bem
areados: ninguém melhor que ela fazia balas de
café.
As
irmãs Meméia, doceiras e cozinheiras de mão cheia, difícil alguém
que não tivesse provado das suas iguarias, tempero para ninguém
botar defeito. A Bá, cujo nome de batismo era Francisca, fala mansa
e cadenciada, uma vida inteira dedicada aos filhos e netos do Seu
Luiz Arantes Júnior.
A
Conceiçãozinha, presença obrigatória nas festas juninas: varava as
noites e as madrugadas dançando jongo e cantando nos terreiros
enfeitados de bandeirinhas, ao som de batuques e
violas.
Outra preta, a Adelina, ocupa um lugar especial na
minha vida. Menina ainda, filha de escravos alforriados, foi morar
com minha avó paterna, dona da fazenda Bela Vista. A sua sombra
cresceu e fez-se moça. Tornou-se gente da casa, amada e
respeitada.
Através dela conheci a crônica da família; nos seus
caminhos e descaminhos. As crianças a chamavam de madrinha e
sentiam-se felizes em o fazer, como se isso constituísse uma
insígnia a ser ostentada com vaidade.
No
velho casarão do meu avô Chiquinho Máximo desdobrava-se em mil
afazeres. Dava conta de tudo, na horinha certa. Imperava na espaçosa
cozinha, o assoalho de tábuas largas, o fogão sempre aceso, o calor
da lenha a perfumar a casa. Foi nessa cozinha que a ouvimos narrar
acontecimentos do nosso Piquete antigo.
Abusávamos da sua paciência e a fazíamos repetir
"causos" e lendas que sempre despontavam como se fossem novos,
contados pela primeira vez. Viajávamos pelos meandros do imaginário
e nos encantávamos com as "estórias" que adquiriam sabor de
veracidade: lobisomens que perseguiam crianças nas noites de lua
cheia e se alimentavam de titica de galinha, almas penadas, o corpo
seco da matinha do Seu Heitor Vilela Nunes, o padre que
prendera num quarto um gato ladrão, para surrá-lo com um relho, e
acabou vítima da vingança, esvaindo-se em sangue, as veias do
pescoço rasgadas pelas unhas do felino.
Agradava-nos muito mais a história de outro padre que
morava num chalé antigo, o madeirame carcomido pelos carunchos e
pelo tempo. Certa noite alguns meninos amarraram palha de milho na
cauda de um gato e atearam fogo. Desesperado, o animal infiltrou-se
no forro do casarão. Enquanto o padre dormia, as chamas se
alvoroçavam. Na rua, com baldes e latas d'água, a população gritava
aflita: "Acorda,
papa-hóstia, dos braços da folgazona, que o papa-rato está com a
clemência no rabo. E se não acudir com a abundância, lá se vai
a traficância."
A Adelina, como uma mestra, nos dava os significados
das palavras: papa-hóstia, o padre; papa-rato, o gato; folgazona, a
cama; clemência, o fogo; abundância, a água e traficância, o
casarão. Sentíamos prazer em repetir os versos, à exaustão, e os
levávamos para as ruas, nos encontros com os amigos de
brincadeiras.
Conhecedora de "simpatias", se uma criança demorava a
falar, aconselhava a mãe a dar-lhe água na casca do ovo ou fazer um
pintinho piar-lhe dentro da boca. Não havia, segundo ela, melhor
remédio.
Sabia também várias artes para curar doenças,
enxaquecas e mal-estar. Quantas vezes a vi com raminhos de arruda às
orelhas ou rodelas de batata a circundar-lhe a fronte, nos dias de
intensa dor de cabeça.
Um oratório apinhado de santos, com velas e palmas
bentas, era o altar para onde dirigia preces nos dias de temporal e
de enchente brava no ribeirão. Talvez rezasse também pela paz de
nossa família e pelos nossos mortos.
Morreu com mais de oitenta anos. Com a velhice, a
brancura dos cabelos, a lentidão dos passos, a cegueira e o
descompasso da memória. Alma pura, isenta de maldade, deixou-nos uma
lição: a ciência do bem-querer e do
bem-viver.
Várias fotografias, algumas já esmaecidas e tisnadas,
são lembranças da sua passagem por nós. Fazem parte do álbum de
família
Chico
Máximo Texto publicado no Jornal "O Estafeta" - Coluna do Chico
Máximo Página formatada em 17 set
2004 |