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Reminiscência
carnavalesca
Poucos ainda
se lembram quando o "Barba de Paca" funcionava lá na rua Major Carlos
Ribeiro, no andar superior de um sobrado vizinho ao Cine Glória. Uma
escada comprida e estreita ligava a calçada até a entrada do salão. Foi lá
que debutei no carnaval.
Não passava
de um pivetinho de calças curtas. Vou contar o que se passou naquela
noite, mas garanto que isso não vai melhorar a vida de ninguém, os
juros não vão cair e os árabes e judeus continuarão se amando ao modo
deles.
Fiz birra
para acompanhar meu pai, que tocaria no conjunto. Minha intenção era
conhecer o tal barba de paca. Explico: quando ouvi o nome do clube, minha
curiosidade deu pulos. Barba eu sabia o que era, mas paca nem idéia.
Disseram que era um animal.
Como não
conseguia formar uma idéia dele, imaginei uma espécie de cachorro com
barbas tipo Papai Noel. Criei um monstrengo. Comparando, hoje, o ET de
Varginha era um Robert Redford perto do meu bicho, muito mais para bicho
papão.
Cheguei ao
clube ainda vazio, com meu pai, e neca de barba ou qualquer coisa que
sugerisse uma paca. Somente um teto trançado de serpentinas, algumas
máscaras nas paredes, muita iluminação... Só se a paca barbuda chegasse
mais tarde. Em vão.
Aos poucos o
salão foi enchendo de gente, muitos fantasiados. Dos músicos,
infelizmente, só me lembro do meu pai e do Adjacy Murici tocando piston;
das pessoas do saIão, apenas o João de Deus, que parecia ser o dono do
pedaço.
Começou o
baile. Quase morri de susto. O conjunto tocava tão alto que pensei que com
mais algumas bumbadas o prédio se desmoronaria a qualquer momento. No meio
do salão a massa pulava como se o chão fosse brasa. Bocas e mais bocas ,
gritando "Mamãe, eu quero mamar..." Era só o que faltava! Aquela
marmanjada clamando por mamadeira. Francamente!
Foi demais.
Encostei-me no tablado dos músicos e adormeci. De repente acordei no colo
do meu pai. Quando olhei para o salão só vi socos e pontapés, mulherada
gritando, palavrões. O pau comendo adoidado.
Todo mundo -
espremendo-se para sair pela única porta. Só podia dar no que deu. Gente
rolando escada abaixo. Santo ajuda pra baixo mas não se responsabiliza
pela aterragem.
Sentiram o
fim da linha? Não achei a melhor graça no carnaval, conceito que mudei
depois, mas a tal paca de barba continua me desafiando até
hoje.
José
Palmyro Masiero
Página
formatada em 05 set 2004 |
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