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Reminiscências de um Natal
Tia Venância, preta velha, morava no morro do Cruzeiro.
Fora amiga íntima de minha avó, razão do carinho que minha mãe lhe
dedicava. Conheci-a já idosa, passos demorados, cabelos
embranquecidos.
Todos os
anos, por ocasião do Natal, hospedava-se em casa. A missa do galo
fazia parte do seu calendário. Comovia-se com os cânticos e os sinos
que anunciavam a estrela de Belém. Chegava de mansinho, na sacola o
melhor vestido de algodão e nas mãos doces de figo cristalizados ou
ovos de galinha caipira enrolados em macia palha de milho. "Não
precisava, tia Venância." "Mas eu quis trazer. Agora é só
aceitar."
Recebíamo-la com respeito, até com certa veneração -
parecia saída das entranhas do tempo, das lonjuras da senzala,
figura amorosa de negra paciente e conformada. Até tínhamos vontade
de que ficasse morando conosco.
Foi num
Natal... há muitos anos. Finda a missa do galo, minha mãe e tia
Venância de volta a casa - rumor de passos, vozes abafadas. Meus
irmãos em sono profundo. Quando o silêncio repousou sobre as coisas,
cauteloso, passos de ladrão, fui até a sala.
Numa
mesinha, o Menino Jesus, como um órfão, sem Nossa Senhora e São
José. Atrás da porta, ao lado de três sapatos de criança, três
pratinhos de louça - imitação de porcelana. No centro de cada
pratinho, uma moeda amarela de um mil réis - nada
mais.
Lembranças de um Papai Noel que passara primeiro por
todas as casas e nos deixara para o fim da viagem. Sabíamos que em
Natal algum nos chegariam às mãos brinquedos caros e sofisticados.
Contentávamo-nos com coisas simples - bolinhas de gude, carrinhos de
madeira, canequinhas de louça, caixinhas de lápis de cor. Mas não as
exibíamos aos companheiros, por acanhamento.
Na
quietude do quarto imaginei a noite crivada de estrelas e povoada de
anjos. Pensei na gruta de Belém e nos pintinhos que já deviam ter se
libertado das cascas - futuros galos músicos de bicos sonoros a
varrer o chão.
Era a
preta Adelina quem, no casarão do meu avô, se preocupava com deitar
as galinhas vinte e um dias antes do Natal e torcia para que os
"galos musgos", como dizia, fossem saudáveis e excelentes cantores
de quintal.
Adormeci
sonhando com os presépios a visitar. Havia vários deles na cidade.
Famoso o da Marica Pinto, que morava com uma prima cega no bairro do
Poço Fundo, numa casinha de pobreza franciscana. O seu
presépio era um emaranhado de ramos de taquara, o Menino Deus quase
sufocado no meio de tanta galharia. Um caminho de areia ladeado de
pedrinhas levaria até a gruta os três Reis Magos que já estariam
viajando. Carneiros maiores que pastores, fitas coloridas, patinhos
num lago de espelhos, bonequinhas de celulóide... e um pires para
esmolas: seria preciso comprar velas para se iluminar o sono do
Menino.
Tradição
visitar aquele presépio e levar presentes às duas velhinhas, de
preferência arroz, açúcar, feijão, banha, pó-de-café. Em alegre
retribuição, um cafezinho coado na hora, bem fraquinho, servido em
canequinhas de ágata com pinceladas de flores e voejos de
borboletas.
Quando
acordasse, teria um programa a cumprir: a missa das crianças, um
almoço melhorado e, à tarde, a passeata da meninada pelas ruas de
Piquete, hosanas e vivas ao Cristo menino entronizado num andor, Ele
de pezinho, túnica branca, Príncipe da Paz.
Gostava
de ver os velhos tirarem os chapéus, se curvarem e se benzerem
diante da divina Criança que passava. Encantava-nos, na igreja, um
Menino Jesus que segurava um cofrezinho onde se depositavam
moedas e, a cada donativo Ele movimentava a cabeça em
agradecimento.
Aquela
minha moeda do pratinho, não sei que fim levou - se no cofre do
Menino Deus ou na venda do Seu Serafim Moreira de Andrade, onde
havia balas de vela, bem açucaradas, aprisionadas em vidros
reluzentes.
Às vezes
paro e penso se aquelas três moedas não teriam sido lembranças da
tia Venância, presença negra a enriquecer os nossos Natais de
alegria mansa e contagiante.
Chico Máximo Texto publicado no Jornal "O Estafeta"
- Coluna do Chico Máximo Página formatada em 17 set
2004 |