Resplendor - O Comedor de Paletó.

Resplendor nasceu na fazenda Monte Azul-MG. Ainda vitelo, demonstrava evidências em ser um grande e  vistoso miúra. Ao saciar a fome nas tetas da mãe, saía pinoteando pasto a fora. Essa correria  propiciou-lhe o desenvolvimento dos músculos. Como garrote chegou a  pesar doze  arrobas. Ao tornar-se touro ganhou o nome de Resplendor, pelo seu tamanhão e fulgor mesclado: preto como ébano e branco como neve. De porte magnífico, chifres curvos apavorantes, feição  bravia e cupim aprumado - tornou-se a essência da raça. Feroz e sanhudo, não aceitava estranhos na malhada. Passou a ser reprodutor. Sua fama correu currais. Seu sêmen viajou para muito longe, voou  além-mares. O dono do Resplendor, um fazendeiro pacato e trabalhador, tinha quatro filhos: três mulheres e um varão. Este, cursava a faculdade de medicina em Alfenas-MG  e não ficava na fazenda, nem nas férias. Não nascera agreste. Seu pai sempre lhe cobrava:
- Filho! quando você terminar a faculdade, venha tomar conta da  fazenda. Suas irmãs não têm como lidar com isso. Só você.
E o universitário respondia:
- Não, não vou não! O touro come paletó.
E assim os anos  se passaram e o rapaz tornou-se médico. E não quis saber mesmo da  fazenda. Foi cuidar da sua vida. O pai,  já idoso e cansado, numa última tentativa convidou-o para cuidar da fazenda, do contrário tinha que vendê-la.
- Filho! agora que você está desimpedido dos estudos, venha cuidar da fazenda. Dá pra você conciliar fazenda e medicina.
- Não, não vou não! O touro come paletó
Seu pai intrigado com essa estória: “O touro come paletó”, quis saber do que se tratava, e um dia chamou o filho para dar-lhe explicações.
- Meu filho, conta-me essa estória!
- Sabe papai! quando eu era pequeno, o seu Tião (capataz) proibiu-me de chegar perto do Resplendor. E contou: Certa vez, apareceu um fazendeiro de outras plagas para conhecer a notoriedade do touro Resplendor. Pelo jeito parecia pessoa fina. Chegou numa Dakota Sport, panamá aba larga e paletó. Seu Tião não teve tempo de avisar ao homem da brabeza do touro. Quando aquele adentrou o curral, o animal partiu-lhe pra cima e foi-lhe arrancando o paletó nos chifres. Se não fosse a presença de espírito do seu Tião em puxar o homem pelo pescoço, o touro o teria comido inteirinho. Graças a Deus que comeu somente o paletó. Um chique paletó bordô. Então, toda vez que eu saía no quintal ou me encontrava nas imediações do curral, o seu Tião lá do campo gritava: - Cuidado menino! Cuidado com o touro que come paletó. Eu, medroso, corria pra dentro de casa e o seu Tião esborrachava-se em gargalhadas. Foi assim que fui tomando desânimo pela fazenda.
Não tardou, as filhas casaram-se e partiram. O Resplendor foi vendido e mais tarde a fazenda. Assim, o varão pode clinicar tranqüilo na capital de São Paulo, sem nunca mais ouvir falar do Resplendor, o comedor de paletó.

Edival da Silva Castro
Crônica enviada gentilmente pelo autor

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